segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Estudo traz novas pistas sobre sofisticada sociedade que ergueu enigmáticas estátuas gigantes na Ilha de Páscoa

Moais: Arqueólogos conseguiram levantar importantes pistas sobre o nível de sofisticação da sociedade que construiu os moais.
 
Os moais, as gigantescas esculturas da Ilha de Páscoa, estão entre as construções mais misteriosas de nosso planeta. Mas foi se debruçando sobre resquícios das ferramentas utilizadas pelos antigos habitantes da ilha, os rapanui, que um grupo de arqueólogos conseguiu levantar importantes pistas sobre o nível de sofisticação dessa sociedade.
O estudo foi publicado nesta segunda-feira, 13, no periódico Journal of Pacific Archaeology. De acordo com a antropóloga Laure Dussubieux, pesquisadora do Museu Field de História Natural de Chicago, nos Estados Unidos, e uma das autoras da pesquisa, a grande descoberta está em como a sociedade dos construtores de moais era organizada e complexa, com muita interação e troca de informações entre os habitantes.
Para compreender este cenário é preciso recuar um bocado no tempo. Os moais – são cerca de 900 – foram construídos na Ilha de Páscoa, um dos lugares habitados mais remotos do mundo, a 3,7 mil quilômetros da costa do Chile, no Oceano Pacífico.
Marinheiros polinésios lá chegaram por volta do ano 1100. Tornaram-se o povo rapanui. As gigantescas esculturas de pedra foram erguidas entre os anos de 1250 e 1500.
Até então, se acreditava que essa sociedade tivesse sido destruída logo após a construção dos moais, em decorrência de guerras e fome, causadas pela exploração excessiva dos recursos naturais.
Mas a história não foi bem assim, conforme mostram os cientistas. Eles analisaram a composição química dos resquícios das ferramentas utilizadas pelos rapanui na construção dos moais. E descobriram que as relações dessa sociedade eram complexas, uma vez que encontraram evidências de compartilhamento de informações e colaboração.
"Essa ideia de competição e colapso na Ilha de Páscoa pode ser exagerada", afirma o principal autor da pesquisa, o antropólogo e arqueólogo Dale Simpson Jr., da Universidade de Queensland. "Para mim, a organização industrial das esculturas em pedra é uma evidência sólida de que havia cooperação entre famílias e grupos de artesãos."
Em conversa com a BBC News Brasil, o cientista detalhou essas evidências. Basicamente, o uso de materiais não originários de determinada região da ilha indica que havia uma troca entre diferentes grupos. Além disso, os padrões de distribuição de determinados elementos mostram que havia uma organização hierárquica clara. "Nosso estudo sugere um mínimo de supervisão sociopolítica e econômica e competição por recursos significativa entre membros de cada clã", comenta Simpson. 

Pesquisa

O grupo de está há 35 anos pesquisando na Ilha de Páscoa – deste total, Simpson participou de 17 anos.
O cientista lembra ainda que a análise do tamanho e da quantidade dos moais também mostra que era necessária uma sociedade complexa para a construção. A maior parte dos quase 900 moais mede de 4 a 6 metros de altura, e seu peso médio é de 14 toneladas; o mais alto deles tem quase 10 m de altura e há uma estátua inacabada que, pronta, teria cerca de 21 metros de altura.
"Os antigos rapanui tinham chefes, sacerdotes e se organizavam em associações de profissionais que pescavam, cultivavam o solo e sculpiam", afirma. "Era preciso um certo nível de organização sociopolítica, ou não seria possível esculpir quase mil estátuas."
O trabalho de Simpson, Dussubieux e o restante da equipe consistiu em analisar detalhadamente 21 das cerca de 1,6 mil ferramentas de pedra – feitas basicamente de basalto – recolhidas em escavações arqueológicas na ilha. Na essência do trabalho, estava a ideia de que o estudo de tais ferramentas poderia revelar a maneira como elas eram usadas e, consequentemente, como era a interação entre os escultores ancestrais. Além disso, trazia pistas de como funcionava a "indústria" rapanui de produção de estátuas.

Ilha de Páscoa: O trabalho de Simpson, Dussubieux e o restante da equipe consistiu em analisar detalhadamente 21 das cerca de 1,6 mil ferramentas de pedra - feitas basicamente de basalto - recolhidas em escavações arqueológicas na ilha.

Dussubieux conta que, com o trabalho, foi possível descobrir de onde vinham as matérias-primas usadas para a fabricação dos artefatos e, então, compreender as relações entre diferentes comunidades da ilha – seriam pelo menos três pedreiras de basalto as fontes do material. "Como todo mundo usava o mesmo tipo de pedra, fica claro que eles tinham de colaborar. É por isso que foram bem-sucedidos: eles trabalhavam juntos", argumenta Simpson.
Para Dussubieux, o estudo ainda pode oferecer insights sobre o funcionamento de outras sociedades, antigas ou contemporâneas. "O que acontece no mundo é cíclico. Ou seja: o que já aconteceu no passado acontecerá novamente. A maioria das pessoas não vive em uma pequena ilha – mas o que aprendemos sobre as pessoas e as interações no passado são muito importantes para nós agora, porque o que molda nosso mundo é como interagimos", afirma.
Segundo os cientistas, o estudo desmente a narrativa oficial de que os habitantes da Ilha de Páscoa acabaram ficando sem recursos e, portanto, entrado em colapso.
A civilização rapanui já estava decadente quando os europeus chegaram à ilha, em 1722. Havia entre 2 mil a 3 mil rapanuis vivendo nela. Doenças europeias, escravidão e emigração para outras ilhas acabaram reduzindo drasticamente a população nativa. Quando a ilha foi anexada pelo Chile, em 1888, havia pouco mais de 100 descendentes de rapanuis vivendo nela.

Outras explicações

Não faltam teorias nem para o que seriam os moais, nem para o que teria causado o desaparecimento dos rapanui.
A explicação mais aceita sobre as estátuas é a de que seriam monumentos em homenagem a líderes mortos. Mas há ainda quem veja nos moais uma espécie de reprodução da distribuição astronômica das estrelas ou mesmo que eles funcionariam como para-raios nas constantes tempestades da ilha.
Quanto ao desaparecimento dos rapanui, muito também já se falou. Em 2016, o biólogo espanhol Valentí Rull, autor do livro La Isla de Pascua: Una Visión Cientifica e membro do Conselho Nacional de Pesquisa da Espanha, publicou um estudo no qual propunha uma reavaliação holística sobre o que teria acontecido com a sociedade rapanui.

Moais: Há muitas teorias nem para o que seriam os moais e para o que teria causado o desaparecimento dos rapanui.

Ele levantou todas as hipóteses correntes – o esgotamento dos recursos da ilha, a ideia de que eles teriam sido dizimados por doenças europeias e por tráfico de escravos, a devastação do ecossistema – e propunha uma resposta consistente na soma de todas elas.
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"As diferentes interpretações podem ser complementares, mas não excludentes. Na última década, houve um boom de novos estudos, e eles exigem que reconsideremos as questões climáticas, ecológicas e culturais que ali ocorreram", defendeu o cientista.
Rull lembrou que amostras sedimentares propiciaram um estudo sobre os últimos 3 mil anos do clima da ilha, demonstrando como a alternância de secas com estações chuvosas pode ter influenciado nas populações. Ao mesmo tempo, análises arqueológicas de artefatos e restos humanos também estão cada vez mais mostrando como era essa sociedade. 

Nome

Pesquisas científicas à parte, o governo chileno anunciou, no início deste mês, que deve rebatizar a Ilha de Páscoa em referência ao passado ancestral do local. Assim, seguindo uma proposta apresentada. por parlamentares chilenos em 2016, a ilha deve se chamar Ilha Rapa Nui.
A justificativa governamental para a mudança diz que Ilha de Páscoa lembra um "passado de invasão, saqueamento, escravidão e fim de sua cultura".
Rapa Nui, que significa "Ilha Grande", era o nome ancestral do local. Ilha de Páscoa foi o nome dado pelo explorador holandês Jakob Roggeveen (1659-1729), oficialmente o primeiro europeu a pisar na ilha – como ele chegou em um domingo de Páscoa, resolveu dar-lhe este nome.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

O laboratório que usa 'supertecnologia' para investigar se os rótulos do que comemos dizem a verdade

Num laboratório em uma universidade em Belfast, no Reino Unido, um estudante chamado Terry segura um sensor infravermelho sobre um minúsculo prato de orégano em pó. O mercado rotulou o produto como "orégano seco". Mas será que é isto mesmo?
 
Tubos de ensaio
Quando o sensor de luz atinge a amostra, um software faz a análise. Nesse caso, a embalagem está correta. Mas nem sempre é assim. Até 40% do "orégano seco" dos lotes em estudo são na verdade folhas de outras plantas, como murtas e oliveiras.
O problema não é apenas que pessoas sejam enganadas e comprem o tempero misturado a componentes mais baratos. Frequentemente essas folhas não são higienizadas de forma correta ou preparadas para o consumo.
"As análises mostram ainda que elas estão repletas de agrotóxicos", diz Chris Elliott, diretor do Instituto para Segurança Alimentar Global, da Universidade Queens, em Belfast, onde está o laboratório. "Então, além de consumir orégano adulterado, você ainda ganha uma boa dose de agrotóxico".
Em 2016, o mercado global de alimentos no varejo movimentou US$ 4 trilhões (R$ 14,3 trilhões). Com a velocidade acelerada de expansão do setor, a previsão é que esse valor dobre até 2020.
Com a globalização, as cadeias de produção de alimento estão cada vez mais complexas - e correm mais riscos de serem alvo de fraudes com substâncias mais baratas e prejudiciais misturadas aos produtos durante as etapas de fabricação. Enquanto isto, os adulteradores sugam bilhões de dólares do mercado regulado. E, ao fazê-lo, ainda colocam em risco a saúde da população.
No Brasil, a adulteração de alimentos ganhou os holofotes em 2017, quando a Polícia Federal deflagrou a operação Carne Fraca, expondo um esquema de fraudes para vender aos mercados interno e externo produtos fora dos padrões nacionais de qualidade. Na ocasião, a BBC News Brasil mostrou ainda a comercialização ilegal de leite com ureia e óleo como se fossem azeite.

Técnicas de adulteração

Desde o fim dos anos 80, Elliott estuda a contaminação de alimentos.
Em 2009, ele assumiu o recém-inaugurado laboratório da Universidade Queens - que recebeu investimento inicial de 1,75 milhão de libras (cerca de R$ 8,5 milhões) -, onde se dedica a desenvolver técnicas para detectar a contaminação de alimentos de forma mais rápida e mais eficiente. Além de décadas de experiência, o especialista cresceu em uma fazenda na Irlanda do Norte, por isso está familiarizado com os processos de produção de alimentos de qualidade.
Em 2013, ele ganhou atenção no Reino Unido depois de denunciar lotes de carne bovina processada - de hambúrguer a lasanha congelada - que tinham altas porcentagens de carne de cavalo. Em alguns casos, os produtos eram feitos integralmente de carne de cavalo.
O caso abalou a indústria alimentícia britânica, e o governo encomendou a Elliot um relatório sobre o setor que acabou surtindo efeitos práticos: hoje ele se diz seguro de que não há carne de cavalo nas prateleiras dos supermercados do país.
Enquanto trabalhava no relatório, o pesquisador diz ter se convencido de que os indivíduos por trás do escândalo eram criminosos organizados - com atividades em supermercados pela Europa que enganavam milhões de consumidores. No laboratório, adulterações e contaminações continuam a ser encontradas em vários outros produtos.

Testar e testar

Na sala principal de análises, há ferramentas de medição e pequenos potinhos por todos os lados. Uma máquina vaporiza amostras a uma temperatura de 9,7 mil ºC. Uma outra, do tamanho de um piano de parede, custa 750 mil libras (cerca de R$ 3,6 milhões) e consegue realizar centenas de testes diferentes ao mesmo tempo.
"Cuidado para não quebrar!", brinca Elliot ao passar por um estudante trabalhando. "Não vou", replica ele, ligeiramente nervoso.

Vidros de laboratório

Para testar a qualidade do orégano, por exemplo, faz-se um tipo de análise química chamada espectroscopia.
"É bastante simples. Nós iluminamos o alimento, e a energia da luz leva as moléculas do produto a vibrar ou oscilar, com isso conseguimos o que chamo de 'padrão de oscilação'", diz Elliot. "Cada molécula vai vibrar de um jeito ligeiramente diferente, então você mede todas as vibrações para ter uma impressão digital. É incrivelmente consistente".
Quanto mais testes eles fazem, melhor se torna o modelo para reconhecer os diferentes padrões de oscilação. A técnica que o estudante Terry usava está entre as últimas inovações.
A equipe espera que um dia ela esteja disponível para inspetores de alimentos, talvez como um equipamento com conexão sem fio, o que permitiria ao profissional checar instantaneamente se produtores e distribuidores estão seguindo as normas legais.
Outros testes podem indicar se há toxinas no produto adulterado. Um método usa biossensores baseados em anticorpos - as proteínas no sistema imunológico dos animais que se conectam com patógenos específicos ou toxinas para neutralizá-los. Se a ligação ocorre para um desses anticorpos, então o pesquisador sabe que há contaminação.
Praticamente qualquer tipo de alimento pode estar contaminado com substâncias químicas nocivas. Corantes industriais às vezes são adicionados às especiarias, por exemplo, para lhes dar mais cor. E como o preço do leite é definido pelo quanto de proteína ele contém, fraudadores adicionam outra fonte de proteína a produtos aguados - como proteína de arroz ou até couro hidrolisado, proveniente da pele de animais.

Embalagens de leite

Substâncias até mais perigosas podem ser adicionadas. Países de clima quente, onde o interior de um caminhão de transporte pode chegar a 40ºC, estão ainda mais vulneráveis, segundo Elliott.
"Um dos esquemas é acrescentar conservantes ao leite para evitar que ele estrague. Uma substância comumente adicionada é o formaldeído", explica o professor. "O formaldeído é um veneno".
Mesmo que uma toxina não seja intencionalmente adicionada ao produto, ainda assim ela pode estar presente no alimento - o que deveria levar o produto a ser retirado do mercado, mas isto nem sempre ocorre. Dependendo de onde o arroz é plantado, por exemplo, ele pode conter altos níveis de arsênico, um metal pesado que aumenta o risco de câncer.
Uma técnica de laboratório usada para detectar metais pesados como esse, e outros como chumbo ou cádmio, é a análise por fluorescência de raio X. Nela, o material analisado é atingido com um feixe de raios X que separa os elétrons dos átomos. Quando isto acontece, fótons com energias específicas para o tipo de átomo também são liberados. Ao medir a energia, os técnicos conseguem dizer quais elementos estão presentes na amostra.

Qual é o peixe

O laboratório não está preocupado apenas em identificar os elementos e compostos perigosos nos produtos. Como no caso da carne de cavalo, às vezes o que o rótulo diz é totalmente diferente do que está sendo comercializado.
Um dos alvos comuns são os filés de peixe. A maioria das pessoas não consegue notar a diferença entre hadoque, bacalhau, escamudo ou badejo - nem depois de uma mordida. Mas essas espécies têm preços bem diferentes. Vender um filé mais barato às vezes é uma tentação para donos de estabelecimentos e fornecedores.

Fish and Chips

Elliot tem um acessório na manga que ajuda a identificá-los. Chamado de "i-knife" (ou "i-faca", em português), ele foi desenvolvido por Zoltan Takats, um dos cirurgiões mais reconhecidos do mundo, do Imperial College, em Londres. Takats queria um instrumento cirúrgico que alertasse quando ele estivesse cortando um tecido cancerígeno ou saudável. Quanto mais preciso for ao extrair o tumor, menores as chances de ter que repetir a cirurgia (ou de remover um tecido saudável).
O bisturi desenvolvido por Takats tem um laser que vaporiza moléculas. A fumaça resultante é sugada por um espectrômetro de massa para análise. Elétrons são lançados contra a fumaça para desintegrar as moléculas, permitindo que a máquina classifique os átomos com base em sua carga, que é específica em cada caso.

Testes de computador

Ao cortar pedaços de hadoque, bacalhau, badejo e assim por diante, a equipe de Elliot conseguiu definir a mancha de fumaça resultante de cada um - o que diferenciou as espécies. Com isso foi possível apontar a espécie em questão de minutos.
Elliot não para por aí. Ele também está desenvolvendo uma forma de identificar se um peixe foi capturado com vara e linha ou por uma rede. Isso porque pescar com redes contribui com a pesca predatória, com a captura de outros animais como golfinhos e tartarugas, e até com a destruição de recifes de corais. Também pode destruir o habitat do fundo do mar, como no caso da pesca de arrasto. Por isso consumidores mais conscientes pagam preços mais altos por peixes capturados por anzóis. Mas como ter certeza qual é qual quando a espécie chega ao mercado?
"Estamos buscando diferentes marcadores metabólicos nestes peixes", diz Elliot. "Nossa hipótese é eles são determinados pelo (nível de) estresse".
Como um método de captura provoca mais estresse do que o outro, talvez seja possível construir um modelo confiável para diferenciá-lo.
As técnicas desenvolvidas por Elliot e sua equipe são uma janela para o que acontece na cadeia global e multifacetada da indústria de alimentos.

Equipamento de laboratório

"Nós precisamos deste complexo sistema de abastecimento", diz Elliot. "Mas um dos pontos negativos é que cada vez mais atores estão envolvidos nesse sistema, e cada vez que uma nova pessoa está envolvida, uma nova vulnerabilidade é introduzida". BBC

O que são as armas hipersônicas, alvo de disputa entre EUA, Rússia

Elas parecem ter saído de uma cena de Star Wars. E, de fato, se deslocam a "velocidades interestelares".
 
Arma
A velocidade é tão alta que pode quebra a barreira do som e, também, de qualquer sistema de defesa existente.
São as chamadas armas hipersônicas - antiga ambição armamentista da Guerra Fria -, que vieram à tona novamente nos últimos dias.
A China anunciou nesta semana que testou pela primeira vez com sucesso o Xingkong-2 ("Céu Estrelado-2" em tradução livre), uma aeronave hipersônica não tripulada que viajou, segundo o governo chinês, a 7.344 quilômetros por hora.
Ou seja, seis vezes mais rápida que a velocidade do som, capaz de dar uma volta completa na linha do Equador em pouco mais de cinco horas.
Mas eles não são os primeiros.
A Rússia comunicou, no mês passado, que seus MiG-31 que patrulham o Mar Cáspio estavam armados desde abril com um novo míssil hipersônico, o Kinjal.
O Ministério da Defesa russo também afirmou que, em breve, estaria pronto o Avangard, um sistema de mísseis que poderia percorrer distâncias intercontinentais a uma velocidade hipersônica de 24.140 quilômetros por hora.
A Força Aérea dos Estados Unidos, por sua vez, anunciou em 2015 a meta de desenvolver uma arma hipersônica até 2023, e mostrou vários avanços nesse sentido. Mas diante do crescente progresso de Pequim e Moscou, Washington começa a manifestar preocupação com os progressos do outro lado do Pacífico.
Recentemente, a Agência de Defesa contra Mísseis dos EUA solicitou US$ 120 milhões de orçamento para 2019, destinados a desenvolver sistemas de proteção contra mísseis hipersônicos.
Para se ter uma ideia, em 2016, o departamento solicitara US$ 75 milhões para a mesma finalidade.
"Washington tem até agora um sistema antimíssil que ainda não sabe se funcionará efetivamente diante de um ataque real, mas não tem nenhum mecanismo para se defender contra esses novos dispositivos", explica à BBC News Mundo, serviço da BBC em espanhol, George Nacouzi, especialista em armas hipersônicas da Rand Corporation, centro de estudos que oferece consultoria para as Forças Armadas americanas.
Mas em que consistem as armas hipersônicas e por que despertam tanta preocupação?

O que são armas hipersônicas

Por definição, as armas hipersônicas são aquelas que ultrapassam a velocidade do som em seu voo, segundo explica James Acton, codiretor do Programa de Política Nuclear do Carnegie Endowment for International Peace, centro de estudos com sede em Washington.
Ou seja, 1.237 quilômetros por hora (a uma temperatura de 20ºC).
"Teoricamente, elas podem ultrapassar cinco, 10, 20 vezes ou mais a velocidade do som", diz o especialista.

Arma

Nacouzi lembra, por sua vez, que existem dois tipos de armas hipersônicas:
  • Veículos planadores hipersônicos (HGV, na sigla em inglês), que são enviados ao espaço, alcançam altas altitudes e, em seguida, retornam com trajetórias sem curso definido em direção ao alvo.
  • Mísseis de cruzeiro hipersônicos (HCM, na sigla em inglês), um tipo de projétil que conta com um sistema de propulsão que quebra a barreira do som várias vezes.
Ambos podem viajar a velocidades superiores a 6.115 quilômetros por hora.
Segundo Acton, a fabricação desse tipo de armamento é uma aspiração desde a Guerra Fria, mas seu desenvolvimento enfrenta vários desafios tecnológicos.

Avião

"Depende do tipo de arma hipersônica, mas no caso da primeira (HGV), uma das principais limitações é a temperatura. Elas atingem temperaturas muito elevadas na atmosfera e podem derreter. Então, o desenvolvimento de materiais resistentes e o controle do calor seriam dois elementos a serem levados em conta", destaca.
"No segundo caso (HCM), o problema é o motor, ou seja, como fazer com que sejam rápidos o suficiente e mantenham essa velocidade durante longas distâncias sem o motor explodir", acrescenta.
Nacouzi observa que o maior desafio estratégico destes dispositivos é que, até agora, as armas existentes possuem uma trajetória de voo previsível.
"As armas hipersônicas, entretanto, apresentam trajetórias de voo imprevisíveis e se deslocam a velocidades ou altitudes variáveis, por isso é muito difícil se defender delas. Então, nem os Estados Unidos nem qualquer outro país têm sistemas de defesa eficazes contra um ataque desse tipo", explica.
A boa notícia é que, de acordo com o especialista, essa ainda é uma possibilidade remota, uma vez que apenas três países estão fazendo progressos significativos no seu desenvolvimento.
A má, acrescenta, é que sua implementação está dando lugar a uma nova "corrida armamentista" para alcançá-la.

A nova corrida

Acton também concorda que os três países estão disputando uma "corrida" para ver quem domina esse tipo de armamento primeiro.
"Eles estão desenvolvendo as tecnologias, defendem seu desenvolvimento, investem grandes somas de dinheiro, e parte da justificativa é a produção desse tipo arma por parte de outros países. Por isso que há definitivamente uma nova corrida armamentista", analisa.

Aeronave
Segundo ele, se a China está mais interessada em foguetes, a Rússia parece ter se concentrado em planadores, embora Moscou tenha anunciado que, no próximo ano, pode começar a produzir seu míssil intercontinental de longo alcance.
Nacouzi ressalta que, no caso dos Estados Unidos, os especialistas estão trabalhando nessa área há mais de 30 anos, mas, até onde se sabe, não desenvolveram nenhuma tecnologia, seja pelo custo ou por outros motivos.
No entanto, o secretário de Defesa dos EUA, James Mattis, disse em abril, antes de uma audiência do Comitê de Serviços Armados do Senado, que as armas hipersônicas e sistemas de defesa contra as mesmas eram "prioridade número um" para a pesquisa e desenvolvimento militar do país.
"A evidência disponível sugere que os Estados Unidos continuam a liderar essas tecnologias", diz Acton.

A nova ameaça nuclear

O físico considera, porém, que o maior desafio não está apenas no desenvolvimento desse tipo de armamento, mas em outros elementos que podem se originar dele.
"Essas armas ainda não foram produzidas em larga escala. Mas, para mim, a maior consequência disso seria se, por um lado, a Rússia ou a China implementassem sistemas de longo alcance com capacidade nuclear", avalia.
 
Vídeo divulgado por Putin mostra mísseis se dirigindo em direção à Terra
 
Segundo o especialista, ambos os países parecem estar dispostos a equipar suas armas hipersônicas com ogivas atômicas, enquanto os Estados Unidos procuram associá-las a armas convencionais.
E a diferença, diz Action, é que as armas nucleares hipersônicas não requerem a precisão demandada pelos armamentos convencionais: a destruição pode ser a mesma, sem a necessidade de atingir um alvo identificado.
"Se elas vão ser usadas com capacidade nuclear ou não, o fato é que os Estados Unidos nunca foram ameaçados por armas convencionais chinesas e sua vulnerabilidade às armas convencionais russas tem sido muito limitada. E com essas armas, carregando ogivas nucleares ou não, o perigo é muito maior do ponto de vista de segurança", acrescenta.
Com todas essas cartas na mesa, os especialistas não têm dúvida de que as armas hipersônicas serão um fator-chave em potenciais ameaças ou guerras no futuro.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Na China, mil anos atrás, as mulheres já jogavam futebol

Duas das pinturas que mostram mulheres jogando.
 
As arquibancadas vibraram no Rose Bowl da Califórnia durante a final da Copa do Mundo de 1999. Dois gigantes se enfrentaram: os Estados Unidos e a China. Após a segunda prorrogação, o placar continuou com um desesperado 0 a 0, que teve de ser desempatado nos pênaltis. A número 6 dos Estados Unidos concedeu a vitória a sua equipe marcando com o pé esquerdo. Depois do gol, a 6 ria e chorava, tirou a camisa e acenava como um lenço de vaqueiro, se jogou de joelhos na grama e continuou pulando entre os abraços de toda a equipe. A imagem da 6 com um top preto e sem camisa chamou a atenção da imprensa, apesar de muitos outros jogadores terem comemorado suas vitórias com a camisa na mão. Era Brandi Chastain, uma mulher. E essa foi a terceira Copa do Mundo de Futebol Feminino da história. A primeira foi realizada em 1991, na China.
Doze equipes participaram da primeira Copa do Mundo de Futebol Feminino da FIFA, as norte-americanas conquistaram a taça, e já a ergueram três vezes (1991, 1999 e 2015). A Noruega teve sucesso em 1995. A Alemanha em 2003 e 2007 e o Japão, em 2011. A jogadora chinesa Qingxia Shui se contundiu pouco antes do histórico jogo. "Foi algo inesperado, antes da primeira partida, e perdi a oportunidade de participar da Copa do Mundo. É uma tristeza que vou carregar comigo por toda a vida", lembra a chinesa, agora com 51 anos de idade.
Até o ano passado Qingxia Shui era treinadora do Xangai: "O mercado, os torcedores e patrocinadores estão muito mais preocupados, e as condições e o tratamento são muito superiores no futebol masculino, embora tenhamos dedicado uma vida inteira a este esporte". Nascida em Xangai, onde reside, Shui jogou na equipe da cidade e na seleção chinesa entre 1984 e 2001. Fã de Messi, seu maior orgulho é a conquista do vice-campeonato dos Jogos Olímpicos de Atlanta pela equipe chinesa.
Ela é um elo de uma corrente que começou há mil anos na China, de acordo com pinturas que mostram mulheres brincando com uma bola. Várias delas, como a do artista Su Hanchen, do século XII, em que quatro figuras femininas aparecem chutando uma bola colorida, mostram que na China, há um milênio, as mulheres jogavam futebol.
Apesar de que na Europa a origem do futebol seja atribuída à Inglaterra, diferentes culturas do planeta, em diferentes épocas, tiveram sua versão de um esporte em que uma bola era tocada com o pé. Os astecas e maias praticavam o jogo há mais de 3.500 anos como um esporte sagrado. O historiador e geógrafo grego Heródoto de Halicarnasso descreve em Histórias que no reino de Lydia (onde hoje ficam as províncias turcas de Izmir e Manisa), em torno do século V a.C, jogava-se bola " para contornar a fome” e "passavam um dia inteiro jogando para não pensar em comer". Em Roma, era praticado o Harpastum com uma pequena bola e grande dose de violência. Também com violência, na Grécia Antiga havia o Episkyros, em que duas equipes rivais competiam pela bola, num esquema mais parecido com o do futebol americano. Há documentos que provam que no Japão, pelo menos desde o século VII, se jogava o Kemari, que consistia em tocar a bola com qualquer parte do corpo exceto braços e mãos, uma modalidade que tinha como referência um esporte chinês, o cuju (tsu 'chu) –– de acordo com a FIFA, essa é a origem do futebol que conhecemos.
O cuju, praticado há pelo menos 2.300 anos na China, era um esporte muito parecido com o futebol. A primeira referência data do século III, explicam na revista do Instituto Confúcio. Era jogado em um campo retangular, com uma trave de gol no centro do campo, que "consistia de uma rede apoiada em varas de bambu", lembra a FIFA. Os participantes tinham de chutar uma bola de pelo recheada de penas para marcar um gol.
Duas equipes com 12 a 16 jogadores se enfrentavam. Havia duas maneiras de jogar cuju: o Zhu Qiu, praticado em eventos da corte para celebrar fatos importantes, como o aniversário do imperador, e o Bai Da, que era semelhante, mas sem um gol, e que durante a dinastia Tang (618). - 907), desfrutava de grande popularidade, especialmente entre as mulheres.
Em 2004, o ex-presidente da FIFA Joseph S. Blatterque deixou a presidência em meio a um escândalo de corrupção— reconheceu oficialmente que a China é o berço do futebol. Especificamente, a localidade de Linzi, na província de Shandong, conforme publicou em julho daquele ano o jornal China Daily.
O anúncio oficial deveria ter sido feito um ano antes, durante a Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2003, que iria ser organizada pela China, mas foi realizada nos Estados Unidos por causa de um surto de SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave). Desde 2015, a cidade chinesa de Linzi abriga o Museu Nacional do Futebol, em que uma placa alerta o visitante: "A confirmação do local original do futebol".

Pintura de mulheres jogando o ‘cuju’, do artista chinês Su Hanchen.

A Copa do Mundo de futebol masculino deste ano acabou e já começa a contagem regressiva para outra, a Copa do Mundo de Futebol Feminino da FIFA 2019, que será realizada pelo atual campeão mundial de futebol masculino: a França. Será entre 7 de junho e 7 de julho, em nove cidades francesas. Entre as 20 primeiras do ranking de seleções femininas da FIFA, encabeçadas pelos EUA, Alemanha e França, quatro são asiáticas: Japão (6), Coreia do Norte (10), Coreia do Sul (15) e China (17). A Espanha está se aproximando das 10 principais, na 12ª posição da lista, com 1911 pontos e a 25 pontos da Coreia do Norte. A veterana jogadora chinesa de futebol Qingxia Shui gostaria que fosse dada “a mesma atenção e recursos nesta Copa do Mundo" que recebem seus colegas das equipes masculinas.
BBC

Por que é uma boa idéia usar papel alumínio para melhorar o sinal de wi-fi

Graças à nossa luta diária para ter um bom wi-fi em casa, ficou famosa a ideia de usar papel alumínio para direcionar o sinal de internet. Não é um truque novo, mas é bom saber que a ciência demonstrou que ele funciona.
 
Roteador com barreira de papel alumínio
Segundo pesquisadores da Universidade de Darthmouth, nos Estados Unidos, colocar papel alumínio ou uma lata em volta das antenas do roteador pode melhorar o sinal, reduzir interferências e aumentar a segurança da conexão.
"Isso melhora a eficiência da rede sem fio em edifícios, ao reduzir o impacto que paredes e divisões internas têm", dizem os engenheiros de Darthmouth.

Como funciona o truque do papel alumínio para melhorar o sinal de wi-fi?

As antenas dos roteadores são geralmente omnidirecionais, ou seja, seu sinal se dispersa para todos os lados.
Uma barreira de papel alumínio colocada em torno delas faz com que o sinal se torne unidirecional, ou seja, vá apenas em um sentido.
Assim, você pode direcionar o wi-fi para a sala, por exemplo, o que fará com que outros ambientes fiquem sem sinal, mas ele estará concentrado onde pode ser mais necessário.

Roteador de internet wi-fi

Impedir que o sinal se propague em determinada direção e chegue apenas a alguns locais pode ter outros benefícios.
Pode ser útil, por exemplo, para evitar que ele atinja um espelho e seja refletido, o que pode gerar interferências e afetar a qualidade da conexão.

Isso ainda pode tornar a internet mais segura em sua casa

Direcionar o sinal reduz a interferência e ainda pode melhorar a segurança do wi-fi.
A barreira de alumínio pode servir para que o sinal não chegue a pessoas que queiram piratear a internet de sua casa ou que estejam tentando de alguma forma acessá-la para cometer uma fraude ou realizar um ataque.
Os pesquisadores de Darthmouth criaram uma versão mais sofisticada desse truque caseiro.
Fizeram um sistema que imprime modelos 3D em plástico, que podem ser envolvidos em papel alumínio para direcionar o sinal até onde se deseje.
Parece bastante simples, mas não é comum ainda ter acesso a uma impressora 3D, então, é melhor por enquanto ter um pouco de paciência e criatividade para criar nossos próprios painéis de papel alumínio

A nave espacial que vai "tocar o Sol" e deve marcar a história da ciência

Parker Solar Probe (PSP) 
 
Se tudo der certo, sábado, dia 11 de agosto de 2018, será um dia histórico para a aventura do conhecimento humano. Isso porque a Nasa, a agência espacial americana, deve lançar uma nova missão, com um objetivo nunca antes alcançado pela humanidade: a nave Parker Solar Probe (PSP) será o primeiro objeto construído por um humano a "tocar" o Sol.
O "tocar", aqui e nos cuidadosos comunicados da Nasa, vai sempre entre aspas porque a engenhoca vai, tecnicamente, apenas se aproximar muito da corona solar. Trata-se da parte mais externa da atmosfera do Sol, que começa a 2,1 mil quilômetros da superfície da estrela do Sistema Solar - e não tem um limite preciso. A corona é aquela aura, composta de plasma e com temperatura que chega a 2 milhões de graus Celsius, que a gente consegue ver quando há um eclipse.
"Estará mais perto do Sol do que qualquer outra missão anterior", diz o astrofísico Adam Szabo, um dos cientistas que integram a missão, em conversa com a BBC News Brasil. De acordo com o cronograma da agência espacial americana, daqui a sete anos, a PSP estará no ponto mais próximo da estrela já alcançado por uma espaçonave terrestre: 6,3 milhões de quilômetros da superfície solar.
Se o número parece grande, é preciso pensar nas escalas astronômicas. A distância entre a Terra e o Sol, por exemplo, é de 150 milhões de quilômetros. Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol, está a 58 milhões de quilômetros do astro. A atual recordista, a nave Helios 2, chegou, em 1976, a 43,5 milhões de quilômetros do Sol.

Para que servirá a missão

A ousada missão espacial, uma das mais complexas de toda a história de seis décadas da Nasa, deve custar cerca de US$ 1,5 bilhão e, esperam os cientistas, ajudar a responder uma série de dúvidas astronômicas.
Com os dados obtidos pela PSP, os pesquisadores querem conseguir compreender melhor a origem do vento solar - em termos práticos, essa informação pode ajudar a proteger o funcionamento dos nossos satélites artificiais, tão afetados por tais fenômenos. Vento solar é o nome que se dá para o fluxo de partículas com carga elétrica, como prótons, elétrons e íons, que o Sol irradia pelo Sistema Solar.
"Esta será a primeira vez que vamos estudar, de perto, nossa estrela Sol. Entender como funciona a corona e o vento solar vai nos ajudar a proteger nossa civilização, cada vez mais dependente de tecnologia e satélites de comunicação", contextualiza o físico e engenheiro brasileiro Ivair Gontijo, cientista da Nasa, à BBC News Brasil. "Variações no vento solar podem causar sérios danos a esses satélites."

Parker Solar Probe

"Esperamos com essa missão entender como a corona acelera o vento solar. Quem sabe poderemos no futuro prever quando o vento solar coloca nossos satélites em risco", completa Gontijo.
Os cientistas também querem entender por que a corona, mesmo mais distante do núcleo solar, é tão mais quente do que a superfície - 2 milhões de graus Celsius, contra uma variação de 3,7 mil a 6,2 mil graus.
A PSP ainda deve trazer avanços à astrofísica. Com uma observação tão próxima do Sol, deseja-se obter dados que ajudem a compreender melhor como as estrelas funcionam.
"De forma mais geral, entendendo o Sol, estaremos também entendendo como funcionam as outras estrelas", ressalta Gontijo. "Por isso esta missão trará resultados tanto práticos, para protegermos nossos satélites, quanto científicos, na área de astrofísica estelar."
Objetivamente, conforme enfatiza o astrofísico Szabo, são três as questões que a missão deve responder. "Um: por que a corona é significativamente mais quente do que a superfície do Sol. Dois: por que o vento solar se afasta do sol a velocidades supersônicas. Três: como as partículas energéticas do sol se aceleram à velocidade próxima à da luz", pontua.

Como funcionará a aproximação do Sol

"A missão Parker Solar vai se aproximar do Sol como nenhuma outra antes e um escudo protetor de quase 12 centímetros de espessura, feito de composto de carbono, vai protegê-la do intenso calor e da radiação presente", explica o físico brasileiro.
De acordo com informações da Nasa, a nave PSP pesa 612 quilos e mede 3 metros de comprimento por 2,3 metros de largura. O tal escudo térmico mede 1,3 centímetro de espessura e foi feito com um composto de altíssima tecnologia. E, de acordo com o cientista Szabo, o desenvolvimento dessa proteção foi um dos pontos mais difíceis de todo o projeto. A nave será lançada pelo foguete Delta IV Heavy.
O segredo da aproximação solar da PSP está em Vênus. Na realidade, segundo o projeto dos cientistas, é a gravidade do planeta vizinho que irá "arremessar" a nave, que deve desenvolver uma órbita em espiral, aproximando-se cada vez mais do Sol.

Parker Solar Probe (PSP)

Esse primeiro empurrãozinho de Vênus irá ocorrer em 2 de outubro, quando a PSP se aproximar do planeta. Então, no dia 5 de novembro, a nave vai realizar a primeira aproximação do Sol: estará a 24 milhões de quilômetros do astro, ou seja, já terá batido o recorde de artefato humano que mais se acercou do Sol em toda a história.
Essas órbitas vão se tornar recorrentes. E, então, conforme o cronograma desenvolvido pelos cientistas da Nasa, entre dezembro de 2024 e junho de 2025, em suas últimas voltas ao redor do Sol, é que a nave chegará aos pontos de maior aproximação.
E vai bater ainda outro recorde: terá embalado a 700 mil quilômetros por hora e, nesta velocidade incrível, se tornará o objeto mais rápido já fabricado pelo ser humano - para efeitos de comparação, o planeta Terra viaja a 1 milhão de quilômetros por hora.

O nome da nave

A Parker Solar Probe recebeu esse nome em homenagem ao astrofísico americano Eugene Parker, hoje com 91 anos. Ele foi o primeiro cientista a prever a existência do vento solar.
Em 1958, ele apresentou uma teoria mostrando como as altas temperaturas da corona solar acabavam disseminando partículas energéticas, formando o fenômeno, depois comprovado.
BBC

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

A ciência confirma: amizade tem limite

Episódio do seriado americano 'Friends'.

Dois físicos, um sociólogo e um antropólogo entram em um colégio. Têm quatro perguntas para os alunos:
– A quem você contaria seus problemas?
– Quem você não gostaria que fosse embora do colégio?
– Com quem você se sentaria para comer?
– Com quem você gostaria de trabalhar?
Aitana, Pablo, Patricia, Marcos.
Hugo, Alberto, Ana, Mauro, Manuel, Ángela, Fernando, Pau, Jaime, Adriana, Lucía...
As respostas se enchem de nomes de crianças, que os quatro cientistas transformam em um número quase por arte de magia (não é realismo mágico, e sim matemática e física aplicadas). Uma cifra diferente para cada aluno, que serve de indicador, como um teste psicotécnico, para saber se a criança administra suas amizades de maneira normal, ou se há algo que poderia estar falhando. “Não é um diagnóstico”, esclarece um dos físicos perguntões, Anxo Sánchez, “mas sim um aviso de um possível problema, como um caso de bullying escolar, por exemplo.”
Repito: a única coisa de que os cientistas precisaram foi dos nomes dos amigos de cada criança. E sem esperar a resposta de outros colegas.
Detectar possíveis anomalias de um aluno em suas relações de amizade na escola é uma das possíveis aplicações do trabalho de pesquisa que Sánchez acaba de publicar junto a Ignacio Tamarit, José A. Costa e Robin I. M. Dunbar na revista PNAS. O estudo, financiado pela Fundação BBVA, representa um marco porque, segundo Sánchez, “pela primeira vez uma teoria matemática é capaz de predizer um fenômeno social”.
Imaginemos que o professor agora queira dividir a classe em grupos de cinco. Tamarit, o outro físico da pesquisa, antes foi professor do ensino médio. “Quando se trabalha por projetos, a forma de agrupar os alunos é muito importante. Com as perguntas sobre os amigos podemos otimizar o rendimento dos grupos, e isso.
serve para colégios, empresas, acampamentos... Esta ferramenta permitiria avaliar a coesão do grupo ou a existência de panelas. Há muita informação que pode ser útil.”

Uma obviedade?

É óbvio que, se você não tiver amigos, algo acontece com você. Também é estranho encontrar alguém que diga ter 30 superamigos, porque aos realmente íntimos você dedica mais tempo (e os dias só têm 24 horas) e mais espaço no disco rígido do seu cérebro (precisa se lembrar se gostam mais de carne ou de peixe, quantos irmãos têm, seu último problema no trabalho...). O lógico é que você tenha mais nomes na lista de conhecidos do que na do seu núcleo duro de amizades. E assim surgem os círculos de amigos, maiores e mais numerosos conforme se afastam do núcleo.
“Tudo é óbvio quando se sabe a resposta.” Sánchez cita o título de um livro para responder a essa pergunta. “O que não é tão óbvio é que haja uma matemática rigorosa que explique por que isso é assim. Também é óbvio que a água a determinada temperatura se transforma em vapor, mas depois vem a física para explicar por que isso ocorre. Isto é exatamente igual.”
“É verdade que parece tudo muito natural, mas é preciso medi-lo, e por isso é ciência”, defende Tamarit. “Observamos que os seres humanos estruturam suas amizades seguindo um padrão, e o que fizemos foi demonstrar matematicamente por que isso acontece.”
Os autores foram a uma universidade norte-americana para colocar sua matemática à prova. Lá comprovaram que 98% dos alunos organizavam suas amizades de maneira similar: poucos amigos muito íntimos, alguns quantos bons amigos, e muitos conhecidos.
O número máximo que somos capazes de administrar é 150, conforme formulou Robin Dunbar nos anos noventa. Mas a estrutura de como os organizamos é dinâmica. “Se você tem um melhor amigo e vai morar fora, ou se você rompe com seu cônjuge, de repente fica um vazio”, explica Sánchez. “O cérebro parece que detecta isso e diz: há lugar livre. Talvez na camada dos conhecidos você nem note, mas nos primeiros círculos você detecta esse vazio e o preenche. Comportamo-nos de um jeito como se fôssemos átomos e tivéssemos elétrons.”

A física de uma ilha deserta

Os pesquisadores puseram à prova seu modelo em um ambiente diferente. O que aconteceria se o número de amizades estivesse limitado por questões físicas (como numa ilha deserta, tipo a série Lost) ou linguísticas? A matemática predizia um resultado, mas isso ocorria na realidade?
A oportunidade de comprovar chegou graças ao trabalho de campo de um sociólogo, José Luis Molina, entre imigrantes búlgaros e chineses radicados na Catalunha. Nas comunidades analisadas, os círculos de amizades saíam invertidos: todos eram amigos íntimos de todos (até 50), e a lista de conhecidos era mínima.
“Foi o momento mais emocionante do trabalho”, comenta Tamarit. “Se você tiver um número limitado de relações, o normal é que estas se tornem fortes, mas ninguém havia pensando nisso. Do ponto de vista antropológico, fazia sentido, matematicamente nos saía isso, e depois na realidade vimos que era assim.”

Os amigos ‘tapa-buraco’ no Facebook

Se nosso tempo e nossa inteligência só nos permitem ter um determinado número de amigos, o que a pesquisa tem a dizer sobre essas pessoas que têm mais de 500 amigos no Facebook?
“As redes sociais permitem que tenhamos mais amizades, mas as relações são mais superficiais, porque você lhes dedica menos esforço”, esclarece Sánchez. O Facebook se encarrega de nos recordar muitas coisas sobre nossos amigos, como o dia de seu aniversário. Assim, graças a essa liberação de armazenamento no nosso disco rígido do cérebro, podemos ampliar para até 220 relações. A partir desse número, teremos certamente amigos tapa-buraco.
“É preciso analisar o custo disso”, acrescenta Tamarit. “Se você tentar estender muito a sua rede, mesmo que seja com relações muito superficiais, deixará de atender aos bons amigos. É como se tivesse um orçamento para as relações. Se gastar tudo em comprar muitas bugigangas, no final não poderá ter um bom amigo.”

Inimigos para adivinhar amigos

Eu disse no começo que só fizeram quatro perguntas no colégio? Não contei a segunda parte: duas outras perguntas eram sobre os inimigos. Os resultados são fascinantes. Assim como os amigos, organizamos nossas inimizades em círculos de Dunbar. Ou seja, temos alguns poucos arqui-inimigos e muita gente que não nos cai bem.
Se todos voltássemos para a escola, ou para um ambiente fechado, a matemática também serviria para predizer quem seriam nossos amigos em 90% dos casos.
Bastaria saber o nome dos nossos inimigos.

O NÚMERO DE DUNBAR

O número de Dunbar define a quantidade máxima de amizades que uma pessoa pode ter.
O número de Dunbar define a quantidade máxima de amizades que uma pessoa pode ter.
Nosso cérebro está projetado para estabelecer relações de amizade. O curioso é como as administramos: existe um padrão, e ele tem forma de círculos. A grande maioria de nós conta com nosso núcleo de três a cinco pessoas com as quais temos uma relação muito íntima. Depois temos um círculo com uma dúzia de boas amizades, outro mais amplo de trinta amigos com os quais tratamos frequentemente, e por último um grupo de conhecidos que vemos de vPaísez em quando.
Ao todo, uma pessoa normal pode manejar, dada sua capacidade cognitiva e seu tempo limitado, 150 amizades. Essa cifra é conhecida como “número de Dunbar”, proposto pelo antropólogo inglês Robin Dunbar nos anos noventa ao observar como os chimpanzés se relacionavam (eles têm menos amigos porque são menos preparados que nós).
A novidade que esta pesquisa oferece é que agora há uma matemática que respalda a ideia de Dunbar partindo apenas de duas hipóteses, de novo, óbvias: 1) diferentes amizades exigem esforços diferentes; 2) não se pode ter infinitos amigos, porque seus recursos de tempo e capacidade são limitados. “Se essas duas hipóteses forem cumpridas, demonstramos que a teoria de Dunbar se cumpre, e aparecem esses círculos de amizades”, afirma Sánchez.
El País

A espetacular casa de 2 mil anos descoberta sob cinzas vulcânicas em Pompeia

Arqueóloga: Arqueólogos encontram a cada dia que passa novas peças em Pompeia
 
Em 24 de agosto do ano 79 d.C., a erupção do Vesúvio devastou a cidade de Pompeia, que pertencia ao então Império Romano.
Hoje, quase 2 mil anos depois de ter sido soterrada sob as cinzas do vulcão, os arqueólogos continuam descobrindo relíquias que ajudam a entender como era a vida naquela cidade, localizada perto de onde atualmente é Nápoles, na Itália.
 
Casa em Pompeia: A casa tem uma decoração estilo vintage
 
A descoberta mais recente é uma casa luxuosa, que os pesquisadores chamaram de "Casa de Júpiter".
Eles escolheram esse nome porque, entre os diversos afrescos nas paredes, há uma pintura dedicada a Júpiter, o deus supremo da mitologia romana.
 
Pompeia: Aparentemente, o dono da casa era um homem rico que gostava de arte
 
"A casa tinha uma decoração vintage, no estilo antigo de Pompeia", contou Massimo Osanna, diretor do Parque Arqueológico de Pompeia, à agência Ansa.
"O dono deve ter sido rico e culto, sabia o valor das pinturas".
 
Pompeia: As escavações atuais revelam como era a 'Casa de Júpiter'
 
Parte da residência já tinha sido escavada entre os séculos 18 e 19.
De fato, a estrutura da casa foi abalada por túneis e trincheiras abertos naquela época, além de um incêndio, que escureceu alguns afrescos e queimou os móveis.
 
Pompeia: A casa está localizada na recém-descoberta 'Travessa das Varandas'
 
A nova intervenção, no entanto, está revelando a arquitetura de uma residência com um átrio central, cercado por salas decoradas e um espaço aberto com colunas, na frente do qual há outros três quartos.
 
Escavações arqueológicas em Pompeia: Parte da casa foi danificada por escavações nos séculos 18 e 19
 
A entrada da residência fica na chamada "Travessa das Varandas", que também foi descoberta recentemente.
As paredes dos quartos ao redor do pátio, que imitam pedras de mármore, são pintadas em cores vivas.
 
Pompeia: As paredes da casa são pintadas com cores vibrantes
 
E alguns fragmentos encontrados mostram que o átrio tinha frisos com acabamentos em vermelho e azul.
Segundo especialistas, é muito provável que o dono da casa quisesse preservar o estilo vintage. Em outras residências da cidade, os moradores adotavam muitas vezes uma decoração com elementos mais modernos.
 
Pompeia foi destruída no ano 79 d.C. por uma erupção do vulcão Vesúvio
 
Uma das peças descobertas que mais chamaram atenção é uma pintura "sacro-idílica", encontrada em uma sala muito próxima à Casa de Júpiter, que eles chamaram de "a casa ao norte do jardim".
 
pompeya: Uma das peças mais emblemáticas encontradas é essa pintura, que recria a cena de um sacrifício
 
A pintura recria a cena de um sacrifício em um santuário e representa uma das primeiras imagens figurativas de certa complexidade, segundo o Parque Arqueológico de Pompeia.
 
Pompeia: A cada nova descoberta, os arqueólogos aprendem mais sobre como seria a antiga Pompeia
 
As descobertas entusiasmaram os arqueólogos, que a cada dia que passa encontram novas pistas de como era a vida em Pompeia antes de ser destruída.
Como Osanna disse, ao publicar fotos da Casa de Júpiter no Instagram: "A poesia está nos detalhes!".

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Veneza, uma cidade que naufraga com seus turistas

Veneza
 
Veneza é um parque temático de luxo em que a pessoa paga, olha e fica calada. Esse é mais ou menos o resumo feito na semana passada por seu prefeito, Luigi Brugnaro, para justificar que um restaurante próximo da praça São Marcos cobrasse a uma família de três pessoas que não falava italiano 526,50 euros (2.010 reais). Os turistas, indignados porque lhes tinham trazido pratos que não haviam pedido, pagaram a conta e escreveram uma carta ao prefeito porque essas coisas “podem arruinar a reputação de Veneza”. Não queriam reembolso, disseram. Só lamentar o ocorrido. A resposta de Brugnaro em uma entrevista à Sky 24 foi ainda mais surpreendente: “A pessoa come e bebe, e depois diz não saber italiano. Se você vem à Itália, aprenda a língua, e até um pouco de veneziano. Comeram uma lagosta e nem sequer deixaram gorjeta”. Uma explicação, em suma, que fala de todo um modelo.
A superexploração turística de Veneza, a cidade do mundo mais afetada por este setor (55.000 habitantes para 24 milhões de visitantes por ano) se aprofundou com a chegada dos navios de cruzeiro. Este ano desembarcaram 2,5 milhões de passageiros e o encanto de sua laguna voltou a se transformar em um grotesco postal com barcos gigantes a poucos metros do Palácio Ducal. Por isso, o Governo aprovou, para entrar em vigor em janeiro de 2018, a redução gradual no tráfego dessas megaembarcações. Por ora, o acesso ficará aberto aos com menos de 55.000 toneladas; os que superem esse peso serão desviados à passagem de Malamocco e atracarão no porto de Marghera, em Mestre.
Isto será suficiente? A medida responde a uma das condições impostas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) para evitar que Veneza fosse eliminada da lista de cidades patrimônio da humanidade. Um plano para que o frágil ecossistema urbano de 455 pontes que unem as 118 ilhas da cidade não fique à deriva. Mas o projeto anunciado pelo Ministério da Infraestrutura e Transportes italiano não convenceu as organizações, que recolheram 18.000 assinaturas em defesa da remoção completa dos navios de cruzeiro da Laguna e seu desvio para Trieste. No momento todos os dias continuam atracando até seis cruzeiros com 4.000 pessoas a bordo.
A verdade é que Veneza se converte rapidamente em um belo cenário cada vez mais vazio. Sua população se reduziu em dois terços desde meados do século passado, também pelos estragos causados pela aqua alta – as marés que inundam os pontos mais baixos da cidade. Hoje continua a cair a um ritmo de 1.000 pessoas por ano, enquanto no mesmo período chegam mais turistas que destroem o tecido comercial e residencial. Em 12 de julho, o chefe da polícia restringiu o número de participantes e barcos na festa do Redentore. Em seguida se falou em frear o fluxo em toda a cidade, colocando obstáculos ou cobrando entrada: a caixa de pandora definitiva para a picaretagem. Mas não seria estranho, levando-se em conta que os italianos têm que pagar para ter acesso à maioria das praias.

Segundo novo estudo: O que é o fenômeno "Terra estufa" e por que estamos caminhando para ele

Pode parecer o nome de um filme B de ficção científica, mas cientistas diz que estamos perto de viver na "Terra Estufa".

Cidade coberta por fumaça
Pesquisadores dizem que podemos estar próximos a entrar num patamar que nos levará a viver em meio a temperaturas cada vez mais altas e com um nível do mar cada vez mais elevado nos próximos séculos.
Mesmo que os países consigam atingir suas metas de redução de emissão de carbono, ainda assim podemos estar em um "caminho sem volta".ômeno
O estudo, publicado no periódico da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, mostra que isso pode ocorrer caso a temperatura global suba 2ºC acima dos níveis pré-industriais.
Os cientistas envolvidos no trabalho dizem que o aquecimento ocorrido até agora e o que deve provavelmente ocorrer nas próximas décadas podem mudar radicalmente algumas das forças naturais da Terra que hoje nos protegem e transformá-las em nossas inimigas.
A cada ano, as florestas, oceanos e terra do planeta absorvem cerca de 4,5 bilhões de toneladas de carbono que iriam parar na atmosfera e elevariam a temperatura do planeta.
Mas, conforme o mundo se aquece, essas "esponjas" que absorvem carbono podem se tornar fontes de emissão de CO2 e piorar significativamente os problemas do aquecimento global.
Seja o gelo permanente das regiões ao norte do planeta, que guarda milhões de toneladas de gases causadores do efeito estufa, ou a Floresta Amazônica, há o receio de que, conforme nos aproximamos de um patamar de 2ºC acima dos níveis pré-industriais, serão maiores as chances de que esses aliados naturais liberem mais carbono do que hoje absorvem.
Em 2015, governos de todo o mundo se comprometeram em manter a elevação das temperaturas abaixo dos 2ºC - e a trabalhar para manter isso abaixo de 1,5ºC. Mas segundo os autores do estudo, os planos atuais de cortar emissões podem não ser suficientes, caso suas análises estejam corretas.
"O que estamos vendo é que, ao atingir um aquecimento de 2ºC, podemos chegar a um ponto em que o controle desse mecanismo ficará inteiramente nas mãos do planeta em si", diz à BBC News Johan Rockström, coautor do estudo e pesquisador do instituto de pesquisas Stockholm Resilience Centre, na Suécia.
"Nós estamos no controle agora, mas, se ultrapassarmos os 2ºC, veremos o sistema da Terra deixar de ser um amigo para se tornar um inimigo - colocaremos nosso destino nas mãos de um sistema planetário que está começando a se desequilibrar."
Atualmente, as temperaturas globais já aumentaram 1ºC acima dos níveis pré-industriais e estão subindo cerca de 0,17ºC a cada década.
No estudo, os autores analisaram dez sistemas naturais, que eles chamam de "processos de feedback".
Hoje, esses sistemas ajudam a humanidade a evitar os piores impactos das emissões de carbono e o aumento de temperatura e incluem florestas, o gelo do mar do Ártico, hidratos de metano e o fundo do oceano.
A preocupação é que, se um desses sistemas cruzar um limiar e começar a emitir grandes quantidades de CO2 na atmosfera, os outros podem passar a fazer o mesmo como em uma fileira de dominós.
De acordo com a pesquisa, a entrada no período de "Terra Estufa" levaria à temperatura global mais alta já enfrentada pelo planeta nos últimos 1,2 milhão de anos.
O clima poderia se estabilizar com uma temperatura de 4ºC a 5ºC acima dos níveis pré-industriais. Graças ao derretimento de gelo, os mares podem se elevar de 10 a 60 metros acima dos níveis de hoje.
Isso significaria que partes da Terra ficariam inabitáveis. Os impactos seriam "massivos, algumas vezes abruptos e com certeza preocupantes", dizem os autores.
O único lado positivo, se é que se pode dizer isso, é que os piores efeitos não seriam sentidos por um século ou dois. Por outro lado, não seria possível fazer nada quanto a isso, uma vez iniciado o processo.

As atuais ondas de calor na Europa estão ligadas a esse cenário?

Os autores afirmam que os eventos climáticos extremos que vemos hoje no mundo não podem ser associados diretamente ao risco de ultrapassarmos o patamar de 2ºC.
Mas eles argumentam que isso pode ser uma evidência de que a Terra é mais sensível ao aquecimento do que se pensava antes.
"Devemos aprender com esses eventos e considerá-los uma evidência de como temos de ser mais cautelosos", disse Rockström.
"Isso indica que, se algo assim pode ocorrer com uma elevação de 1ºC, não deveríamos ficar surpresos ou desconsiderar conclusões de que coisas assim podem ocorrer de forma mais abrupta do que imaginávamos."

Mas não sabíamos desses riscos antes?

O que os autores do estudo afirmam é que, até agora, subestimamos o poder e a sensibilidade de sistemas naturais.
As pessoas pensavam que as mudanças climáticas se tornariam uma emergência global com elevações de 3ºC a 4ºC até o fim deste século.
Mas a pesquisa aponta que, acima de 2ºC, há um risco significativo de vermos mudanças drásticas em sistemas naturais que hoje mantêm as temperaturas mais baixas e se transformariam em grandes fontes de carbono que nos colocariam em um "caminho irreversível" rumo a um mundo de 4ºC a 5ºC mais quente do que antes de 1850.

Há alguma boa notícia nisso tudo?

Surpreendentemente, sim! Podemos evitar esse cenário, mas isso exigirá um enorme reajuste na nossa relação com o planeta.
"Mudanças climáticas e outras que ocorram no planeta mostram que nós humanos estamos impactando o sistema da Terra a nível global. Isso significa que, como uma comunidade global, podemos mudar nosso relacionamento com o planeta para influenciar as condições do planeta no futuro", diz a coautora do estudo Katherine Richardson, da Universidade de Copenhague, na Dinamarca.
"Esse estudo identifica alguns fatores que podem ser usados para isso."
Então, não apenas precisaremos parar de usar combustíveis fósseis até o meio desse século como vamos precisar plantar muitas árvores, proteger florestas, pensar em como bloquear raios solares e criar máquinas para retirar carbono do ar.
Os autores afirmam que uma reorientação total de valores humanos, comportamento e tecnologia é necessária. Todos teremos de nos transformar em protetores da Terra.
 
Aparelho para remover carbono da atmosfera

O que dizem os outros cientistas?

Alguns afirmam que os autores desse estudo são muito extremistas. Outros afirmam que suas conclusões são perfeitamente válidas.
"Como resultado do impacto humano sobre o clima, a nova pesquisa argumenta que estamos além de qualquer chance da Terra se resfriar 'por conta própria'", diz Phil Williamson, da Universidade de East Anglia, no Reino Unido.
"Juntos, esses efeitos podem acrescentar mais meio grau ao aquecimento até o fim do século, pelo qual seríamos diretamente responsáveis, e, assim, cruzaríamos um limiar em torno de 2ºC, fazendo com que ocorressem mudanças irreversíveis ao planeta."
Outros se preocupam com a fé dos autores de que a humanidade será capaz de entender a gravidade do problema.
"Dadas as evidências na história da humanidade, parece ser uma esperança ingênua", diz Chris Rapley, da University College London, no Reino Unido.
"Em uma época de populismo de direita generalizado, junto com a rejeição das mensagens que partem das chamadas 'elites cosmopolitas' e a negação das mudanças climáticas como uma questão séria, a probabilidade de que a combinação de fatores necessária para que a humanidade leve o planeta rumo a um 'estado intermediário' aceitável é próxima de zero."
 

Espaçonave japonesa Hayabusa 2 tira fotos a 851 metros do asteróide Ryugu

Hayabusa2
 
A espaçonave
 japonesa Hayabusa2 tirou o primeiro close do Ryugu, o asteroide do qual deve coletar amostras e trazer à Terra para análises. Com menos de 1 km de distância, esta é a primeira vez que o veículo consegue uma imagem tão nítida do corpo celeste.
O Hayabusa2 foi lançado no final de 2014, com o projeto de conseguir amostras do asteróide, cuja órbita transita entre Marte e Terra, por vezes, passando pela de Vênus. O projeto é que o Hayabusa2 volte a solo terrestre em 2020 com coletas do Ryugu.
Para fazer as imagens divulgadas nesta terça-feira (7), o veículo fez a sua maior aproximação. Na manhã de segunda (no horário do Japão), estava a 20 km do asteroide. Em pouco mais de 9 horas, o Hayabusa2 se aproximou a uma distância de 6 km. Na manhã de desta terça no Japão (equivalente a 8h10 da noite de ontem aqui no Brasil), o veículo atingiu seu ponto mais próximo até o momento: 851 metros. Foi aí que os propulsores foram ligados e o veículo passou a se distanciar.
 
Foto da teleobjetiva tirada pela Hayabusa2 (Foto: JAXA)
 
Com esta investida, foi possível coletar fotos tanto da câmera teleobjetiva quando da grande angular. A primeira oferece imagens com proporção de 10 metros a cada centímetro de foto, revelando algumas pedras gigantes na superfície. A junção de ambas as lentes permite tem um olhar mais aberto e outro central do local.
Além das fotos, como o veículo utilizou da gravidade do asteroide para se aproximar. Os cientistas de do grupo JAXA, quem fazem a análise em Terra, também conseguem calcular com mais exatidão a gravidade e consequentemente comprovar a massa.
Com as fotos, todos estes cálculos ajudam a equipe a decidir em qual local será o pouso da Hayabusa2 para coleta. Esta data ainda não está definida, mas deve acontecer nos próximos meses, dentro do cronograma do projeto.

Foto da grande angular. Detalhe mostra captura da teleobjetiva (Foto: JAXA)

Pelas fotos, os cientistas terão um desafio pela frente para pousar o veículo no asteroide. A missão deve ser finalizada apenas em 2020.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Quamdo o Chile quis vender a Ilha de Páscoa para os nazistas

Isla de Pascua
 
O Chile tentou vender a Ilha de Páscoa para a Alemanha nazista. Reconhecida pela Unesco como Patrimônio Mundial da Humanidade, situada a cerca de 3.500 quilômetros de distância da América no meio do Pacífico, a ilha foi oferecida pelo país sul-americano ao regime de Adolf Hitler para conseguir dinheiro para comprar dois cruzadores para a Marinha, que na época tinha o controle da ilha. Aconteceu em 1937, mas a operação foi tratada como segredo de Estado pelo Governo conservador chileno, liderado por Arturo Alessandri. Oitenta e um anos depois da assombrosa oferta, no entanto, a história é revelada no livro Rapa Nui. Uma Ferida no Oceano, do escritor espanhol Mario Amorós, que será lançado em Santiago no dia 9 de agosto e na ilha, no dia 14.
Rapa Nui ou Ilha de Páscoa, como se chama indistintamente uma das porções de terra habitadas mais isoladas do planeta, havia se tornado parte do território chileno em 1888, mas somente em 1966 o Estado reconheceu-lhe os direitos civis e políticos. Nos anos trinta, quando aconteceram as negociações com a Alemanha nazista, “para o Chile continental a ilha era principalmente um lugar marcado pelo estigma da lepra e, para o poder político, um lugar distante, cedido à Marinha e arrendado para uma empresa privada, com muito pouco valor”, aponta Amorós. Essa percepção explica em parte a decisão do Governo de Alessandri, que ainda sofria os efeitos da crise econômica de 1929 e precisava do dinheiro para reforçar a defesa marítima do Chile: os militares temiam uma aliança militar contra o país unindo Peru, Bolívia e Argentina. A encomenda de oito navios de guerra da Argentina junto ao Reino Unido, feita naquela época, tinha despertado “inveja” na Marinha chilena e na Administração de Alessandri, conforme detalha o livro, razão pela qual estavam determinados a se reforçarem militarmente.
Foi o contexto no qual, ao longo de 1937, o Governo de Alessandri colocou a Ilha de Páscoa à venda pela maior oferta para os Estados Unidos, o Japão, o Reino Unido e a Alemanha nazista. Até agora apenas as duas primeiras negociações eram conhecidas, mas não as conversações com o regime de Hitler, do qual o Chile comprara havia pouco tempo 36 aviões para a Força Aérea “de maneira arbitrária e incorrendo em práticas corruptas”, conforme detalhado em Rapa Nui. Uma ferida no Oceano. Amorós conta que foi durante o XVI Congresso da Associação de Historiadores Latinoamericanistas Europeus de 2011, em San Fernando (Cádiz), que o professor húngaro Ferenc Fischer, especialista na história das Forças Armadas chilenas, apresentou uma conferência referente às negociações secretas mantidas por ambos os países entre 1935 e 1939, que abordaram a oferta de venda da ilha.
Fischer encontrou um documento no arquivo do Ministério das Relações Exteriores em Bonn que resumia uma reunião entre o embaixador de Hitler no Chile e o então ministro chileno das Relações Exteriores, José Ramón Gutiérrez Alliende, realizada em 14 de agosto de 1937. Naquele encontro, explica Amorós, a Alemanha nazista buscava confirmar as intenções do Governo chileno de vender-lhe a ilha. Embora não exista qualquer registro dessa conversa no arquivo histórico da chancelaria chilena, como constatou o autor do livro, existem outros documentos que fornecem mais detalhes sobre a operação que o país sul-americano procurava fechar.
 
Moais nas encostas do vulcão Rano Raraku, na Ilha de Páscoa (Chile)
 
Em 17 de novembro de 1930, o adido naval dos EUA no Chile, I.H. Mayfield, informou ao seu país a oferta do Chile e que o preço solicitado pela ilha era de um milhão de dólares. Em um novo relatório norte-americano datado de 8 de junho de 1937, o novo adido naval dos Estados Unidos no país sul-americano, A.S. Merrill, enviou às suas autoridades um escrito de caráter confidencial de duas páginas que aponta que o presidente Alessandri tinha decidido vender ou arrendar Rapa Nui para “financiar a construção de dois cruzadores no exterior”. O texto afirma que o Chile tinha oferecido a ilha a outros três países – Reino Unido, Alemanha e Japão – e que a operação havia sido proposta a Alessandri pelo então comandante-em-chefe da Marinha, Olegario Reyes del Río.
Nenhuma das negociações secretas prosperou, embora somente se conheçam as razões do lado britânico, explica o autor de Rapa Nui. Uma Ferida no Oceano. “Descartaram a compra da ilha porque consideraram que seu valor, do ponto de vista naval, era escasso. No entanto, Londres e Washington avaliaram que era não conveniente que o Japão, a Alemanha ou a Itália (as futuras potências do Eixo) ficassem com a ilha”, explica Amorós, que em seu livro traça a história de Rapa Nui, com seu inestimável patrimônio cultural e arqueológico, desde a origem de sua ocupação humana até o presente, “quando o povo rapanui busca redefinir sua relação com o Estado do Chile”. O autor refere-se à denúncia que o Conselho de Anciãos do povo Rapa Nui e o Conselho de Chefes da Ilha apresentou em 2015 à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) para conseguir a devolução de terras ancestrais e o controle dos recursos naturais.
El País