sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Furacões estão mais frequentes e destruidores este ano?

Harvey, Irma, Maria e, agora, Nate - um furacão atrás do outro nos Estados Unidos e no Caribe.
Depois de matar mais de 20 pessoas em Honduras, Costa Rica e Nicarágua, a tempestade Nate deve ganhar força e chegar aos EUA como furacão de categoria 1 na escala Saffir-Simpson, que mede os fenômenos pela intensidade dos ventos e o potencial de destruição.
Nate está caminho do Texas e da Flórida, que ainda se recuperam dos estragos provocados por outros dois furacões, Harvey e Irma. Ambos derrubaram casas, provocaram inundações e mataram dezenas de pessoas nos EUA e no Caribe.
À espera da tempestade, estado de emergência foi declarado em Nova Orleans, no Estado da Louisiana e em 29 municípios da Flórida.
 
Por que tanto furacão?
Não é só impressão. O mundo está tendo mais furacões este ano que o normal. A quantidade e a intensidade das tempestades de grandes proporções registradas este ano estão acima da média anual.
Shuai Wang, pesquisador da Faculdade de Ciências Naturais do Imperial College London, explica que a média anual de furacões no Atlântico é de 6,2, conforme a série histórica de 1968 a 2016 da Agência Norte-Americana de Administração Atmosférica e Oceânica.
Em 2017, antes mesmo do término do período de tempestades tropicais, já foram registrados sete furacões, quatro deles de grande proporções - classificados em categorias superiores a 3 na escala Saffir-Simpson. Nate pode ser o oitavo, se cumprir as previsões dos meteorologistas e chegar à escala 1.
"Ainda é cedo para sabermos a quantidade de furacões que teremos em 2017. Mas já podemos dizer que tivemos tempestades mais intensas que a média histórica", diz Wang.
Vários furacões, mesma rota

Em agosto, o furacão Harvey provocou estragos no Texas, Houston e Louisiana, matando pelo menos 47 pessoas. Pouco depois, entre nos dias 6 e 7 de setembro, o furacão Irma arrasou várias cidades do Caribe e o sul da Flórida, provocando mais de 60 mortes.
Numa infeliz coincidência, a mesma região afetada pelo Irma se tornou rota do furacão Maria e, agora, do Nate. Os ventos de até 260 km/h do Maria destelharam casas na ilha de Dominica - até o primeiro-ministro do país teve que ser resgatado da residência oficial.
Em sua passagem na quinta e sexta-feira por Costa Rica, Nicarágua e Honduras, o Nate provocou inundações, deslizamentos e danificou casas.
Além dos mais de 20 mortos, pelo menos 20 pessoas estão desaparecidas. Na Costa Rica, 400 mil pessoas ficaram sem água corrente e milhares estão em abrigos.

Altas temperaturas

O meteorologista Bob Henson, do Weather Underground, serviço norte-americano de previsão meteorológica, diz que as altas temperaturas do oceano alcançadas este ano podem ter contribuído para a força das tempestades.
"Já alcançamos, antes de terminar o ano, mais tempestades que a média do ano inteiro", disse.
Segundo Henson, por causa das mudanças climáticas, a intensidade dos furacões aumentou nas últimas três décadas. O ano de 2005 foi o que mais registrou furacões - 15 no total, entre os quais o Katrina, que matou ao menos 1,8 mil pessoas nos Estados Unidos.
"Podemos estar tendo furacões mais fortes associados ao fenômeno do aquecimento global. A temperatura da água afeta a intensidade da tempestade, embora não haja evidência de que influencie na quantidade", avaliou.
A opinião de que o aquecimento global tem papel relevante na intensidade dos furacões é compartilhada pelo pesquisador Shuai Wang, que prevê tempestades cada vez mais fortes se nada for feito para reverter o aumento da temperatura dos oceanos.
"O furacão é como um motor que precisa de combustível. A lógica é que, com a mudança climática, o oceano fica mais quente e gera mais energia para o ciclone, que acaba causando mais estragos quando alcança o continente", explicou.
"Os pesquisadores divergem sobre o efeito a longo prazo do aquecimento global. Eu acho que, se a temperatura continuar aumentando, teremos ciclones mais intensos", completou Wang.
Lógica parecida serve para desastres causados por excesso de chuvas, as chamadas monções. Para Bob Henson, a intensidade pode ter aumentado por causa do aquecimento solar.
"Temperaturas mais altas favorecem a evaporação das águas. O ambiente úmido da atmosfera permite chuvas mais fortes."

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

60 anos da bola pratiada que abriu a corrida espacial

Completam-se nesta quarta-feira 60 anos do lançamento do primeiro satélite Sputnik, aquela bola prateada que abriu a corrida espacial. Sua história, que levaria décadas para vir a público, está muito relacionada ao desenvolvimento das armas nucleares soviéticas.
 
Selo comemorativo da Sputinik 1
 
Em 1953, os Estados Unidos já não detinham o monopólio da bomba atômica. A União Soviética havia detonado seu primeiro dispositivo de fissão em 1949, e agora os esforços de ambos os países se dirigiam para a bomba de fusão. Os EUA testaram a primeira no Pacífico, no segundo semestre de 1952; a URSS fez o mesmo nove meses depois no Cazaquistão.
A bomba soviética rendeu apenas 400 quilotons, frente os 10 megatons (25 vezes mais) da norte-americana. Tratava-se de um protótipo, desenvolvido pelo físico Andrei Sakharov, que, apesar do seu sucesso, estava condenado de antemão: diferentemente do artefato norte-americano, este não tinha como aumentar muito mais a sua potência, embora isso não fosse sabido naquela época. Imaginava-se que bastaria elevar a quantidade de material físsil para aumentar de forma proporcional a sua capacidade destrutiva.
No final de 1953, Sakharov foi convocado a uma reunião do Politburo para responder a uma pergunta crucial: quanto pesaria uma bomba de hidrogênio cuja potência pudesse se medir em megatons?
Ele não tinha nem ideia. Com base no resultado da sua primeira bomba, as armas com potências muito mais elevada deveriam ser também muito maiores. Dois, três, quatro toneladas? Pressionado a dar uma resposta rapidamente, ele preferiu se cobrir com uma ampla margem de segurança: entre cinco e seis toneladas.
Assim seria feito, então. A URSS obteria um míssil capaz de enviar essa carga ao outro lado do mundo.
O problema é que, um ano antes, a equipe dirigida por Sergei Korolev havia começado a trabalhar em um novo foguete projetado para uma carga de apenas três toneladas. De repente, as especificações dobraram, para incredulidade de todos os técnicos. Ninguém jamais havia cogitado tal desafio. E ele precisaria estar pronto para o lançamento em menos de quatro anos.
 
O satélite artificial Sputnik I
 
Vários enfoques foram tentados: foguetes de vários estágios, foguetes médios unidos lado a lado, veículos enormes que transferiam combustível dos tanques de reserva para o principal em pleno voo...
Finalmente, Valeri Mishin, o braço-direito de Korolev, topou com a solução mais simples: agrupar quatro propulsores em torno de um corpo central, como um maço de aspargos, e ligá-los todos ao mesmo tempo. Isso implicava acionar 32 motores de uma só vez — os 20 principais, mais 12 de direcionamento. Ao chegar a 50 quilômetros de altura, os quatro propulsores já esgotados se desprenderiam, e o central seguiria viagem.
Um foguete com essas características já não seria um cilindro esbelto, e sim uma espécie de cone com mais de 10 metros de diâmetro na base. Pesaria no mínimo 250 toneladas e exigiria instalações de lançamento até então inexistentes. Nunca se havia visto nada igual.
Acompanhando a nomenclatura de projetos anteriores, este se denominaria R-7. O “R” era de raketa (“foguete”, em russo). Mas logo todo mundo começou a se referir a ele pelo apelido carinhoso de Semiorka (“sétimo”).
 
 
Para o R-7, Korolev e sua equipe desenvolveram técnicas insólitas. Por exemplo, o foguete, em vez de se apoiar diretamente na plataforma, ficaria suspenso no ar sobre um enorme poço, para dar espaço aos gases resultantes do lançamento. Quatro braços metálicos o agarrariam aproximadamente pela metade da sua altura. Quando os motores fossem acionados, o peso sobre esses suportes diminuiria, e os braços seriam retirados automaticamente graças a um conjunto de contrapesos simples. A ideia foi de Vladimir Barmin, o chefe de design de sistemas de lançamento. Em princípio, Korolev a aceitou com certo receio, desprezando a ideia de retrair os suportes mediante um mecanismo hidráulico, como sugeria uma comissão encabeçada pelo acadêmico Blagonravov. Mas o fato é que Korolev ameaçou Barmin com os piores males se o seu invento não funcionasse. Hoje, sessenta anos depois, esse sistema continua sendo utilizado.
Outro sistema revolucionário era o método de unir os aceleradores ao corpo central do foguete: simples rótulas redondas na parte superior e tiras metálicas para segurá-los na inferior. Chegado o momento, explosivos rompiam essas tiras, e os quatro propulsores simplesmente giravam ao redor de seu vértice para se desprenderem sozinhos. Essa separação é um espetáculo bonito de se ver, tão simétrico que os segmentos formam uma cruz ao redor do corpo central, a chamada “cruz de Korolev”.
 
À medida que o projeto progredia, Korolev percebeu que o novo foguete teria capacidade para colocar em órbita cargas superiores a uma tonelada. Consultou Mikhail Tikhonravov, cuja equipe trabalhava havia anos em estudos teóricos e aplicações de um hipotético satélite artificial, e assim começou a construir o “Objeto D”. Com um peso total de 1,5 tonelada, levaria 300 quilos de instrumentos científicos ao espaço, possivelmente até câmeras fotográficas ou uma cápsula para animais. Chamava-se assim porque o D é a quinta letra do alfabeto cirílico: as quatro primeiras (A, B, V, G) já haviam sido atribuídas a diferentes tipos de ogivas nucleares.

A reação dos EUA

Entretanto, os Estados Unidos tinham anunciado sua intenção de contribuir para o Ano Geofísico Internacional (1957-58) com o lançamento de um pequeno satélite. A intenção de Korolev era lançar o deles antes que o evento começasse, assegurando uma vitória espetacular sobre os ocidentais.
Mas os dois projetos tropeçavam em dificuldades. O americano, por falha no lançador. A administração de Eisenhower tinha exigido que se utilizasse um foguete com novo design, baseado na tecnologia dos foguetes-sonda já existentes. Isso excluía a equipe de von Braun, contratado pelo Exército. Tratava-se de evitar o uso de mísseis militares para dar ao programa uma maquiagem puramente civil. Seu desenvolvimento toparia com inúmeras dificuldades, até a catástrofe final. Mas essa é outra história.
Da parte dos russos, o problema era o satélite. Mês após mês, a fabricação do objeto D ia se atrasando, em grande parte por não cumprimento de prazos por parte de diversos fornecedores. No início de 1957, Korolev decidiu mudar de planos: tentaria lançar um satélite muito mais simples e ligeiro. Talvez dois. E para evitar depender de outros, seriam construídos em seu próprio complexo industrial, o OKB-1, o mesmo no qual o R-7 estava sendo montado. Só as baterias e a equipe de rádio seriam subcontratadas de outras empresas estatais.
Assim nasceu o PS-1 (“Simples satélite”), uma esfera de alumínio polido com um espelho, do tamanho de uma bola grande de praia, da qual saíam quatro antenas de vareta. O Objeto D teria de esperar pelo menos um ano para ir ao espaço. Seria o terceiro Sputnik.
Os três primeiros testes do R-7, entre a primavera e o verão de 1957, acabaram em vários outros fracassos. O primeiro, explodiu no voo; o segundo, não chegou a decolar: foi preciso desmontá-lo e devolvê-lo à fábrica para substituir componentes defeituosos; e o terceiro falhou também ao se desprender dos aceleradores antes do tempo.
Por fim, em 21 de agosto, um novo Semiorka respondeu perfeitamente. Depois de um voo de 6.500 quilômetros foi cair na península de Kamchatka. Sua ogiva, sem dúvida, se destruiu devido à fricção atmosférica, mas esse era o menor dos problemas. O foguete tinha funcionado.
Korolev aproveitou para propor um trato à Comissão Estatal: se um segundo lançamento tivesse sucesso, o terceiro poderia ser dedicado a colocar em órbita um satélite. A ideia levantou dúvidas entre alguns integrantes da comissão, interessados apenas nos aspectos militares do projeto. Korolev — bom engenheiro tanto quanto era hábil político — sugeriu elevar a proposta ao Soviete Supremo. Isso acabou com toda a oposição.
O lançamento de setembro também foi bem-sucedido. Korolev já tinha seu foguete, seu satélite e a decolagem: em volta da Terra já girava uma lua artificial.
E o que aconteceu com a bomba de Sarajov? No fim, seu desenho foi modificado e acabou ficando pronta muito mais rápido do que o físico tinha estimado. De fato, a primeira pôde ser lançada de um avião, como uma bomba convencional. Mas, graças a esse erro de estimativa, a URSS se viu com um foguete de tal potência que lhe permitiria lançar naves para a Lua e os planetas e levar Gagarin ao espaço. Sessenta anos depois, os descendentes do R-7 continuam transportando astronautas para a estação espacial internacional.
O lançamento do Sputnik coincidiu com a realização do congresso da Federação Astronáutica Internacional em Barcelona. De imediato, a delegação soviética, encabeçada pelo acadêmico Leonid Sedov, se tornou a estrela do encontro. Assediado por perguntas da imprensa, Sedov respondeu a todos com seu melhor sorriso e evitando de todas as formas dar qualquer detalhe concreto sobre o satélite ou seu foguete portador.
Não é de se estranhar. Nem Sedov nem seus colegas de delegação sabiam do alcance do projeto. E muito menos conheciam a iminência do lançamento. No entanto, a imprensa na época lhe atribuiu nada menos do que a paternidade do satélite, um título que nunca se incomodaria de confirmar. Nem de desmentir.
Os verdadeiros artífices do êxito russo (Korolev, Thikonravov e Glushko, entre outros) tiveram de se conformar com o anonimato oficial. O Politburo os considerava valiosos demais para expô-los a um sequestro ou — pior ainda — um atentado por parte da espionagem ocidental. Seus nomes e o papel que tinham desempenhado não se fariam públicos até muitos anos depois. No caso de Korolev, até depois de sua morte.

Revelado por Elon Musk plano de usar foguete para viajar para qualquer parte da Terra em menos de 1h

Em um futuro próximo, poderemos voar de foguete de uma cidade para outra em questão de minutos - ao menos, essa é promessa que o empresário Elon Musk fez durante sua palestra no Congresso Internacional de Astronáutica, em Adelaide, na Austrália.
 
Ilustração do BFR atracado na Estação Espacial Internacional
Uma viagem entre Londres e Nova York levaria apenas 29 minutos, em vez das 7h30 a 8h atuais, segundo um vídeo promocional do projeto. Voando a até 27 mil km/h, qualquer trajeto de um ponto a outro da Terra seria feito em menos de 1h.
Para isso, ele usaria o foguete BRF, o mesmo que está desenvolvendo em sua empresa, a SpaceX. A companhia pretende começar a fazer viagens a Marte em 2024 - as espaçonaves necessárias para isso começarão a ser construídas no próximo ano.
A primeira vez que Musk divulgou seus planos de ir ao Planeta Vermelho foi na edição do ano passado da mesma conferência. Doze meses depois, ele retornou com mais detalhes.
O BFR ainda é um foguete enorme, mas suas dimensões estão encolhendo: agora, tem 106 metros de altura e 9 metros de largura. A principal diferença com a versão original está no custo, disse Musk: "Acredito que descobrimos uma forma de custéa-lo. Isso é muito importante".
A forma de fazer isso, explicou o empresário, será concentrando todos os esforços da empresa em criar uma única solução de transporte para atender a todas as necessidades dos consumidores.
Isso significa que o BFR será empregado tanto para lançar satélites e prover serviços para estações espaciais - substituindo as atuais cápsulas Falcon 9 e Dragon - e também levar pessoas à Lua e a Marte, além de realizar o que Musk chamou de viagens "ponto a ponto" na Terra.
"A maioria das viagens hoje consideradas de longa distância poderiam ser completadas em menos de meia hora", disse ele à plateia em Adelaide.
"Alguns consumidores são conservadores e querem ver o BFR voar algumas vezes antes de se sentirem confortáveis para viajar (com ele). Então, nosso plano é construí-lo antecipadamente e ter veículos Falcon 9 e Dragon de reserva para que consumidores possam ficar à vontade para usar foguetes e espaçonaves antigos. Mas nossos recursos estarão voltados para construir o BRF."

Feitos inéditos

Elon Musk em congresso na Austrália
 
Além de ser o presidente e chefe de design da SpaceX, Musk fundou a fabricante de carros elétricos Tesla e é presidente de conselho da SolarCity, companhia especializada em tecnologias de energia renovável.
Ele conquistou muitos fãs com seus pensamentos visionários e, ainda que suas promessas tenham levado muito tempo para se tornarem realidade, ele conseguiu alguns feitos pioneiros, como pousar 16 vezes seguidas foguetes orbitais após eles concluírem suas missões no espaço - dois deles foram usados uma segunda vez.
Um elemento-chave de sua visão é o conceito de reutilização. Atividades espaciais são atualmente caras porque os itens empregados são descartáveis, diz ele. Mas não há razão, argumenta, para um sistema de foguete não ser feito para ser operado como o avião de passageiros, no qual o maior custo é o combustível usado para abastecê-los.

Ilustração do BFR

O atual foguete Falcon 9 pode ser usado de novo parcialmente. O BRF seria totalmente reutilizável, podendo voar diversas vezes.

Prazos

Musk reconhece que às vezes não consegue cumprir seus prazos ambiciosos. Quando apareceu em um dos slides em Adelaide que as primeiras versões de carga do BRF (sem humanos a bordo) voariam para Marte em 2022, ele disse: "Não é um erro de digitação, ainda que seja uma meta que aspiramos."
Na plateia, muitos aplaudiram sua apresentação, mas os clientes de seu negócio podem ter ficado com a pulga atrás da orelha ao ouvir que a SpaceX estará voltada a partir de agora para seu novo foguete.

Ilustração de cidade em Marte

Esses consumidores são de fato conservadores, como o próprio Musk destacou. Eles só agora estão ficando à vontade com a ideia de que eles podem enviar seus caríssimos satélites para o espaço usando foguetes "de segunda mão".
Alan Duffy, do Centro de Astrofísica e Supercomputação da Universidade de Tecnologia Swinburne, em Melbourne, na Austrália, estava entre as 4 mil pessoas na plateia para a qual o empresário discursou.
Ele diz estar confiante no que foi apresentado. "Esse é o Elon Musk, é isso que ele faz. O que eu amo na SpaceX - e o motivo pelo qual cientistas e engenheiros de todo o mundo estão dispostos a dar um voto de confiança - é que eles fazem as coisas serem lucrativas em cada etapa do caminho", diz Duffy.
"Eles têm uma visão ambiciosa e trabalham para concretizá-la. Mas sempre dão cada passo com o lucro em mente. E, se é possível lucrar, você pode ter certeza que o negócio dará certo."


 Ilustração de base na Lua

Einstein (mais uma vez) está certo: ondas gravitacionais têm nova detecção anunciada na Itália

Durante muito tempo, as ondas gravitacionais foram um dos maiores mistérios da ciência.
Albert Einstein estava certo de que existiam, e as ondas gravitacionais (nome criado por ele, por sinal) foram uma das bases de sua Teoria Geral da Relatividade, uma das postulações mais revolucionárias da história da ciência.
E, na última quarta-feira, o Observatório Europeu de Gravidade (EGO), em Cascina, na Itália, anunciou a detecção de ondas com massa cerca de 53 vezes maior que o Sol.
As ondas, geradas pela fusão de dois buracos negros gigantes, foram captadas em agosto, geradas a uma distância de 1,8 bilhão de anos-luz.
Foi apenas a quarta vez que astrônomos detectaram as ondas, a primeira fora dos EUA. Mais precisamente pelo Virgo, equipamento subterrâneo situado nas cercanias da cidade italiana de Pisa.
As três detecções anteriores foram obtidas pelo Observatório Gravitacional de Interferometria Laser (Ligo), em Hanford, no Estado americano de Washington.
Sheila Rowan, astrofísica da Universidade de Glasgow, na Escócia, afirmou à BBC que os registros estão permitindo aos cientistas uma nova compreensão dos buracos negros.
"Estamos perto de ver uma nova história de como os buracos negros se formaram e evoluíram através da história do Universo. A informação está quase ao nosso alcance."
Os buracos negros se formam no final da vida de supernovas - estrelas de grande massa que implodem e geram um campo magnético tão forte que absorve até a luz.
 
Albert Einstein

O que são as ondas gravitacionais

Segundo Einstein, todos os corpos em movimento no espaço se fundem à malha do espaço e geram ondas, como as formadas quando uma pedra cai em um rio.
Sua detecção é considerada um dos maiores avanços da Física nas últimas décadas.
Perceber as distorções no tempo-espaço representa uma mudança fundamental no estudo do Universo, pois permite observar eventos passados invisíveis a radiotelescópios ou telescópios.
Enquanto a luz se dispersa ao atravessar meios distintos - como ocorre, por exemplo, quando chove e se forma um arco-íris -, isso não ocorre com as ondas gravitacionais.
Isso permite a cientistas ter maior ideia do que ocorreu com estrelas situadas a milhões ou bilhões de anos-luz de nosso planeta.

Os computadores que estão treinados para vencer você em qualquer discussão

Os humanos já estão acostumados a perder para os computadores quando o assunto é lembrar acontecimentos, mas ainda têm vantagens na hora de discutir. Pelo menos por enquanto.
 
Balões de diálogo saindo de um computador
Há tempos as máquinas ganham de nós em jogos de estratégia, como o xadrez. E acabamos aceitando com resignação que a Inteligência Artificial é superior na avaliação de grandes quantidades de dados - por exemplo, examinando as notas fiscais de supermercado de milhões de compradores para ver quem poderia ficar tentado por cupons de desconto de sabão em pó.
Mas e se a Inteligência Artificial fosse capaz de lidar com as facetas mais humanas - navegar o campo minado das nuances, da retórica e até mesmo das emoções que nos acometem durante uma discussão?
Um número cada vez maior de pesquisadores se debruça sobre essa possibilidade, o que poderia, em última análise, ajudar os humanos a tomarem decisões melhores.

Detectando uma discussão

Até muito recentemente, a criação de máquinas capazes de discutir era um objetivo inalcançável.
A finalidade não era, obviamente, ensinar computadores a aguentar a pressão em uma discussão sobre uma vaga em um estacionamento, ou decidir de quem é a vez de levar o lixo para fora.
Em vez disso, as máquinas capazes de discutir podem contribuir ao trazer informações para o debate - ajudando humanos a contestar uma evidência, buscar alternativas e chegar a conclusões.
É uma possibilidade que poderia agilizar a tomada de decisões em todos os assuntos, desde como um negócio deve investir seu dinheiro até o combate ao crime e a melhoria da saúde pública.
 
 
Garry Kasparov jogando contra o computador Deep Blue em 1997
 
Mas ensinar um computador sobre a comunicação humana - e o que é realmente uma discussão - é muito complexo.
Pense em um tribunal como exemplo de um lugar no qual as discussões são essenciais.
Apresentar evidências certamente faz parte do processo, mas regras sociais, requerimentos legais, sensibilidades emocionais e entraves práticos influenciam como advogados, membros do júri e juízes formulam e expressam sua lógica.
Com o passar dos anos, porém, pesquisadores começaram a pensar que pode ser possível delinear algumas características das argumentações humanas.
O esforço agora está voltado para detectar como essas trocas funcionam e transformá-las em algoritmos de Inteligência Artificial - essa área é conhecida como tecnologia de discussão.
Os avanços nessa área ocorreram graças a um aumento rápido na quantidade de dados disponíveis para treinar computadores na arte do debate.
Parte desses dados vem de análises de inteligência, outros de fontes especializadas na internet e outras de programas de debate ao vivo como o Moral Maze, da BBC.
Também foram desenvolvidos novos métodos para ensinar aos computadores como as discussões funcionam.
Pesquisadores da área também usam filosofia, linguística, ciência da computação e até direito e ciência política como base para entender os debates.
Na Universidade de Dundee, na Escócia, usamos recentemente teorias de retórica de 2 mil anos atrás como uma forma de encontrar as estruturas das discussões na vida real.
Os avanços rápidos na área fizeram dezenas de laboratórios de pesquisa ao redor do mundo se dedicarem ao problema, e a explosão nessa área de estudo é diferente de tudo que eu já vi em 20 anos de academia.

'Por que o céu é azul?'

Isso significa que em breve os computadores serão fluentes em oratória e prestes a dominar o mundo?
Não. Deixe-me dar um exemplo mundano.
Até muito recentemente, até mesmo as técnicas mais sofisticadas de Inteligência Artificial poderiam ficar completamente atordoadas com pronomes.
Então, se você falasse ao assistente pessoal do seu smartphone: "Eu gosto de Amy Winehouse. Toque algo dela", o software seria incapaz de entender que "dela" se referia a "Amy Winehouse". Seria um tipo de pesadelo apocalipse dos robôs.
Se coisas tão simples podem ser tão difíceis para a Inteligência Artificial, qual é a chance de computadores conseguirem discutir?
Há ao menos duas principais maneiras pelas quais os computadores poderiam debater que se aproximam muito da nossa.
A primeira é ao justificar e explicar.
Uma coisa é pesquisar na internet como a violência nos videogames afeta as crianças, outra é ter um sistema que automaticamente salva razões contra e a favor da censura de tal violência - uma área que está sendo explorada pela IBM, com quem trabalhamos em colaboração.
O sistema resultante é como uma assistente que busca os sentidos por trás das visões conflitantes a respeito do tema e permite um aprofundamento nas justificativas para pontos de vista diferentes.
O segundo é desenvolver uma inteligência artificial que possa brincar de jogos de debate - seguindo as regras de interação que podem ser encontradas em todos os lugares, de tribunais a leilões.
Esses jogos foram pilares fundamentais da investigação filosófica de Platão a Wittgenstein, mas eles estão começando a ser usados para ajudar os computadores a contribuir para as discussões entre humanos.
Qualquer um que já tenha convivido com uma criança pequena sentirá uma familiaridade com ao menos um desses jogos.
As regras são muito simples. O adulto diz alguma coisa. A criança pergunta "por quê?". O adulto responde. A criança pergunta "por quê?" de novo. E assim sucessivamente.
Geralmente, essas conversas acabam quando o adulto faz uma tentativa desesperada de mudar de assunto.
Mas nós que estamos no papel do adulto desse jogo sabemos que, na verdade, após algumas perguntas, pode ser muito difícil dar boas respostas: temos que pensar muito.
Pensar muito - embora isso não seja tão importante se você estiver tentando explicar para uma criança de três anos por que o céu é azul - pode ser muito mais importante se a discussão for sobre uma decisão de negócios que afetará centenas de empregos, ou diante da ameaça de algum grupo extremista.
Então, se até o mais simples jogo de diálogo pode ser capaz de afiar o pensamento antes da tomada de decisões importantes, imagine os modelos mais sofisticados?
É nisso que estamos trabalhando.
Se os computadores podem aprender as técnicas para identificar os tipos de discussão que os humanos usam para tomar decisões em grupo, eles podem também acessar a evidência usada e dar sugestões ou até possíveis respostas.
Ajudar uma equipe a evitar um viés inconsciente, evidências fracas e argumentos pouco desenvolvidos pode melhorar a qualidade do debate.
 
Pessias fogem de região isolada depois que uma van invadiu a Rambla em Barcelona em 17 de agosto de 2017
 
Por exemplo, estamos fazendo um software que reconhece quando as pessoas usam argumentos com base em depoimentos de testemunhas e pode criticá-los, apontando como testemunhas podem ser parciais ou não confiáveis.
De conselhos corporativos até mediação de casais e da análise de inteligência até o design de interiores, a Inteligência Artificial em breve poderá nos ajudar a tomar decisões melhores.
O termo "Inteligência Artificial" foi usado pela primeira vez no final dos anos 1950 e levou pesquisadores da época a prever com confiança que a Inteligência Artificial estava a 20 anos de distância dali.
Ainda está - e provavelmente muito mais distante.
Enquanto isso, a tecnologia de discussão oferece o potencial para contribuir para as decisões tomadas por humanos.
Esse tipo de inteligência artificial não interferiria nos grupos humanos, mas trabalharia com eles como parceiros para lidar com desafios difíceis.
E poderia até ajudar a explicar a crianças de 3 anos por que o céu é azul.
*Chris Reed é o diretor do Centro de Tecnologia de Discussão da Universidade de Dundee, na Escócia. O centro trabalha com pesquisa de tradução de argumentação da filosofia e linguística até a Inteligência Artificial e engenharia de software.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

O conde partido ao meio

Crédito: Divulgação
 
A reputação de Gastão de Orléans (1842-1922), o Conde d’Eu, não foi positiva enquanto viveu e não mudou depois de morrer — em um navio, quando voltava para o Rio de Janeiro para tratar do patrimônio da destituída família real. Em seu tempo, o Príncipe Consorte do Brasil, marido da Princesa Isabel, era visto pelo gabinete conservador de dom Pedro II como liberal,enquanto os abolicionistas tinham restrições a ele por ser estrangeiro e católico. Francês, nascido no castelo  da família em Neuilly sur Seine, Gastão procurava se posicionar muito acima dos partidos e assim evitar a polarização nos debates políticos. A distância o fez cair do alto direto para o esquecimento e ganhar a imagem póstuma de um conde partido ao meio, personagem impotente, incapaz de manter a coroa. Como não bastasse, sofreu campanhas de difamação quando  marechal de campo das tropas da Tríplice Aliança nos último meses da Guerra do Paraguai (1864-1870). Dizia-se que havia ordenado a degola de chefes militares paraguaios e ordenado que os soldados executassem crianças e mulheres nas últimas escaramuças organizadas pelo presidente paraguaio deposto Solano Lopes.
A publicação em livro do “Diário do Conde d’Eu — comandante em chefe das tropas brasileiras em operação na República do Paraguai” (editora Paz & Terra) altera as ideias imprecisas sobre o personagem. Segundo o historiador Rodrigo Goyena Soares, que organizou, traduziu e anotou o diário, sua personalidade é mais complexa do que a retratada na his†ória do Brasil. O caderno de capa dura vermelha que Gastão manteve no Paraguai — entre outros diários que estão depositados no Museu Imperial de Petrópolis — revela inteligência, sensibilidade e tino político.



CENAS A Princesa Isabel toca piano, em foto tirada pelo marido, Gastão, por volta de 1869; capa do jornal “Vida Fluminense” em 30/4/1870 ironiza a volta do Conde d’Eu da Guerra do Paraguai; O conde d’Eu como marechal de campo na Guerra do Paraguai e 1869
Em suas anotações, Gastão critica a grosseria dos políticos platinos, o corte dos uniformes do exército e a alimentação da tropa, obrigada a sobreviver nas trincheiras com frutas. Também expressa angústia por não receber cartas pessoais e descreve o cotidiano das tropas, com homens oriundos de todo o Brasil, seus diferentes hábitos e festas. “Ele narra que o soldados participavam de peças de teatro, festas folclóricas e até casamentos com mulheres paraguaias desamparadas”, afirma Soares. Gastão elogia a criatividade dse seus comandados: conta que os batalhões do Norte e do Nordeste construíam moendas para preparar caldo de cana e assim evitar fome e sede.
Terceiro império
 
Em suas anotações, Gastão critica a grosseria dos políticos platinos, o corte dos uniformes do exército e a alimentação da tropa, obrigada a sobreviver nas trincheiras com frutas. Também expressa angústia por não receber cartas pessoais e descreve o cotidiano das tropas, com homens oriundos de todo o Brasil, seus diferentes hábitos e festas. “Ele narra que o soldados participavam de peças de teatro, festas folclóricas e até casamentos com mulheres paraguaias desamparadas”, afirma Soares. Gastão elogia a criatividade dse seus comandados: conta que os batalhões do Norte e do Nordeste construíam moendas para preparar caldo de cana e assim evitar fome e sede.

“O conde d’Eu era humanista e liberal”, diz Soares. “Ele se preocupava com a organização do exército e as condições da população paraguaia rendida. Os episódios de que ele foi acusado ocorreram a sua revelia. Ele se indignava com as atitudes bárbaras dos militares. E teve um papel relevante na política, pois favoreceu a abolição da escravatura e a politização do exército na volta da Guerra do Paraguai. Foi nesse momento que os militares entraram na luta política e se associaram à nascente classe média — uma união que persiste até hoje.”
Gastão defendia a monarquia constitucional, o fim da escravidão e o desenvolvimento da economia. Influenciou Isabel em seus decretos liberais, como a Abolição da Escravatura, em 1888. Sonhava em instaurar um Terceiro Império ultraliberal com a coroção de Isabel. Mas seus sonhos se espatifaram: acabou excluído por todas as facções partidárias da época e expulso do país — como toda a família real — pelos militares republicanos que havia apoiado. “É preciso redimir o papel histórico do desprezado Príncipe Consorte do Brasil”, afirma Soares.
Isto.
Isto É.com

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Qual o efeito de mais CO2 na atmosfera para a Amazônia?

As florestas desempenham papel crucial para regular as mudanças do clima. Experimento quer descobrir se aumento de emissões pode ajudar as plantas a crescer e combater os efeitos do aquecimento global.

 
Resultado de imagem para fotos da amazonia brasileira
 
Com a queima de combustíveis fósseis, os níveis de dióxido de carbono na atmosfera estão aumentando rapidamente. Os riscos causados para o aumento da temperatura global são conhecidos - mas cientistas têm menos certeza do efeito direto de mais CO2 em florestas tropicais como a Amazônia.
Uma teoria que intriga é que um nível mais alto de CO2 na atmosfera pode, na verdade, tornar as florestas mais resistentes aos impactos das mudanças climáticas.
No processo de fotossíntese, as plantas usam energia solar para converter dióxido de carbono e água em moléculas de açúcar ou glicose (que se espalham pela planta), bem como oxigênio, que é devolvido à atmosfera.
Então, se receberem uma dose extra de CO2, as plantas se tornarão mais produtivas?
David Lapola, da Universidade Estadual de Campinas, diz que há "grande incerteza" sobre o que vai acontecer com a Floresta Amazônica, e que é hora de acabar com essa falta de conhecimento. Estudar o impacto do dióxido de carbono no crescimento das plantas poderia ajudar a completar o quebra-cabeça.
"Nós estamos em um ponto em que não dá mais para teorizar sobre isso sem ter experimento de campo, sem ter evidências", diz.
Testando os impactos
Numa estação de pesquisas próxima a Manaus, a equipe internacional de cientistas liderada por Lapola está usando a tecnologia FACE (Free-Air CO2 Enrichment) em áreas circulares da floresta, de 30 metros de diâmetro. A ideia do experimento é elevar em 50% o nível de CO2 na atmosfera dessas regiões - o patamar estimado para 2050 - e verificar seus efeitos na ecologia da Floresta Amazônica.
O experimento foi dividido em três fases - a primeira está sendo encerrada depois de dois anos, a segunda durará mais dois e a última, mais dez. Durante todo esse período, os cientistas vão observar como os ecossistemas reagem em comparação com as áreas de monitoramento do projeto AmazonFace.
No melhor cenário, o aumento do dióxido de carbono estimularia o crescimento da floresta, tornando-a mais resiliente a temperaturas mais elevadas e seca. Assim, a floresta contrabalancearia os impactos das mudanças climáticas.
Ao mesmo tempo, se as plantas consumirem todo o CO2, haverá menos dióxido de carbono na atmosfera para causar um aumento da temperatura global. A expansão extra poderia aumentar a utilidade da Amazônia como reservatório de carbono.
 
Imagem relacionada
 
Reversão do crescimento
O estudo liderado pelo ecólogo David Lapola é o primeiro a ser realizado numa floresta tropical. Pesquisas semelhantes já foram feitas nos Estados Unidos e na Europa, em florestas temperadas de coníferas (pinheiros). Também no Brasil, houve dois estudos parecidos e menores, mas voltados para cultivos agrícolas.
"Eles, em um primeiro momento, nos primeiros anos do experimento, observaram um significativo incremento de produtividade na floresta. Ou seja, aumentando biomassa, absorvendo esse carbono adicional", diz Lapola.
Porém, não basta apenas aumentar o nível de CO2 para melhorar a produtividade da floresta. O crescimento extra das plantas também requer a absorção de uma porção extra de nutrientes e, após sete anos, os níveis de nitrogênio do solo começaram a diminuir. A expansão florestal voltou aos níveis de antes.
Ou seja: nos estudos realizados nos EUA e na UE, após atingir um limite de produtividade, as florestas registraram uma inversão na curva de desenvolvimento. Segundo Lapola, essa tendência se deve principalmente à falta de nutrientes no solo.
Lapola afirma que não há redução de nitrogênio na Amazônia, mas que um nível limitado de fósforo - cuja quantidade nos solos amazônicos é baixa - poderia ter o mesmo resultado negativo.
"Se nós observarmos essa limitação, é uma péssima notícia para a Amazônia", prevê o estudioso, que aponta em seus estudos que, nesse caso, a floresta poderia se transformar num ecossistema de savana ou cerrado em algumas décadas.
 
Efeito limitado?
Adalberto Veríssimo, cofundador do instituto de pesquisas Imazon, acredita que o projeto AmazonFace contribui para uma compreensão mais abrangente da complexidade dos ecossistemas da Floresta Amazônica.
"Se [a Amazônia] tiver uma função de sequestro de carbono por conta de um aumento da presença de carbono na atmosfera, se a floresta vai ter um papel sobre isso, é importante a gente entender [esse fenômeno]", disse à DW.
Por outro lado, o ecologista duvida que esse efeito seja significativo o suficiente para ter algum impacto real nas emissões globais de carbono - e, por consequência, no combate às mudanças climáticas.
"A Floresta Amazônica já cumpre muitas funções", afirma Veríssimo. "Então, não imagino que ela vai também cumprir essa função de mitigar essas emissões absurdas que a humanidade está jogando para a atmosfera. Mas, enfim, vamos ver como isso se comporta".
Veríssimo também se mostrou cético sobre o fato de que a fertilização com CO2 teria um impacto marcante na resiliência da floresta, em comparação com o volume de chuvas e com o risco de fenômenos climáticos extremos.
 
Preparo para um futuro incerto
Ainda assim, David Lapola acredita que sua pesquisa possa contribuir para a elaboração de políticas ambientais. "Acho que isso é uma grande contribuição que o programa pode trazer. Reduzir muito as incertezas do que vai acontecer com a Amazônia e a partir disso, a gente bolar (sic) política de adaptação, começar a preparar as pessoas para esse futuro que vai chegar", avalia.
A primeira fase do projeto monitorou a floresta antes da fertilização das áreas com CO2, avaliando também o impacto socioeconômico da degradação em comunidades da região.
Os resultados do experimento deverão então ajudar cientistas e políticos a entenderem melhor o que o futuro reserva ao imenso número de plantas e animais que vivem na Amazônia - incluindo 30 milhões de seres humanos.

"Guerra" entre EUA e Coréia do Norte: devemos nos preocupar?

Kim Jong-un e Donald Trump (composição): Trump e Kim Jong-un tem usado quase todas as oportunidades de fala que tiveram recentemente para disparar provocações mútuas
 
O governo norte-coreano acusou Donald Trump de "declarar guerra" e afirmou que tem o direito de derrubar bombardeiros americanos que sobrevoam seu território. Na semana passada, na 72ª Assembleia Geral da ONU, o presidente dos EUA havia ameaçado "destruir totalmente" a Coreia do Norte se seu país for "forçado a defender-se ou a defender seus aliados".
O ministro das Relações Exteriores norte-coreano, Ri Yong-ho, disse que o regime poderia atingir os navios americanos mesmo que eles não estivessem em seu espaço aéreo, já que os Estados Unidos "foram os primeiros a declarar guerra". Em resposta, o Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos EUA, disse que Pyongyang deve parar com as provocações e a Casa Branca chamou de "absurda" a afirmação.
O comentário de Rio Yong-ho foi uma resposta ao tuíte de Trump dizendo que nem ele nem o líder Kim Jong-un "estariam aqui por muito mais tempo" se continuassem com as ameaças aos EUA. O presidente, por sua vez, respondia ao sexto teste nuclear da Coreia do Norte, que também havia ameaçado disparar mísseis para o território americano de Guam e dito que pretendia testar uma bomba de hidrogênio no oceano Pacífico.
Tudo isso em meio a relatos de que Pyongyang pode ter finalmente conseguido miniaturizar uma arma nuclear que poderia caber dentro de um míssil intercontinental - uma perspectiva há muito temida pelos EUA e seus aliados asiáticos.
Estaríamos realmente mais perto de um conflito militar? Especialistas dizem que não é preciso entrar em pânico ainda. Eis o porquê:

1. Ninguém quer guerra

Esta é uma das informações mais importantes de se manter em mente. Uma guerra na península coreana não serve aos interesses de ninguém.
O principal objetivo do governo norte-coreano é sobrevivência - e um conflito direto com os EUA poderia ameaçar seriamente essa possibilidade. Segundo o correspondente de Defesa da BBC, Jonathan Marcus, qualquer ataque contra os Estados Unidos ou seus aliados no contexto atual pode evoluir rapidamente para uma guerra mais ampla - e devemos assumir que o governo de Kim Jong-un não é suicida.
Na verdade, é por isso que a Coreia do Norte está tentando se tornar uma potência nuclear. De acordo com o regime, isso protegeria o governo ao aumentar o custo de tentar derrubá-lo. Kim Jong-un não quer terminar como os ex-ditadores da Líbia, Muammar Khadafi, e do Iraque, Saddam Hussein.
Andrei Lankov, professor da Universidade Kookmin em Seul, disse ao jornal britânico The Guardian que havia "uma probabilidade muito pequena de conflito", mas que os norte-coreanos estão "pouco interessados em diplomacia" neste momento.
"Eles querem ter a capacidade de tirar Chicago do mapa, por exemplo. Depois terão interesse em soluções diplomáticas", disse Lankov.
E um ataque preventivo dos EUA? Eles sabem que atingir a Coreia do Norte forçaria o governo retaliar contra seus aliados Coreia do Sul e Japão.
Isso ocasionaria a perda de muitas vidas, incluindo a morte de centenas de americanos - militares e civis.
Além disso, Washington não quer arriscar que mísseis com armas nucleares sejam disparados em direção ao território americano.
Por fim, a China - único aliado de Pyongyang - ajudou a manter o governo norte-coreano justamente porque sua queda poderia ter um resultado estratégico pior. Ter soldados americanos e sul-coreanos na fronteira com a China é uma perspectiva que Pequim não quer enfrentar - e é isso o que a guerra iria trazer.
 
Soldados sul-coreanos fazem guarda na fronteira entre as Coreias, em foto de 2 de agosto de 2017: Analistas acreditam que um conflito não interessa a ninguém, mas temem que erros de cálculo dos países levem a conflito

2. O que você está vendo são palavras, não ações


Trump pode ter ameaçado a Coreia do Norte com um linguajar incomum para um presidente americano, mas isso não significa que os EUA estão de fato entrando em pé de guerra.
Uma fonte anônima nas forças armadas americanas disse à agência de notícias Reuters em agosto que "só porque subiram o tom da retórica, não significa que nossa postura mudou".
Max Fisher, colunista do jornal The New York Times, concorda: "Esses são os sinais que realmente importam nas relações internacionais - não os comentários improvisados de um líder".
Além disso, depois do sexto teste nuclear da Coreia do Norte no início de setembro e os testes de mísseis sobre o Japão, os EUA voltaram a uma tática que já havia sido utilizada antes, com sucesso: pressionar Pyongyang por meio do Conselho de Segurança da ONU e de sanções unilaterais.
Seus diplomatas, no entanto, ainda falam na possibilidade de voltar à mesa de negociações - mencionando o apoio da China e da Rússia a um acordo. Essas afirmações mandam sinais contraditórios para Pyongyang, mas também equilibram as palavras duras de Trump.
Mesmo assim, alguns analistas dizem que qualquer movimento mal interpretado nesse ambiente tenso pode levar a uma guerra acidental. E vale a pena relembrar que os bombardeiros americanos sobrevoaram a Coreia do Norte como demonstração de força.
"Poderia acontecer, por exemplo, uma queda de energia na Coreia do Norte que eles confundam com um ataque preventivo. Os EUA podem cometer algum erro na zona desmilitarizada (na fronteira entre as Coreias). Há muitas formas de cada lado fazer cálculos errados e de a situação ficar fora de controle", disse Daryl Kimnall, do think tank americano Arms Control Association.

Lançamento de mísil da Coreia do Norte: Governo norte-coreano afirma que conseguiu produzir armas nucleares que podem ser colocadas dentro de mísseis intercontinentais

3. Já estivemos nesse ponto


Segundo PJ Crowley, ex-secretário de Estado assistente dos EUA, os dois países chegaram perto de um conflito armado em 1994, quando Pyongyang se recusou a permitir inspetores internacionais em suas instalações nucleares. A diplomacia venceu.
Ao longo dos anos, a Coreia do Norte fez ameaças regulares aos Estados Unidos, ao Japão e à Coreia do Sul, ameaçando transformar Seul em um "mar de fogo".
A retórica de Trump - em conteúdo, mesmo que não no estilo - não é sem precedentes para um presidente americano.
"De formas muito diferentes, mesmo que não tão extravagantes, os Estados Unidos sempre disse que se a Coreia do Norte um dia atacar, o regime deixará de existir", diz Crowley.
A diferença desta vez, segundo ele, é que o presidente americano pareceu sugerir que tomaria medidas preventivas (apesar de o secretário de Estado Rex Tillerson ter dito que isso não ocorreria).
Analistas políticos dizem que esse tipo de retórica belicosa e imprevisível vinda da Casa Branca não é comum e preocupa as pessoas.
A Coreia do Sul - o aliado americano que tem mais a perder em um confronto com o Norte - pediu um esfriamento da retórica tanto de Pyongyang quanto de Washington. Nenhum país quer que Kim Jong-un pense que um ataque é iminente.

sábado, 23 de setembro de 2017

Quais são os principais motivos para estarmos perdendo tanta biodiversidade?

Há quanto tempo você não vê um gafanhoto no seu passeio de domingo no campo, ouve os grilos da varanda ou vê um vaga-lume numa caminhada noturna em uma estrada rural? A sensação de estar perdendo essa fauna que tantas gerações associam à sua infância é mais do que isso, é uma realidade. E o que é pior, juntamente com esses animais também estão desaparecendo elementos básicos para o sustento de muitos ecossistemas dos quais todos os seres vivos dependem.Resultado de imagem para imagens pássaros voando
 
Não é apenas uma sensação popular, é algo percebido por todos os entomologistas que fazem trabalhos e pesquisas de campo; a diminuição do número de indivíduos de praticamente todos os insetos é brutal”. Isso é confirmado por Juan José Presa, professor de Zoologia da Universidade de Murcia, na Espanha, e coautor de um dos muitos relatórios e estudos recentes que fornecem números sobre o declínio dos artrópodes.
Esse estudo, do começo deste ano, resultado da colaboração entre a União Europeia e a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), destaca que quase um terço das espécies de ortópteros avaliadas (gafanhotos, grilos e cigarras, entre outras) está ameaçado, algumas em perigo de extinção.
Wolfgang Wägele, diretor do Instituto Leibniz de Biodiversidade Animal (Alemanha), juntamente com outros colegas, fala na revista Science do “fenômeno do para-brisa”, no qual os motoristas passam menos tempo removendo de seus carros os inúmeros insetos que antes se espatifavam contra qualquer ponto da carroceria. Os pesquisadores citados no artigo estão cientes do declínio generalizado, apesar de reconhecerem, como o resto da comunidade científica, que é muito difícil estabelecer dados mais precisos.
 
Desmatamento próximo a Rio Branco (AC) 
 © WWF-Brasil/Juvenal Pereira
 
Por que estamos perdendo tantas espécies e faixas de terra a cada segundo?
A biodiversidade sofreu redução de mais de um quarto nos últimos 35 anos.
 
Essa notícia não é nada boa.
Em geral, o crescimento populacional e o nosso consumo são os motivos para essa enorme perda. Em termos específicos, a destruição do habitat e o comércio da fauna silvestre são as principais causas da queda da população das espécies.
Nós...
  • coletamos,
  • derrubamos,
  • arrancamos e
  • caçamos
 espécies de
  • animais,
  • árvores,
  • flores e
  • peixes
para usar na
  • medicina,
  • lembranças,
  • símbolos de status,
  • materiais de construção e
  • alimentos.
Hoje essa superexploração (caça, pesca, captura acidental) é totalmente insustentável.

Em nível global, atualmente necessitamos do equivalente a 1,4 planeta para dar vazão a nossos estilos de vida. Esta é a atual Pegada Ecológica da humanidade, isto é, a demanda das pessoas imposta ao mundo natural.

Em 2009, a humanidade usou 40% mais recursos do que a natureza é capaz de regenerar em um ano.

Esse problema (uso de recursos em velocidade superior à sua capacidade de regeneração e criação de resíduos como CO2 em velocidade superior à sua capacidade de absorção) recebe o nome de descompasso ecológico.
Atualmente mantemos esse descompasso liquidando os recursos naturais do planeta. Podemos cortar árvores mais rápido do que elas são capazes de voltar a crescer e capturar peixes em velocidade maior do que eles são capazes de se reproduzir. Embora seja possível fazer isso por um breve período de tempo, o descompasso acaba levando ao esgotamento dos recursos dos quais depende a nossa economia.

A pressão é agravada ainda mais pelas mudanças climáticas. A quantidade e o alcance de efeitos e impactos das mudanças do clima sobre a biodiversidade ainda são desconhecidos. E a capacidade (ou incapacidade) de os seres vivos se adaptarem a esses impactos é uma grande incógnita.

Entretanto, o que sabemos é que os próximos 30 anos serão determinantes.
determinantes.

Sabemos também que os seres humanos, e nosso comportamento, alteraram os ecossistemas da Terra com maior rapidez e amplitude nos últimos 50 anos do que em qualquer outro período da história humana.

No final das contas, pode-se dizer que a perda da biodiversidade é a maior ameaça à estabilidade e à segurança do mundo hoje.

Poluição atmosférica de navios " alimenta" tempestades elétricas, diz estudo

Partículas poluentes aumentaram incidência de raios ao longo de linhas de navegação
 
Rotas de navegação são afetadas pelo dobro do número de raios que áreas adjacentes e cientistas acreditam que isso é evidência de influência humana em padrões climáticos.
Cientistas americanos dizem ter encontrado evidência de que a passagem de navios por duas das principais rotas de navegação do mundo tem efeitos no clima local.
Segundo um estudo publicado na revista científica Geophysical Research Letters, gases emitidos por navios transitando pelo Oceano Índico e o Mar da China Meridional, duas regiões de tráfego naval intenso, estariam "vitaminando" tempestades elétricas no percurso de embarcações, algo não registrado em áreas adjacentes e de clima semelhante.
De acordo com Joel Thornton, professor de Ciências Atmosféricas da Universidade Washington (EUA), isso ocorre porque partículas de fuligem, nitrogênio e enxofre presentes nos gases exaustores dos navios diminuem o tamanho de gotículas de chuva, fazendo com que subam mais alto na atmosfera.
Isso resulta na formação de mais partículas de gelo e mais raios.
Analisando registros de raios ao redor do mundo, em mais de um bilhão de ocorrências, Thornton e sua equipe constataram uma incidência de raios quase duas vezes mais frequente ocorrendo diretamente sobre as "avenidas aquáticas".
 
Estudo pode ter encontrado evidência de influência humana em padrões climáticos
 
"Temos um exemplo claro de como humanos estão mudando a intensidade de tempestades por meio da emissão de partículas de combustão. Temos evidência inédita de que estamos interferindo na formação de nuvens de forma contínua, e não em incidentes específicos como grandes incêndios florestais", alerta o cientista.
A formação de nuvens tem influência nos padrões de chuva e pode resultar em alterações climáticas ao influenciar a quantidade de luz solar que as nuvens refletem para o espaço.
Todos os motores de combustão emitem gases de escape, e as partículas de fuligem, hidrogênio e enxofre neles contidas, e conhecidas como aerossóis, formam o smog , nome dado camadas visíveis de poluição atmosférica comuns a grandes cidades. Mas as partículas também atuam como núcleos de condensação de nuvens e "sementes de nuvens" - vapor d'água condensado ao redor de aerossóis forma gotículas, que posteriormente formam nuvens.
Navios de carga cruzando o oceano emitem gases de escape continuamente. O ar sobre os oceanos normalmente tem gotículas maiores, porque mais moléculas de águas precisam aderir a partículas. A adição de aerossóis ao ar resulta em mais partículas e gotículas menores.
E mais leves: essas gotículas viajam para pontos mais altos da atmosfera e um número maior que o normal congela. Quanto mais gelo atmosférico, maior é a formação de raios - nuvens ficam eletrificadas quando partículas congeladas se chocam umas com as outras e com gotículas - e o raio nada mais é que uma neutralização dessa carga.
"Quando fizemos um mapa dos raios, estava claro que os navios tinham alguma influência, pois os raios ocorriam praticamente em linha reta, sobrepostas às linhas de navegação", explica outra cientista envolvida no estudo, Katrina Virts, que trabalha como meteorologista da Nasa, a agência espacial americana.
Quando estão no oceano, navios queimam mais combustível do que nos portos, emitindo mais aerossóis e formando mais raios, como explica Daniel Rosenfeld, cientista atmosférico da Universidade Hebraica de Jerusalém, comentando o estudo.
"Temos uma pistola fumegante - a prova de que a incidência de raios mais do que dobra em áreas oceânicas pristinas. O estudo mostra de forma clara a relação entre emissões antropogênicas e a formação de nuvens de tempestade".
Thornton e sua equipe, porém, não constataram uma maior ocorrência de chuvas nas linhas de navegação. Os cientistas especulam que a poluição do ar em outras áreas do planeta pode também ter afetado tempestades.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Como ajudar nosso sistema imunológico a se manter em plena forma

Vitamina C para o inverno, dieta Mediterrânea durante todo o ano e uma boa dose de exercício físico de forma regular. Não é a poção mágica para ser invencível, mas sim para ajudar nosso sistema imunológico a se manter em plena forma.
 
cuerpo cambia estaciones
 
Imagine uma rede gigante de células e órgãos que trabalham a cada nanossegundo para manter o organismo livre de bactérias, vírus, fungos e qualquer agente estranho com intenções infecciosas que nos poderia levar ao abismo das doenças, por mais leves que elas sejam. Isso é o que poderíamos definir como nosso sistema imunológico: um mecanismo inteligentíssimo que em seu estado normal mantém as enfermidades a distância.
O curioso é que algumas pesquisas, como a que desenvolveram especialistas da Universidade de Cambridge, Munique, Londres e Dresden, revelam que as diferentes estações do ano podem provocar alterações no organismo. Isto demonstra uma possível base genética nas variações fisiológicas no estado de saúde em plantas e animais, como resultado de uma adaptação ao ambiente externo (luz solar, temperatura e dieta).
Segundo a doutora Silvia Sánchez Ramón, chefa da Unidade de Imunologia Clínica do Hospital Ruber Internacional, “23% do genoma humano mostra oscilações estacionais, assim como mudanças significativas na expressão de mais de 4.000 genes nos glóbulos brancos do sangue e em células do tecido adiposo”. O que isso poderia significar? Bem, que efetivamente o organismo está exposto a sofrer doenças mais ou menos específicas, conforme for inverno ou verão.
“A estacionalidade na incidência das doenças infecciosas em humanos está claramente estabelecida. Em outras enfermidades, como as autoimunes –esclerose múltipla ou artrite reumatoide, para citar algumas– também está descrita a influência da época do ano no curso da doença”, afirma a especialista. “Por exemplo, a cifra de monócitos, que são glóbulos brancos do sangue com um enorme potencial inflamatório, é máxima no inverno. Isto favoreceria um estado inflamatório –com aumento de proteínas como a interleucina 6 ou a proteína C reativa— durante o inverno na Europa. Este estado pró-inflamatório poderia explicar, ao menos em parte, uma maior incidência de problemas cardiovasculares, autoinmunes —como a artrite reumatoide ou a diabetes tipo 1– ou psiquiátricos, que se observam nessas doenças durante os meses de inverno, segundo os autores do trabalho mencionado”, comenta a doutora Sánchez Ramón.

Vacinar-se: melhor no inverno

Sabendo disto, existe alguma recomendação para fortalecer o sistema imunológico e conseguir que essas alterações estacionais pouco nos afetem? “O conceito de reforçar o sistema imunológico é complicado. Embora muitos avaliem como possível por meio de dezenas de diferentes produtos, não está claro o que fazem realmente. Como simplificação poderíamos dizer que a única coisa cientificamente comprovada que reforça o sistema imunológico de uma forma clara são as vacinas. É um reforço específico, praticamente inócuo para outras coisas, e demonstrado”, afirma o doutor Manel Juan, médico imunologista do Serviço de Imunologia do Hospital Clínic de Barcelona, e membro da Sociedade Espanhola de Imunologia (SEI)
No entanto, há coisas que podemos fazer. Por um lado, como aponta a doutora Sánchez Ramón, aproveitar os períodos nos quais o organismo demanda mais proteção para, precisamente, administrar-lhe as defesas de que necessita. “Uma possível consequência derivada desse estudo e de outros mais recentes, embora o grau de evidência científica ainda seja escasso, é a variação da resposta às vacinas segundo a época do ano em que são administradas. Este estado pró-inflamatório descrito nos meses de inverno de que falamos se correlacionaria com uma maior geração de proteção imunitária. Portanto, essa época do ano é a mais adequada para qualquer tipo de vacina”.

Os hábitos saudáveis ajudam?

Sim. Há uma série de recomendações que, de uma forma ou outra, como indica a doutora Sánchez, contribuem para que, em condições normais, o sistema imunológico esteja o mais saudável possível: “Uma dieta adequada, rica em nutrientes e vitaminas; uma ingestão hídrica apropriada; exercício físico regular; evitar o quanto possível a exposição a fatores de risco de infecções, conforme a época do ano; e evitar o estresse, tanto psicológico como físico”, afirma. Mas há nuances. Não é que a dieta adequada recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) seja uma garantia férrea para se manter invencível diante de qualquer doença viral, mas não fazê-la, sim, é que significa somar pontos para ter algum tipo de problema.
“O que está claro também é que o sistema imunológico é sensível às deficiências alimentares graves, pois é um sistema muito dependente de metabolismo. Ou seja, é preciso evitar a subnutrição”, enfatiza o doutor Manel Juan. O especialista é cauteloso e reitera que alguns produtos comerciais que dizem que reforçam o sistema imunológico podem ter trabalhos científicos que apontam mudanças que podem ser avaliadas como benéficas para a saúde, porém, adverte: “nada está claro para além do efeito nutricional desses produtos. O que se pode afirmar com certeza é que convém ter uma dieta equilibrada, com suficientes vitaminas e nutrientes essenciais”.
Para conseguir isso, Anna Bach-Faig, professora em Estudos de Ciências da Saúde da Universidade Aberta da Catalunha (UOC, na sigla em catalão) e conselheira de Alimentação e Nutrição da Ordem Oficial de Farmacêuticos de Barcelona (COFB), dá algumas sugestões. “Priorizar certos alimentos, como os cereais integrais e as carnes magras, já que proporcionam vitamina B e aminoácidos para construir os componentes do sistema imunológico, assim como ferro e zinco. Uma deficiência nesses últimos pode deprimir o sistema imunológico. Também são favoráveis o iogurte e as bebidas lácteas fermentadas ,que por meio de seus micro-organismos vivos atuam na imunidade intestinal para aumentar a resistência às infecções”, comenta a professora Bach-Faig.
E em geral? A recomendação é seguir uma dieta equilibrada, rica e variada em frutas e verduras. “A variedade nas cores proporcionará variedade em antioxidantes, que são os protetores do organismo; as bagas e frutas vermelhas, por exemplo, são ricas em vitamina C e flavonoides; e os legumes amarelos, as laranjas e as folhas verdes, em betacaroteno, um antioxidante importante na imunidade da pele e das mucosas”.

Exercício físico, em todos os sentidos

Apesar de o especialista Manel Juan reiterar que não há nada concreto em nível científico, além de algumas publicações secundárias e a lógica inter-relação de todos os sistemas dentro do próprio organismo para estar o mais saudável e forte, ele reconhece que “uma vida ativa, não sedentária, e hábitos saudáveis –nem tóxicos nem drogas– também contribuem para a capacidade funcional do sistema imunológico”. Nesse sentido, alguns estudos em nível internacional, como o da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, realizado pelos pesquisadores Terra, Gonçalves da Silva, Salerno e Lourenço, afirmam que a atividade física intensa tende a gerar uma resposta anti-inflamatória no organismo.
E o sexo? Está pensando se pode entrar nesta categoria? Não temos a resposta adequada, mas podemos confessar que o professor de psicologia Carl Chametski, da Universidade Wilkes, observou que, em uma amostra de 112 alunos, aqueles com maior atividade sexual eram também os que apresentavam um maior índice de imunoglobulina A (lgA) na saliva, um anticorpo que protege o organismo de qualquer vírus ou micróbio. Coincidência?

E as alergias?

Faça o que o seu médico lhe recomendar para reduzir os efeitos da alergia, especialmente na primavera e no outono, mas fique tranquilo. Como explica o doutor Moisés Labrador, coordenador do Comitê de Imunologia da Sociedade Espanhola de Alergologia e Imunologia Clínica (SEAIC), a alergia é uma reação exagerada do sistema imunológico contra determinadas proteínas alergênicas que deveriam ser inócuas –e, de fato, para os não alérgicos, são–, mas não são consequência de um desequilíbrio em seu sistema imunológico.
O que acontece em muitos casos é que, como explica o doutor Labrador, a resposta de tipo 2 do organismo para nos defendermos das agressões externas e internas –com sintomas como a tosse, os espirros, a coceira, vômitos ou diarreia–, destinada a eliminar de forma rápida o agente que nos está fazendo mal, não se ativa para o que não estava previsto. “O que acontece é que nos países em vias de desenvolvimento a resposta de tipo 2 se dedica à sua atividade principal e as doenças alérgicas são menos frequentes. Mas nas sociedades ocidentais, onde por meio de atividades de saúde pública já se controlam parasitas, venenos de animais e os tóxicos externos, esta resposta de tipo 2 não desaparece, mas fica ativa, como a responsável pela alergia. Esta explicação é conhecida como teoria da higiene e é a aceita atualmente para explicar o aumento da frequência de doenças alérgicas nos países desenvolvidos nas últimas cinco décadas.
El País.com

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O que faz ser tão difícil prever um terremoto como o que atingiu o México?

Todo ano são registrados oficialmente mais de 200 mil terremotos em nosso planeta, apesar de milhões deles ocorrerem.

Sismógrafo
Muitos passam ao largo dos registros oficiais porque são demasiadamente leves para que possamos senti-los ou porque acontecem em zonas remotas que não são monitoradas pelas autoridades.
Outros, como o de magnitude 7,1 que atingiu o centro do México na segunda-feira, causam dezenas de mortes e derrubam prédios inteiros.
Construir casas e edifícios à prova de terremotos é, evidentemente, a melhor estratégia para evitar tanto perdas humanas quanto materiais.
Mas seria possível evacuar com antecedência as zonas que serão afetadas - como acontece durante a passagem de um furacão, por exemplo?
A resposta é não. Isso porque é impossível prever quando um terremoto vai acontecer - salvo por alguns minutos.
A razão é que a maioria dos terremotos ocorre pela liberação repentina de uma grande tensão na crosta terrestre.
Essa tensão vai se acumulando gradualmente devido aos movimentos das placas tectônicas, normalmente ao longo de uma falha geológica, explica o site da British Geological Survey.
Por isso, é impossível prever quando os terremotos vão ocorrer, "basicamente pela forma como essa energia é liberada", afirma à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, Richard Luckett, sismólogo da instituição.
"Sabemos que a tensão está sendo acumulada nas grandes falhas e sabemos onde elas estão, mas não temos como saber quando essa energia vai ser liberada", diz.
Luckett recorre ao exemplo que normalmente usa para explicar o fenômeno às crianças.
"Se você puser um tijolo sobre uma folha de lixa e lentamente retirá-la com uma mola, o tijolo vai se mover. Você pode repetir esse experimento dez vezes: embora aplique todas as vezes a mesma força, verá que o tijolo vai se movimentar repentinamente depois de diferentes intervalos de tempo", diz Luckett.
"Em termos físicos, é completamente imprevisível", acrescenta.
 
Terremoto no México
 
No caso do México, destaca o especialista, a placa sobre a qual o país está situado - a norte-americana - se move em direção ao oeste na proporção de mais de sete centímetros por ano.
"Mas saber se ela está acumulando pressão não ajuda a prever terremotos, pois não sabemos quando essa energia será liberada", diz.
O que especialistas podem saber é onde há probabilidade de ocorrer um terremoto de grande intensidade, "já que eles têm relação com o tamanho da falha", esclarece Luckett.
A falha vinculada ao terremoto de terça-feira, por exemplo, é grande: tem cerca de 50 km de distância.
Mesmo assim, isso não contribui para prever qual será a intensidade de um terremoto, já que a pressão pode ser liberada em uma série de pequenos tremores ou em um grande e único abalo.
 
Mapa

Sinais?

Mas há outros sinais a que devemos ficar atentos? Talvez uma mudança no clima ou comportamento dos animais que podem nos ajudar a prever um terremoto?
Acredita-se que os animais possam sentir as primeiras ondas que são geradas pelo terremoto - e que nós não percebemos.
"Os terremotos não tem nada a ver com o estado do tempo e certamente não há uma ligação com as mudanças climáticas", esclarece o especialista.
"São sistemas completamente diferentes", acrescenta.
Mas, segundo ele, o caso dos animais é interessante.
Há uma série de estudos sobre como alguns bichos exibem um comportamento distinto ante a iminência de um terremoto.
Diz-se, por exemplo, que os cachorros latem mais ou que os animais geralmente fazem mais barulho.
Segundo Luckett, "quando um forte terremoto acontece, provoca ondas distintas que viajam através da terra. As primeiras são muitos pequenas, não causam dano, e muitas vezes em sequer percebemos", explica.
"Mas os animais sim", ressalva.
Ainda assim, eles não ajudam a prever um terremoto.
"Os animais sentem essas vibrações, mas isso ocorre uma vez que o terremoto já aconteceu", assegura o especialista.
"Eles nos avisam do perigo um pouco antes (o tempo depende do intervalo entre as ondas pequenas e as grandes), da mesma forma que os alarmes", explica.
"Neste sentido, os dispositivos são mais sensíveis que os animais", completa.
Luckett diz não acreditar que será possível prever terremotos.
"O que poderemos fazer é aprimorar nossas formas de detectá-los."

Mundo teve mais desastres naturais este ano ou é só impressão?

O Caribe mal começava a se recuperar dos estragos provocados pelo furacão Irma, que deixou cerca de 60 mortos, quando foi atingido pelos ventos de até 260 km/h do furacão Maria.
 
Furação atinge San Juan, capital de Porto Rico
O México foi solapado por um terremoto de 7,1 graus de magnitude que causou ao menos 248 mortes, apenas 12 dias depois de um tremor maior, de 8,2 graus, matar cerca de 100 pessoas no sul do país. No sul da Ásia, inundações provocadas pelas chuvas de monções mataram mil pessoas em Bangladesh, Índia e Nepal.
É impressão ou os desastres naturais estão mais frequentes e intensos em 2017?
A resposta é que no caso dos furacões, sim. A quantidade e intensidade das tempestades de grandes proporções registradas este ano estão acima da média anual.
A principal causa para o aumento da força desses fenômenos é o aquecimento global, segundo especialistas ouvidos pela BBC Brasil.
 
Furacão Maria em 19 de setembro

Acima da média

Shuai Wang, pesquisador da Faculdade de Ciências Naturais do Imperial College London, explica que a média anual de furacões no Atlântico é de 6,2, conforme a série histórica de 1968 a 2016 da Agência Norte-Americana de Administração Atmosférica e Oceânica.
Em 2017, antes mesmo do término do período de tempestades tropicais, já foram registrados sete furacões, quatro deles de grande proporções - classificados em categorias superiores a 3 na escala Saffir-Simpson, que mede os fenômenos pela intensidade dos ventos e o potencial de destruição.
"Ainda é cedo para sabermos a quantidade de furacões que teremos em 2017. Mas já podemos dizer que tivemos tempestades mais intensas que a média histórica", diz Wang.
Em agosto, o furacão Harvey provocou estragos no Texas, Houston e Louisiana, matando pelo menos 47 pessoas. Pouco depois, entre nos dias 6 e 7 de setembro, o furacão Irma arrasou várias cidades do Caribe e o sul da Flórida, provocando mais de 60 mortes.
Numa infeliz coincidência, a mesma região afetada pelo Irma se tornou rota do furacão Maria. Os ventos de até 260 km/h destelharam casas na ilha de Dominica - até o primeiro-ministro do país teve que ser resgatado da residência oficial.
O furacão também passou por Porto Rico e pelas Ilhas Virgens Norte-Americanas.

Altas temperaturas

O meteorologista Bob Hensen, do Weather Underground, serviço norte-americano de previsão meteorológica, diz que as altas temperaturas do oceano alcançadas este ano podem ter contribuído para a força das tempestades.
"Já alcançamos, antes de terminar o ano, mais tempestades que a média do ano inteiro", disse.
Segundo Hensen, por causa das mudanças climáticas, a intensidade dos furacões aumentou nas últimas três décadas. O ano de 2005 foi o que mais registrou furacões - 15 no total, entre os quais o Katrina, que matou ao menos 1,8 mil pessoas nos Estados Unidos.
"Podemos estar tendo furacões mais fortes associados ao fenômeno do aquecimento global. A temperatura da água afeta a intensidade da tempestade, embora não haja evidência de que influencie na quantidade", avaliou.
A opinião de que o aquecimento global tem papel relevante na intensidade dos furacões é compartilhada pelo pesquisador Shuai Wang, que prevê tempestades cada vez mais fortes se nada for feito para reverter o aumento da temperatura dos oceanos.
"O furacão é como um motor que precisa de combustível. A lógica é que, com a mudança climática, o oceano fica mais quente e gera mais energia para o ciclone, que acaba causando mais estragos quando alcança o continente", explicou.
"Os pesquisadores divergem sobre o efeito a longo prazo do aquecimento global. Eu acho que, se a temperatura continuar aumentando, teremos ciclones mais intensos", completou Wang.
Lógica parecida serve para desastres causados por excesso de chuvas, as chamadas monções. Para Bob Hensen, a intensidade pode ter aumentado por causa do aquecimento solar.
"Temperaturas mais altas favorecem a evaporação das águas. O ambiente úmido da atmosfera permite chuvas mais fortes."

Terremotos

Quanto a terremotos como o ocorrido no México na terça, os números não mostram aumento ao longo dos anos, e a intensidade está dentro da média histórica.
De acordo com o British Geological Survey, o centro britânico de geociências, todo ano ocorrem, em média, 15 terremotos com magnitude maior que 7, considerados de grande proporção.
Até o momento foram registrados seis terremotos com magnitude superior a 7, segundo dados atualizados da organização não governamental World Earthquakes, que categoriza registros de abalos sísmicos em todo o mundo.
Em 2016, foram registrados 17 terremotos com magnitude maior que 7.