quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

A ressaca é mais forte quando se mistura diferentes tipos de bebidas?

Há vários mitos sobre a melhor forma de beber álcool para evitar, ou ao menos minimizar, uma ressaca.
Quão confiáveis são essas crenças populares? Há evidências de que misturar vinho e cerveja piora a ressaca no dia seguinte? É verdade que não podemos misturar? Infelizmente, as evidências científicas não dão suporte para esse tipo de estratégia.
A BBC fez uma revisão de pesquisas recentes e é possível afirmar que as causas dos principais sintomas de ressaca são desidratação, mudanças nos níveis de hormônios como aldosterona e cortisol e os efeitos tóxicos do próprio álcool. Além disso, há evidências de que o sistema imune é afetado e isso poderia ser a causa da dor de cabeça, da náusea e da fatiga.
Como regra geral, quanto mais álcool você beber, pior será sua ressaca no dia seguinte. A não ser, é claro, que você seja uma das pessoas sortudas que não sofrem de ressaca, o que existe comprovadamente de acordo com alguns estudos recentes, ainda que não se saiba o motivo para isso.
Há dois principais "ingredientes" para uma ressaca severa: beber muito álcool e beber muito rápido. A mesma quantidade de álcool, porém, nem sempre resulta na mesma severidade da ressaca.
Sabe-se que misturar bebidas ou tomar coquetéis pode levá-lo a consumir mais álcool - e isso pode piorar a sua ressaca. Além disso, alguns drinks parecem ter um efeito posterior pior do que outros.
Além da intoxicação causada pelo álcool, há outros componentes que afetam o nível da ressaca - os chamados congêneres. Congêneres são substâncias não-alcóolicas produzidas durante a fermentação, como acetona, acetaldeído e taninos, que mudam as cores das bebidas e lhes dão sabores distintos.
Drinks claros, como vodca, tem menos congêneres do que os mais escuros, como o uísque. Na verdade, um uísque bourbon tem 37 vezes mais congêneres do que a vodca, o que torna a ressaca de uísque pior.
Portanto, misturar bebidas claras e escuras pode fazer você se sentir mais enjoado do que se tivesse bebido apenas líquidos claros. Ainda assim, ambos os drinks diminuem sua cognição igualmente no dia seguinte depois de bebê-los.

Vinho e cerveja

Para descobrir o efeito dessas substâncias na ressaca, pesquisadores americanos recrutaram estudantes universitários que bebiam com frequência mas não tinham problemas de alcoolismo.
Em algumas noites, eles beberam bourbon e coca-cola, em outras vodca com coca-cola e em outras um placebo que nada mais era que uma mistura do refrigerante com água tônica e algumas gotas de bourbon ou vodca para torná-lo parecido com o drink real.
Os participantes tomaram entre três e seis drinks, o suficiente para ter uma concentração de 0,11g de álcool para cada 100 ml. Essa concentração é de duas a cinco vezes mais alto do que o limite do bafômetro para ter permissão de dirigir, dependendo de em que país você estiver.
Os estudantes passaram a noite em uma clínica e foram acordados às 7h da manhã para tomar um café da manhã e encarar uma nova bateria de testes. Eles receberam U$450 (R$1450) pelo experimento.
Os pesquisadores concluíram que os estudantes que beberam bourbon classificaram a ressaca como pior do que os outros grupos, mas tiveram performance tão boa quanto os outros nos testes de tempo de reação.
Ainda não há uma pesquisa específica sobre a mistura de cerveja e vinho e o efeito disso na ressaca, mas talvez o problema não seja da uva ou do grão em si, mas da força desses drinks na nossa capacidade de julgamento.
A cerveja tem entre a metade e um terço da força do vinho, então começar com ela e depois bever vinho pode ser menos intoxicante do que o contrário. Se você começar bebendo vinho e depois pular para a cerveja, porém, seu julgamento pode já estar prejudicado o suficiente para você não perceber quão bêbado está.
Ou seja, as evidências científicas apontam que a culpa da ressaca não é da mistura em si, mas sim de beber demais ou de uma quantidade mais alta de congêneres na sua bebida.
BBC Brasil

Imagens da Nasa mostram a dimensão dos incêndios que já ameaçam a Los Angeles, na Califórnia

Moradores do bairro de Bel-Air, em Los Angeles, estão sob ameaça de seren atingidos pelas chamas de um dos incêndios que devastam o Estado da Califórnia, na costa oeste dos Estados Unidos.
O incêndio Skirball já se espalhou por mais de 150 hectares e destruiu várias casas e mansões desta que é uma das áreas mais nobres da cidade americana.
Este é o mais recente de uma série de focos que surgiram nesta região do país nos últimos dias, deixando um rastro de devastação.
O maior deles, o incêndio Thomas, já afetou mais de 90 mil hectares e chegou à costa do Pacífico, como mostram imagens de satélite da Nasa, nas quais é possível ver a grande área queimada.
As fotos feitas a partir do espaço mostram os vários focos ativos de incêndio nesta parte da Califórnia.

Imagem de satélite de incêndio na Califórnia

De acordo com o Corpo de Bombeiros da Califórnia, até quarta-feira, 12 mil casas e edifícios estavam sob a ameaça do Thomas e 150 já haviam sido destruídos. Apenas 5% da área em chamas estava sob controle.
Ventos fortes ajudaram a espalhar as chamas e fizeram a fumaça avançar muitos quilômetros oceano adentro. A previsão é que a situação persista até pelo menos sexta-feira, com a possibilidade de rajadas de até 130 km/h.
"Não há como combater os incêndios com esse vento", disse Ken Pimlott, chefe do Corpo de Bombeiros do Estado.

Bombeiros resgatam quadro de casa em Bel Air

Ordens de evacuação foram emitidas em várias áreas do Estado. Está em vigor o alerta roxo, o nível mais elevado na história da Califórnia, em meio ao que autoridades locais estão chamando de um "clima extramente crítico para fogo".
Em Bel Air, na quarta-feira, bombeiros foram vistos resgatando obras de arte de casas luxuosas enquanto tentavam conter o avanço do fogo. Moram no bairro celebridades e empresários como a cantora Beyoncé e o fundador da Tesla, Elon Musk.
O cantor Lionel Richie cancelou um show em Las Vegas que ocorreria na noite de ontem afirmando que estava "ajudando sua família a se abrigar em um local mais seguro".

Incêndio consome edificação em Los Angeles

Uma grande propriedade e vinhedo do bilionário Rupert Murdoch também corria risco e já sofreu danos. O jornal Los Angeles Times disse que Murdoch pagou US$ 28,2 milhões (R$ 94,5 milhões) pelo local há quatro anos – um valor 12 vezes acima da média em Bel Air.
O Museu Getty também estava sob a ameaça do fogo e permaneceria fechado nesta quinta-feira. A instituição disse não ter retirado as obras dali, mas que um sistema de filtragem do ar estava protegendo sua coleção, que inclui quadros de Leonardo da Vinci, Van Gogh e Turner, de possíveis danos causados pela fumaça.

Fumaça do incêndio em Bel Air, Los Angeles

A Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) cancelou hoje suas aulas, apesar do seu campus estar fora da área de evacuação na zona oeste da cidade, uma decisão que tomou com base no "quadro de incertezas". Muitas escolas estão fechadas.
O incêndio Creek, no norte de Los Angeles, também teve até agora somente 5% de sua área controlada. Ele cobre atualmente 12,6 mil hectares. Mas destruiu apenas quatro construções nesta que é uma região menos densamente povoada.

Helicóptero despeja água sobre incêndio

Em todo o Estado, mais de 200 mil pessoas já tiveram de deixar suas casas. Uma moradora de Los Angeles, Patricia Moore, de 84 anos, se preparava para o caso de ter de fugir quando disse à agência de notícias AFP: "Ontem, estava mais ao norte, mas, nesta manhã, acordamos e estava ao leste de nós."
"Ouvimos os bombeiros antes de seis da manhã e dissemos: 'Talvez esteja na hora de começar a colocar nossas coisas no carro'."
BBC Brasil

A obra prima de Oscar Niemeyer abandonada e usada para execuções em guerra no Líbano

Na cidade de Trípoli, no Líbano, um conjunto de prédios de concreto está há anos abandonado. Não são edifícios comuns, mas sim verdadeiras obras de arte da arquitetura, assinadas por Oscar Niemeyer.
 
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O arquiteto brasileiro que projetou os edifícios de Brasília foi escolhido na década de 1960 para desenhar o centro comercial internacional de Trípoli. Na época, o Líbano vivia seu auge econômico e era considerado a capital financeira do Oriente Médio.
A construção começou em 1967 e só foi concluída quase dez anos depois, em 1974. Mas a obra-prima de Niemeyer nunca chegou a cumprir sua função.
A Guerra Civil do Líbano interrompeu o boom econômico. O conjunto de prédios projetado pelo arquiteto brasileiro chegou a ser alvo de ataques e ocupado por milícias.
"Todos esses prédios que estavam prontos para funcionar nunca foram usados. Há histórias até de execução de pessoas nesse prédio (durante a guerra civil). Dá para ver balas nas paredes", conta o arquiteto libanês Wassim Naghi.
As belas curvas de concreto resistiram às agressões da guerra, mas foram abandonadas após o fim do conflito.
Em vez de congressos e feiras de comércio e tecnologia, o que impera dentro da cúpula redonda projetada por Nieyemer é o silêncio.
"É como um oásis, um oásis de concreto. Eu posso enxergar a obra como um útero com um bebê dentro, um bebê que nunca chegou a nascer", diz Wassim Naghi.
"Trípoli teve sorte de receber esse projeto no coração da cidade. Mas o projeto teve o azar de estar em Trípoli."
BBC Brasil

O que está por trás da polêmica decisão do presidente americano sobre Jeruzalém

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump
 
Donald Trump prometeu em campanha e cumpriu: Jerusalém foi reconhecida pelos Estados Unidos como a capital de Israel. A decisão, anunciada nesta quarta-feira, provocou reações críticas de líderes políticos e religiosos de todo o mundo - do Papa Francisco ao governo chinês.
O temor generalizado é que a medida dificulte - e até inviabilize - os históricos esforços de negociação de paz entre Israel e Palestina. Mas especialistas ouvidos pela BBC Brasil acreditam que Trump não levou em conta esse conturbado cenário regional ao tomar a decisão.
O que estaria em jogo seriam assuntos domésticos dos próprios EUA. Especialmente a tentativa do presidente americano de agradar suas bases eleitorais. A mais importante delas é a dos evangélicos conservadores, que advogava pelo reconhecimento de Jerusalém como a capital de Israel.
"Trump foi movido por uma pressão da direita evangélica republicana. Não tem nada a ver com aproximar Israel e Palestina de um acordo. Pelo contrário, essa decisão só os separa ainda mais", afirma J.J. Goldberg, editor da Forward, revista americana voltada para a comunidade judaica.

Evangélicos

O papel dos evangélicos na política internacional americana a respeito de Israel é cada vez maior, explica Kenneth Wald, professor de ciência política da Universidade da Flórida. O grupo teria começado a ter relevância política nos anos 1980, e hoje já representaria uma das maiores e mais leais bases do Partido Republicano.
"Qualquer presidente quer manter sua base contente. Mas precisa estar atento às consequências. Por isso, os antecessores de Trump, inclusive os que eram comprometidos com Israel, viram essa medida como imprudente", continua Wald.
A influência dos evangélicos na decisão de Trump teria sido maior até que a dos judeus americanos. Primeiro, porque Trump não tem uma boa interlocução com a comunidade judaica nos Estados Unidos. Segundo, porque os judeus representam um grupo muito menor na sociedade americana que os evangélicos.
E terceiro, porque apenas os judeus ortodoxos estariam interessados na solução adotada por Trump. Os judeus mais ao centro e à esquerda prefeririam uma solução negociada. "A decisão de Trump também não tem a ver com a comunidade judaica, que é majoritariamente liberal", diz Goldberg.
 
Bandeiras dos Estados Unidos e de Israel hasteadas

'Política por impulso?'

Já Michael Barnett, professor de assuntos internacionais da Universidade George Washington, discorda que os evangélicos tenham sido tão relevantes na decisão de Trump. Para ele, é difícil encontrar uma explicação razoável.
"Não faz sentido fazer isso. Parece ser uma política dirigida por impulso. Trump decide ignorar as recomendações e fazer o que tem na cabeça. Não há uma estratégia internacional."
Contribui para essa visão o fato de que o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel, e a futura transferência da embaixada dos EUA, foram apresentados como medidas isoladas. Parecem não fazer parte de uma estratégia política mais ampla.
Se por um lado o anúncio do presidente foi uma surpresa para o mundo, por outro não destoa de outras das suas polêmicas posturas internacionais, como a saída dos EUA do Acordo de Paris sobre Mudanças Climáticas, o rompimento da Parceria Transpacífico e até as ameaças públicas a Kim Jong-un, da Coreia do Norte.
"Trump mostra nenhum interesse em considerar qualquer tipo de opinião mundial", avalia Goldberg.
A decisão de Trump vai na mesma direção de uma medida aprovada em 1995 pelo Congresso dos Estados Unidos, prevendo a transferência da Embaixada americana em Israel para Jerusalém. No entanto, isso nunca havia sido posto em prática, porque era necessária aprovação da Presidência dos Estados Unidos. Desde então, em todos os semestres, o ato do Congresso foi encaminhado aos presidentes americanos, mas a praxe sempre foi renunciar a mudança. Apesar de parecer contraditório, foi o que o próprio Trump fez - o replubicano também assinou a renúncia, para que haja tempo de iniciar a transferência da embaixada.

Jerusalém

Por que evangélicos querem Jerusalém como capital de Israel?

Nos Estados Unidos, as razões para o apoio dos evangélicos ao reconhecimento de Jerusalém como capital são principalmente religiosas. "
Há muita diversidade no mundo evangélico, mas há uma ideia comum de que o destino de Israel é importante para o futuro religioso dos evangélicos", afirma Wald.
Alguns acreditam que, por razões bíblicas, Israel é o lugar destinado a agregar os judeus. Outros creem que o messias pode retornar para Jerusalém, vista como a Terra Sagrada e, para isso, é importante que ela esteja nas mãos de Israel, e não dos muçulmanos.
Assim, há uma espécie de ponte entre a história de Israel bíblico e a do Estado moderno de Israel.
Mas nem todos os evangélicos americanos compartilham dessa visão.
"Muitos evangélicos, como eu, não gostam do romance recente entre a igreja e a política republicana, e se preocupam com a mudança da embaixada americana. Para nós, a construção da paz e a busca de Justiça são grandes virtudes", escreveu o professor de estudos bíblicos Gary M. Burge, em artigo para a revista The Atlantic.

Palestino encara soldados israelenses

Quais as consequências para israelenses e palestinos?

O representante dos palestinos no Reino Unido, Manuel Hassassian, disse à BBC que a medida será o "beijo da morte" nas negociações de paz baseadas no reconhecimento de dois Estados.
"Ele está declarando guerra no Oriente Médio contra 1,5 bilhão de muçulmanos e centenas de milhões de cristãos que não irão aceitar que os santuários sagrados estejam totalmente sob a hegemonia de Israel", disse Hassassian.
Acadêmicos também estão em alerta. "Os riscos são inacreditáveis. Quem pensava que poderia haver uma solução negociada entre Israel e Palestina, que levasse à coexistência de dois Estados, não pensa mais nisso. O que sobra para os palestinos? Não sobra muito. Vão sentir que os EUA já determinaram o futuro de Jerusalém", diz Barnett, da Universidade George Washington.
"Por isso, pode ser um ponto de inflexão na política palestina. Pode espalhar-se uma Terceira Intifada (insurreição de palestinos contra Israel). Além disso, uma medida como essa deixa os oponentes dos Estados Unidos mais dispostos a enfrentar riscos. Essa é a ferramenta de recrutamento (de militantes) que al-Qaeda, o autodenominado Estado Islâmico e Hezbollah adorariam usar", completa Barnett.
Há ainda quem tenha uma visão mais moderada e acredite que a medida de Trump possa facilitar as negociações entre Israel e os líderes palestinos. É o caso de Jonathan Sarna, professor de história judaica americana na Universidade de Brandeis, Massachusetts.
"Muitas pessoas no mundo muçulmano acreditavam que o tempo estava ao lado deles. Por isso, não queriam sentar à mesa de negociação. Mas agora a situação se inverte. É a hora de negociarem com Israel", afirma.
Sarna não acredita no surgimento de um conflito, porque, na sua visão, Israel tem forças "capazes de conter a violência árabe".
BBC Brasil

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Um ciclo de transformações profundas na Arábia Saudita acaba de começar

O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman  (Foto: Chip Somodevilla/Getty Images)
 
O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman quer centralizar o poder para reformar o reino saudita. É um jogo arriscado, mas que, se der certo, poderá mudar todo o mapa geopolítico do Oriente Médio.
 A Primavera Árabe terminou, mas uma onda de mudanças revolucionárias no Oriente Médio continua moldando o mapa geopolítico da região. Na Arábia Saudita, a nova liderança do príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, provocou inquietação em toda a região em 4 de novembro, depois que ele liderou, com muito alarde, um expurgo inédito de 11 príncipes da família real. Esse movimento é um prelúdio de uma tentativa do príncipe herdeiro de consolidar o poder.  Carrega alguns riscos em curto prazo para a estabilidade política,  mas faz parte de uma história muito maior: que pretende introduzir mudanças estruturais nos sistemas político e econômico do reino saudita. A onda de reformas irá transformar.
 para sempre o país e a relação entre o Estado e seus cidadãos, com implicações não apenas para os mercados energéticos mundiais, mas também para o modo como as empresas, inclusive as brasileiras, operam na região.
O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman é agora o mais poderoso tomador de decisões no país. Isso é fácil de entender. Mais difícil é compreender quais são as razões que movem suas ações. Apoiado pelo rei Salman, seu pai, o jovem príncipe está comprometido com reformas econômicas e sociais que visam a tornar seu reino mais viável. Essas reformas são impulsionadas pelo reconhecimento de que o declínio estrutural no preço do petróleo e a importância dos hidrocarbonetos em longo prazo tornaram a dependência da Arábia Saudita de suas receitas de petróleo cada vez mais tóxica. O governo saudita já vem liquidando seus ativos soberanos e pedindo empréstimos nos mercados local e internacionais para superar seu déficit fiscal. No entanto, Mohamed bin Salman sabe que essa solução é apenas de curto prazo.
Por isso, adotou dois programas, batizados de Visão 2030 e de Plano de Transformação Nacional 2020, com projetos para acabar com a dependência saudita em relação ao petróleo e abraçar a diversificação. A jornada será longa, pois envolverá o fim do estado de bem-estar social. Mais importante, a liderança também está adotando reformas sociais para convencer a jovem população de que a modernização terminará por trazer benefícios concretos ao modo de vida saudita.
A decisão da liderança saudita de decretar as ordens de prisão de vários empresários e membros influentes da família Al Saud faz parte dessa iniciativa. A campanha anticorrupção lançada pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman  tem um componente político essencial. O chefe da Guarda Nacional, rival do príncipe herdeiro, foi destituído. Isso deixará todas os serviços de segurança (Forças Armadas, Ministério do Interior e Guarda Nacional) sob o controle do príncipe herdeiro. Opositores de sua ascensão e de seu esforço para se tornar o rei da Arábia Saudita terão em breve poder limitado para sabotar seus planos. O governo reforçará os mecanismos de repressão para controlar a população e sufocar a dissidência.
O expurgo feito pela campanha anticorrupção tem o objetivo, portanto, de centralizar todas as decisões no país. Essa é uma mudança significativa na maneira como a Arábia Saudita vem sendo governada por gerações. Não será mais um Estado governado por um consenso familiar – o modo tradicional de a realeza coordenar todas as principais decisões chegará ao fim. Em muitos aspectos, Mohammed bin Salman copiou o manual russo e chinês. O presidente da China, Xi Jinping,  está usando uma campanha anticorrupção para centralizar o poder e reformar o país. Ao longo da última década, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, também aumentou sua força eliminando rivais e centralizando o poder em seu gabinete.

Cenário e Aposta - Arábia Saudita (Foto: Época)
Há nitidamente alguns riscos em curto prazo para os mercados globais de energia decorrentes desse processso. Essa centralização de poder é inerentemente desestabilizadora, pois altera as bases do Estado formado pelo rei Abdulaziz al Saud. Membros da família Al Saud que se opõem a Mohammed bin Salman estão provavelmente pensando que, se pretendem se organizar, devem fazê-lo rapidamente, antes de serem presos ou de o príncipe herdeiro assumir o controle total. Tensões familiares já surgiram, com membros da casa real tentando convencer o rei a moderar os impulsos de seu filho. Uma aliança entre clérigos conservadores  e membros da família dirigente para semear agitação e prejudicar o príncipe herdeiro não pode ser descartada. Além disso, uma política externa linha-dura também está aumentando os riscos de um conflito direto entre o Irã e a Arábia Saudita, que poderia criar caos no Oriente Médio. Ou aumentar o preço do petróleo internacionalmente.
Apesar dos riscos envolvidos, o príncipe herdeiro está perseverando em seus planos. Mais importante, ele provavelmente será bem-sucedido. Ele é um jovem líder ambicioso e interessado em recriar o sistema político saudita. Ele enxerga legitimamente a antiga estrutura de divisão de poder como paralisante. Por décadas, o reino saudita fracassou em introduzir reformas, principalmente porque qualquer mudança exige um acordo entre os diferentes centros de poder. A Arábia Saudita não conseguiu adotar nenhuma reforma significativa para melhorar sua economia e a legitimidade do sistema político.
O aspecto mais popular da campanha anticorrupção é o esforço para acabar com a imunidade de membros da família real e das elites empresariais ligadas a ela. O ressentimento popular com a corrupção da família Al Saud  ao longo dos anos é imenso. A maioria dos cidadãos sauditas desencantou-se com seu governo e com os privilégios concedidos aos membros da família real. Pela primeira vez na história da Arábia Saudita, o Estado está responsabilizando integrantes da realeza. O impulso anticorrupção deverá certamente reforçar a popularidade do príncipe herdeiro.
A longo prazo, tal esforço será uma boa notícia para os investidores estrangeiros, inclusive para as empresas brasileiras. As regras de como operar na Arábia Saudita, e as decisões sobre com quem se associar – ou mesmo se associar a uma companhia local –, vão mudar de maneira significativa. A família Al Saud usava integrantes da comunidade empresarial para obter contratos e monopolizar o controle da economia saudita. Investidores estrangeiros na Arábia Saudita precisavam de um parceiro local, mas em muitos casos essas parcerias representavam simples extorsões. Com a campanha anticorrupção a longo prazo, a Arábia Saudita poderá estabelecer uma estrutura reguladora que dará mais transparência aos negócios e será mais propícia aos interesses dos investidores estrangeiros Uma onda de prisões vai representar um desafio para muitos negócios no reino – encontrar um parceiro saudita adequado ficará difícil. O risco de reputação envolvido em tais parcerias aumentou bastante. No entanto, a longo prazo, a Arábia Saudita poderá estabelecer uma estrutura reguladora que dará mais transparência aos negócios e será mais propícia aos interesses dos investidores estrangeiros.
É preciso fazer nesse ponto algumas ressalvas. Em primeiro lugar, as reformas que Mohammed bin Salman está tentando fazer levarão anos para ser implementadas. Até lá, a tarefa de escolher um parceiro para fazer investimentos na Arábia Saudita ficará inerentemente mais difícil. A onda de prisões vai representar, portanto, um desafio para muitos negócios no reino. Em segundo lugar, a transição para uma estrutura de tomada de decisão política altamente centralizada também implica mais riscos. O antigo sistema político orientado para o consenso era mais corrupto e esclerótico. Impedia reformas modernizadoras. Mas era previsível e estável. Com as decisões centralizadas em um grupo bem menor, as regras do jogo podem mudar mais rapidamente e se tornar um pouco imprevisíveis.
Para o Brasil, isso apenas reforça um cenário geopolítico global mais arriscado exatamente quando a economia começa a dar sinais de uma virada. Há uma retomada do crescimento econômico não apenas no Brasil, mas também na Europa, nos Estados Unidos e em muitos mercados emergentes. O problema é que isso está acontecendo em um contexto de realinhamento geopolítico global significativo – depois da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. As mudanças na Arábia Saudita são um reflexo desse realinhamento geopolítico, que aumenta os riscos operacionais das empresas que operam no Oriente Médio assim como os riscos da economia mundial.

sábado, 2 de dezembro de 2017

A Superlua é neste domingo, 3 de dezembro

2018 deve começar a todo vapor, serão duas "edições" do fenômeno somente em janeiro
 
O mundo poderá acompanhar neste domingo, 3 de dezembro, a primeira e última Superlua de 2017.
O fenômeno ocorre quando a Lua atinge seu ponto de maior proximidade em relação à Terra, o perigeu, algo que já aconteceu quatro vezes neste ano, mas na fase nova, ou seja, quando não é possível enxergar o satélite natural.
No entanto, o domingo será de Lua cheia, e o astro deve aparecer cerca de 7% maior do que o normal no céu noturno. Pouco antes da meia-noite de 4 de dezembro, o satélite chegará a aproximadamente 357 mil quilômetros da Terra.
"Superlua não é um termo científico, mas é eficaz para descrever o fenômeno, que diz respeito tanto à Lua cheia quanto à nova", diz o astrofísico italiano Gianluca Masi.
Se 2017 foi escasso em termos de Superluas, 2018 deve começar a todo vapor, já que serão duas "edições" do fenômeno somente em janeiro, nos dias 2 e 31. Esta última ainda terá um acréscimo: um eclipse lunar total, mas que só será visível na Austrália.

Cientistas descobrem 2 buracos negros supermassivos condenados a colidir

Resultado de imagem para imagens dois buracos negros que vão colidir
 
Os astrónomos que observam a principal galáxia espiral mais próxima da Via Láctea tiraram uma incrível foto do espaço mostrando dois buracos negros supermassivos localizados praticamente lado a lado, informa o jornal Journal Astrophysical.
Ao estudar os dados sobre as estrelas, obtidos pelo Observatório de raios-X da Chandra da NASA e pela Fábrica Transitória Intermediária Palomar de Califórnia, pesquisadores da Universidade de Washington revelaram uma anomalia óptica. Na sequência, dois objetos que anteriormente eram considerados duas estrelas que orbitam a galáxia Andrómeda, também conhecida como M31, foram reclassificados como buracos negros.
Denominados como J0045 + 41, esses buracos negros provavelmente estão mais próximos um do outro do que fora documentado quanto a este tipo de fenômeno cósmico. Segundo os cientistas, estes objetos estão distanciados da Terra 2,6 milhões de anos.
"Esta é a primeira vez que são encontradas evidências tão sólidas de dois buracos negros gigantes que orbitam uma galáxia", assinalou Emily Levesque, da Universidade de Wajshington.
Os astrônomos estavam observando estrelas quando encontraram por acaso os dois buracos negros. "Estávamos procurando um tipo especial de estrela na M31 e pensávamos ter encontrado uma delas. Ficamos surpreendidos e emocionados ao encontrar algo muito mais estranho", afirmou Trevor Dorn Wallenstein que liderou o estudo.
A equipe de cientistas estima que os dois buracos negros supermassivos possam "colidir" ou "unir-se". Contudo, este processo pode demorar entre 350 e 360 mil anos.
 

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Como a invenção da geladeira mudou a história

Em dias amenos de verão - digamos, a 25 graus Celsius -, peixe e carne duram apenas algumas horas fora da geladeira. Frutas apodrecem em poucos dias e cenouras, com sorte, talvez sobrevivam por três semanas.
 
Refrigerador em supermercado dos anos 1950
Os primeiros refrigeradores para uso doméstico foram criados na década de 1910. Como a humanidade conseguiu chegar até o século 20 sem geladeiras em casa?
A geladeira pode ser incluída entre os 50 objetos mais importantes da economia moderna. Eis por quê:

Bananas

A geladeira influenciou nosso cotidiano, a forma como trabalhamos, a nossa saúde e, claro, a forma como nos alimentamos. Para termos uma medida do poder transformador dessa tecnologia, voltemos à década de 1870.
Um marinheiro americano chamado Lorenzo Dow Baker - que mais tarde cofundaria a poderosa empresa de alimentos United Fruit Company - retornava de uma viagem de barco à América do Sul quando a embarcação apresentou problemas.
Baker fez uma parada de emergência na Jamaica. Com dinheiro no bolso, decidiu comprar bananas para revendê-las na Nova Inglaterra, nordeste dos Estados Unidos, onde vivia. Ele sabia que o investimento era arriscado: se demorasse para chegar em casa, as bananas apodreceriam.
 
Plantação de banana na Guatemala nos anos 1950
 
No final, a aposta deu certo. Baker vendeu as frutas, fez um bom lucro e voltou ao Caribe para buscar mais. As bananas haviam se tornaram um alimento muito desejado em cidades como Boston e Nova York.
No entanto, esse era um negócio arriscado. A vida útil das frutas era quase equivalente à duração da viagem. Quando chegavam à costa americana, já estavam maduras demais para sobreviver a jornadas adicionais no interior do país. Se fosse possível mantê-las sob temperaturas mais baixas durante o transporte, amadureceriam mais devagar - e alcançariam um mercado maior.
A solução? Navios refrigerados.

Comércio de carnes

Dois anos antes de Baker descobrir o ouro das bananas, o governo argentino ofereceu um prêmio a quem inventasse uma forma de refrigerar a carne para que o alimento pudesse ser exportado.
Desde meados do século 18, cientistas sabiam como produzir baixas temperaturas artificialmente. No entanto, ainda não sabiam como aplicar esse conhecimento comercialmente.
Em 1876, o engenheiro francês Charles Tellier instalou um sistema de refrigeração em um navio - Le Frigorifique -, encheu a embarcação com carne e velejou até Buenos Aires. Depois de 105 dias no mar, a carne chegou em boas condições.
O jornal argentino La liberté celebrou: "Mil vivas para as revoluções da ciência e do capital!".
Assim, tiveram início as exportações de carne da Argentina. Em 1902, havia 460 navios refrigerados navegando pelos mares do planeta.

'Cadeia gelada'

Nesse meio tempo, em Cincinnati, nos Estados Unidos, um jovem órfão e negro começava sua vida.
Ele abandonara a escola aos 12 anos, arranjara um emprego de varredor em uma oficina de carros e, aos poucos, aprendera o ofício de mecânico.
Frederick McKinley Jones não sabia, mas um dia se tornaria um prolífico inventor.
Em 1938, trabalhava como engenheiro de som quando um amigo de seu chefe, proprietário de uma frota de caminhões, reclamou das dificuldades de se transportar produtos perecíveis por terra.
Os refrigeradores usados em navios não suportavam a vibração do transporte por terra. Como resultado, caminhões tinham de ser abastecidos com gelo, e empresas tinham de torcer para que o gelo não derretesse antes de o veículo chegar a seu destino.
Será que Jones, inteligente, autodidata, poderia conseguir a solução para esse problema? Sim, foi a resposta. E o resultado foi a fundação de uma nova empresa, a Thermo King. A partir desse momento, criou-se a cadeia global de suprimento que mantém alimentos e outros produtos perecíveis sob temperaturas controladas.

Revolução na medicina

Essa "cadeia gelada" revolucionou a saúde. Durante a Segunda Guerra Mundial, as unidades portáteis de refrigeração inventadas por Jones conservavam sangue e remédios para soldados feridos.

Navio com bananas da United Fruit Company

Hoje, essa tecnologia impede que vacinas se deteriorem - pelo menos até chegarem a regiões remotas e pobres, onde não há rede elétrica. Mas vem vindo aí novas invenções para resolver também esse problema.

Revolução no cotidiano

Os refrigeradores ampliaram as opções alimentares da população e, portanto, melhoraram sua nutrição. Eles também permitiram o surgimento dos supermercados.
Com geladeiras em casa, não é mais necessário comprar alimentos - e cozinhá-los - todos os dias. Isso liberou as mulheres, que agora podiam, por exemplo, trabalhar fora. O que, por sua vez, transformou o mercado de trabalho.
À medida que países de baixa renda ficam mais ricos, geladeiras estão entre os primeiros produtos que as pessoas compram.
Na China, levou apenas uma década para que a proporção de lares com geladeiras crescesse de 25% do total de domicílios para quase 90%.

Lógica econômica

A "cadeia gelada" permitiu, por fim, que a lógica da especialização e do comércio fosse aplicada também aos alimentos perecíveis.
Sim, você pode cultivar vagem na França - mas talvez seja melhor importá-la de Uganda. Condições diferentes de cultivo significam que práticas como essa podem fazer mais sentido do ponto de vista ambiental e econômico.

Frederick McKinley Jones

Por exemplo, um estudo concluiu que, no que diz respeito ao meio ambiente, é melhor cultivar tomates na Espanha e transportá-los para a Suécia do que cultivá-los na Suécia.
Outro concluiu que criar carneiros na Nova Zelândia e depois exportá-los para a Inglaterra gera menos carbono do que criar carneiros na Inglaterra.
A validade desses estudos pode ser questionada. Ainda assim, nenhuma dessas ideias estaria em discussão se a tecnologia da refrigeração não tivesse sido inventada.

*Tim Harford, economista e jornalista britânico, é colunista do jornal Financial Times. A reportagem acima é parte da série 50 Things That Made the Modern Economy, transmitida pelo Serviço Mundial da BBC

Expectativa de vida do brasileiro sobe para 75,8 anos, diz IBGE

idosos coluna sergio vale
 
A expectativa de vida do brasileiro ao nascer aumentou cerca de três meses em relação ao ano anterior, segundo dados divulgados nesta sexta-feira (1) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
De acordo com a Tábula de Mortalidade, que o IBGE divulga anualmente, a esperança de vida passou de 75,5 anos em 2015 para 75,8 anos em 2016.
Entre os estados brasileiros, a maior expectativa de vida foi observada em Santa Catarina, 79,1 anos, seguido por Espírito Santo, Distrito Federal e São Paulo, todos com valores acima de 78 anos de idade. 
Já a menor esperança de vida foi encontrada no Maranhão, 70,6 anos. Piauí, Rondônia, Roraima, Alagoas e Amazonas também apresentaram expectativas de vida abaixo de 72 anos. 
Ainda segundo o levantamento, a expectativa de vida do brasileiro vem aumentando ao longo do tempo. Em 1940, por exemplo, essa taxa era de 45,5 anos, sendo 42,9 para homens e 48,3 anos para mulheres – um aumento de 30,3 anos em relação a 2016. 
 
Infographic
 

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Como foi o teste do míssil com o qual a Coréia do Norte diz poder atingir todo o território dos EUA

A Coreia do Norte declarou que testou com sucesso um novo tipo de míssil balístico capaz de atingir todo o território continental dos Estados Unidos.
 
Teste de míssil norte-coreano em julho de 2017
A TV estatal sustentou que, com isso, Pyongyang concretizou sua missão de se tornar um Estado nuclear - afirmação da qual especialistas discordam.
O míssil Hwasong-15, apontado como o mais poderoso do país, foi lançado secretamente em um teste na madrugada desta quarta-feira, no horário local.
Ele caiu em águas japonesas, mas voou mais alto do que qualquer outro míssil já testado pelo regime.
As informações foram apresentadas na TV estatal em uma transmissão especial ao realizada ao meio-dia, assim como em um relatório divulgado pela agência de notícias do país, a KCNA.

Apresentadora da TV estatal norte-coreana

O que exatamente a Coreia do Norte está dizendo?

Pyongyang afirma que o míssil alcançou 4.475 quilômetros de altitude e voou 950 quilômetros em 53 minutos - números próximos das estimativas independentes feitas pelo Exército da Coreia do Sul.
O projétil, disparado a partir de uma área com declive, não sobrevoou o Japão, como ocorreu com outros testes realizados no últimos meses, e caiu a cerca de 250 quilômetros da costa norte, de acordo com autoridades japonesas.
A Coreia do Norte já havia afirmado que seus projéteis poderiam atingir os Estados Unidos, mas essa é a primeira vez que o país diz poder fazer isso com esse novo tipo de míssil, que parece uma versão melhorada dos anteriores.
A KCNA acrescentou que o líder norte-coreano, Kim Jong-un, que aprovou pessoalmente o lançamento, declarou com orgulho que a Coreia do Norte finalmente alcançou seu grande objetivo histórico de concluir a força nuclear estatal, o objetivo de contruir mísseis potentes."
O relatório disse que "enquanto uma força nuclear responsável e um Estado pacífico, a Coreia do Norte faria todos os esforços possíveis para servir ao nobre propósito de defender a paz e a estabilidade do mundo".
O documento apontou que as armas do país, descritas como uma defesa contra "a política de chantagem nuclear dos imperialistas dos EUA", "não representariam ameaça para nenhum país" enquanto os interesses norte-coreanos não fossem violados,
 
O líder norte-coreano, Kim Jong-un
 

O míssil poderia realmente atingir os Estados Unidos?

Uma análise feita pela Union of Concerned Scientist, ONG sediada nos EUA, considera que o míssil poderia ter viajado mais de 13 mil quilômetros se seguisse uma trajetória normal, chegando assim a "qualquer parte dos EUA continentais".
Mas acrescentou ser provável que tenha carregado uma imitação de ogiva muito leve - o que significa que poderia não ter força o suficiente para transportar uma carga nuclear, muito mais pesada, a essa mesma distância.
A Coreia do Norte, por sua vez, sustenta que o Hwasong-15 poderia chegar ao continente dos EUA carregando uma "ogiva muito grande e pesada".
Especialistas acreditam que o país ainda esteja de dois a três anos distante de seu objetivo de ser capaz de transportar uma ogiva nuclear com sucesso usando um míssil balístico intercontinental.
Isso envolve algumas das mais delicadas e desafiadoras tecnologias - um do riscos ao introduzir uma arma nuclear em um míssil balístico intercontinental é o de a ogiva se desintegrar em sua reentrada na atmosfera.
Ninguém acredita realmente que a Coreia do Norte já superou esse desafio, afirma Paul Adams, correspondente da BBC em Seul.

Qual é a reação no mundo?

E quanto à declaração de Pyongyang de que os mísseis não representariam ameaça para nenhum país enquanto os interesses norte-coreanos não fossem violados?
Ela pode até soar como uma espécie de "sinal de paz", mas é provável que seja recebida com ceticismo pela comunidade internacional, avalia o repórter da BBC. Esses "interesses", afinal, incluem o desenvolvimento das armas mais destrutivas conhecidas pela humanidade.
A maioria dos especialistas não espera ver esmorecer a busca de Kim Jong-un por uma capacidade nuclear completa.
E isso quase certamente significa mais sanções e pressão por parte de outros países, liderados pelos Estados Unidos, que estão determinados a detê-lo.

O presidente dos EUA, Donald Trump

O teste desta quarta provocou uma rápida condenação internacional. O Conselho de Segurança da ONU deve convocar uma sessão de emergência para discutir o assunto.
O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, disse que o lançamento violou sanções e mostrou "desprezo total pela visão de uma comunidade internacional unida".
Antes da declaração da Coreia do Norte ser divulgada, o secretário de Defesa dos EUA, James Mattis, disse que esse míssil "foi mais alto do que os anteriores" e ressaltou que a Coreia do Norte representa uma ameaça mundial.
O presidente Donald Trump foi informado enquanto o míssil ainda estava no ar, segundo a Casa Branca. Depois, ele disse: "Vamos cuidar disso".
Japão e Coreia do Sul condenaram o teste - esta deu início a um teste de mísseis em resposta.
O lançamento norte-coreano é apenas o último de uma série de testes que aumentaram as tensões para níveis sem precedentes, já que o país ignora as críticas e continua a desenvolver seus programas nucleares e de mísseis.
O último lançamento de míssil balístico de Pyongyang havia ocorrido em setembro, no mesmo mês em que realizou seu sexto teste nuclear.

A história por trás do padrão xadrez tão usados em roupas e acessórios na Escócia

No Museu Nacional da Escócia, localizado no centro de Edimburgo, um item resume o relacionamento do país com o tartã, o padrão quadriculado há séculos associado com o país. Um casaco com punhos e colarinhos feitos de veludo vermelho não apenas tem estilo como parece confortável para ser usado nos dias de hoje.
Modelo desfila com casaco tartã
 
Mas trata-se de uma peça com 272 anos de idade.
É o casaco usado por Carlos Eduardo Stuart durante sua tentativa frustrada de reconquistar a coroa britânica para os Stuart, a família real católica britânica destronada no século 17. Os Stuart eram escoceses e - assim como inúmeros escoceses de ontem e hoje, Carlos Eduardo usava o padrão como forma de afirmar sua identidade nacional.
O casaco é apenas um de muitos tesouros que fazem parte de uma exposição sobre o Levante Jacobita, liderado por Carlos em 1745. A exibição lança nova luz sobre a política do conflito, mas não deixa de lado a interessante estética da revolta - em especial a transição do tartã como costume regional para "marca" internacional.
Carlos Eduardo Stuart era neto de James II, o último rei católico da Inglaterra, derrubado em 1688 pelo nobre protestante William III. James fugiu para a França, mas até morrer nunca abriu mão de seu direito ao trono. E, em 1745, Carlos, então o "herdeiro" após a morte do pai (também chamado James) foi para a Escócia tentar formar um exército para lutar com os ingleses e remover do trono George II, o que restauraria a dinastia Stuart.
 
Casaco tartã
 
Apesar de ser descendente de escoceses, Carlos nasceu e cresceu em Roma - e jamais tinha visitado a terra dos antepassados. Mas o casaco com o padrão tartã era um sinal de simpatia perante os "compatriotas". Esse lance de relações-públicas funcionou e retratos do príncipe rebelde foram reproduzidos em toda sorte de objetos, de talheres a caixinhas de rapé - ganhou ainda o apelido de Bonnie Prince Charlie, algo como Carlos, o Bonitão.
De quebra, o garoto-propaganda do movimento Jacobita, como ficou conhecida a campanha pró-Stuart, arrebanhou adeptos suficientes para obter interessantes vitórias militares e marchar de forma triunfal até a cidade de Derby, percorrendo quase metade do território do Reino Unido antes de ser derrotado na Batalha de Culloden.
O príncipe fugiu da Escócia em 1746 e o Reino Unido ainda tem no trono a dinastia protestante que ele falhou em derrubar. Mas, apesar de derrotado nos campos de batalha, o tartã resistiu não apenas na Escócia e ganhou o mundo.
Mas como esse padrão virou uma marca global?
"Estamos falando de um tecido que sempre foi uma marca de distinção", diz Viccy Coltman, professora de História da Arte da Universidade de Edimburgo. "Isso faz parte de sua história".
Depois da Batalha de Culloden, o tecido foi banido da Escócia por ordem real. Mas isso deu ao tartã um certo status cult e, quando a proibição foi suspensa, em 1782, o padrão virou moda. Não era um sinal de apoio ao movimento jacobita, mas sim uma forma de ostentação da aristocracia e de uma emergente classe média.
"O movimento criou uma indústria de vestimentas consideradas relíquias", explica Coltman.
E os maiores compradores eram justamente os escoceses que ajudaram a derrotar Carlos Stuart. Essa apropriação teve seu auge em 1822, quando o rei George 4 visitou Edimburgo e Walter Scott, escritor de romances históricos sobre uma Escócia idealizada e um dos organizadores da visita real, arranjou um comitê de recepção nas ruas da cidade em que o traje era o tartã. Há até um retrato do soberano usando um kilt.

Pintura de Bonnie Prince

O padrão não era mais ameaçador - e sua suposta reabilitação estava completa.
A rainha Vitória continuou essa apropriação, usando xadrez em fotos oficiais em suas visitas a Balmoral, a residência de verão da família real na Escócia. Antes inimiga, a Escócia, virara destino de férias. O país se tornara uma marca e o tartã era parte integral de sua identidade - o padrão passou a fazer parte de todos os produtos para turistas.
Até o final do século 19 havia apenas algumas variedades do xadrez. Mas a mecanização da produção têxtil possibilitou a produção de imensas variações. Um consumidor com um sobrenome escocês podia escolher um tartã particular, quiçá associado a uma região específica, que depois era vendido para alguém com o mesmo sobrenome.
"Era tudo uma questão de tino comercial", explica David Forsyth, curador da exposição no Museu Nacional da Escócia.
E esse marketing misturado à mitologia criou uma vestimenta nacional.

Kate Middleton com casaco tartã

No final do século, o tartã era muito diferente da vestimenta original do século 18. Feito à máquina em vez de à mão, o material moderno era mais barato e adaptado para todo tipo de usos. Acima de tudo, transformou-se em símbolo de lealdade à supremacia protestante, em vez de um tecido associado à causa católica.
O Império Britânico fez do xadrez um símbolo internacional. Regimentos militares escoceses vestiam o padrão e mercadores britânicos exportaram produtos com a estampa ao redor do mundo. O tartã era exótico, mas ao mesmo tempo familiar. Perigoso, mas respeitável. Você poderia vesti-lo como um outsider, ou um membro do status quo.
Findo o império, o tartã continua em voga. Designers de moda britânicos seguiram usando o padrão como inspiração, que também chegou à moda francesa. No mundo da música, tanto punks como novos românticos usaram tartã. O padrão se tornou tanto uma marca de rebeldia quanto de sofisticação.
"A história é escrita pelos vencedores", diz Forsyth. Mas embora tenha perdido a Batalha de Culloden, Carlos Eduardo Stuart ganhou a guerra da moda.
BBC Brasil

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Como entender (e diminuir ) o impacto dos seus hábitos no meio ambiente, de roupas a comida

Escritora e designer industrial holandesa levantou dados surpreendentes sobre o rastro deixado por produtos consumidos no dia a dia.
 
Ainda é considerado impossível calcular com precisão o impacto total do consumo humano no ecossistema | Crédito: Thinkstock
 
Com que frequência você lava suas calças jeans? Quando viaja de avião, são viagens longas? Prefere comprar tomates embalados, avulsos ou em conserva? Quantas vezes por semana você come carne?
As perguntas soam, a princípio, muito específicas. Mas são essenciais para entender o rastro que seus hábitos de consumo e escolhas individuais deixam no planeta.
Foi em uma conversa com o marido, no sofá de casa, que a designer industrial e escritora holandesa Babette Porcelijn percebeu que, apesar de ser especialista na cadeia produtiva de produtos industrializados, não entendia exatamente qual era o impacto do seu estilo de vida no planeta.
"Ele me contou que os 16 maiores navios porta-contêineres do mundo juntos emitem a mesma quantidade de enxofre que todos os carros que circulam no mundo! E que perdemos cerca de 27 milhões de árvores por dia por causa do desmatamento", disse à BBC Brasil.
"Isso mudou minha maneira de ver nosso impacto ambiental, porque eu achava que estávamos fazendo um ótimo trabalho, pelo menos aqui na Holanda".
Ao pesquisar sobre o tema, Porcelijn percebeu que pelo menos em países ricos como Holanda e Estados Unidos mais de um quarto da "pegada ecológica" de cada ser humano é perceptível no dia a dia. O resto está embutido no ciclo de vida de produtos e serviços - da extração de matérias-primas, passando pelo transporte, até o descarte.
Conseguimos refletir, por exemplo, sobre a energia elétrica gasta para carregar nossos celulares, laptops e outros aparelhos eletrônicos. Mas falamos pouco sobre as consequências da mineração dos metais necessários para produzi-los ou a quantidade de água utilizada nesse processo.
 
Gráfico
 
O resultado do estudo foi compilado no livro Hidden Impact ("Impacto oculto", em tradução livre), no qual a autora também dá dicas de como reduzir, de forma prática, o impacto provocado pelas escolhas cotidianas. E sem que seja preciso, necessariamente, mudar radicalmente de hábitos da noite para o dia.
Desde então, a holandesa se dedica em tempo integral a projetos de consultoria e análises de impacto ambiental. Ela esteve em São Paulo para participar do evento What Design Can Do ("O que o design pode fazer", em tradução livre).
Como calcular?
O que Porcelijn considera como impacto é composto de elementos como uso da água e da terra, desmatamento, mineração e processamento de matérias-primas, esgotamento de recursos naturais, perda de biodiversidade, emissões de gases de efeito estufa, lixo e uso de combustíveis fósseis.
"O que eu quero fazer é monitorar todo o sistema e incluir todo tipo de impacto. Não só no clima, mas também na natureza, na biodiversidade, todo tipo de poluição", explica.
"Eu não conseguia encontrar esses dados em lugar nenhum, o que achei muito esquisito. É esse o tipo de coisa que queremos e precisamos saber. Eu tive que ir muito fundo na pesquisa e contratei empresas especializadas para me ajudar."
Para calcular o impacto da carne, por exemplo, é preciso levar em conta a produção de alimento para o gado e o desmatamento causado para criar o pasto.
Para saber o real impacto de um carro, é necessário incluir a poluição causada pela mineração dos metais utilizados.
Com que frequência você lava suas calças jeans? Quando viaja de avião, são viagens longas? Prefere comprar tomates embalados, avulsos ou em conserva? Quantas vezes por semana você come carne?
Foi em uma conversa com o marido, no sofá de casa, que a designer industrial e escritora holandesa Babette Porcelijn percebeu que, apesar de ser especialista na cadeia produtiva de produtos industrializados, não entendia exatamente qual era o impacto do seu estilo de vida no planeta.
"Ele me contou que os 16 maiores navios porta-contêineres do mundo juntos emitem a mesma quantidade de enxofre que todos os carros que circulam no mundo! E que perdemos cerca de 27 milhões de árvores por dia por causa do desmatamento", disse à BBC Brasil.
"Isso mudou minha maneira de ver nosso impacto ambiental, porque eu achava que estávamos fazendo um ótimo trabalho, pelo menos aqui na Holanda".
Ao pesquisar sobre o tema, Porcelijn percebeu que pelo menos em países ricos como Holanda e Estados Unidos mais de um quarto da "pegada ecológica" de cada ser humano é perceptível no dia a dia. O resto está embutido no ciclo de vida de produtos e serviços - da extração de matérias-primas, passando pelo transporte, até o descarte.
 Conseguimos refletir, por exemplo, sobre a energia elétrica gasta para carregar nossos celulares, laptops e outros aparelhos eletrônicos. Mas falamos pouco sobre as consequências da mineração dos metais necessários para produzi-los ou a quantidade de água utilizada nesse processo.
Mas a principal revelação da pesquisa, conta Porcelijn, é que "o maior impacto ambiental não é causado exatamente pelos carros que dirigimos ou pelo ar-condicionado das casas e, sim, por produtos que consumimos - livros, eletrônicos, roupas, alimentos". Pelo menos na Holanda e nos Estados Unidos.
O resultado do estudo foi compilado no livro Hidden Impact ("Impacto oculto", em tradução livre), no qual a autora também dá dicas de como reduzir, de forma prática, o impacto provocado pelas escolhas cotidianas. E sem que seja preciso, necessariamente, mudar radicalmente de hábitos da noite para o dia.
Desde então, a holandesa se dedica em tempo integral a projetos de consultoria e análises de impacto ambiental. Ela esteve em São Paulo para participar do evento What Design Can Do ("O que o design pode fazer", em tradução livre).
Como calcular?
O que Porcelijn considera como impacto é composto de elementos como uso da água e da terra, desmatamento, mineração e processamento de matérias-primas, esgotamento de recursos naturais, perda de biodiversidade, emissões de gases de efeito estufa, lixo e uso de combustíveis fósseis.
"O que eu quero fazer é monitorar todo o sistema e incluir todo tipo de impacto. Não só no clima, mas também na natureza, na biodiversidade, todo tipo de poluição", explica.
"Eu não conseguia encontrar esses dados em lugar nenhum, o que achei muito esquisito. É esse o tipo de coisa que queremos e precisamos saber. Eu tive que ir muito fundo na pesquisa e contratei empresas especializadas para me ajudar."
Para calcular o impacto da carne, por exemplo, é preciso levar em conta a produção de alimento para o gado e o desmatamento causado para criar o pasto.
Para saber o real impacto de um carro, é necessário incluir a poluição causada pela mineração dos
metais utilizados.
No caso de uma calça jeans, deve-se considerar a água utilizada na produção de algodão e também na lavagem do tecido.
 
Grafico
 
A tarefa parece impossível e, de fato, a escritora holandesa reconhece que ainda há muito a ser calculado.
"Quando eu procurei especialistas, eles me disseram que nenhum método científico atual inclui todos os tipos de impacto. Mas como podemos superar o maior desafio dos nossos tempos se não conseguimos investigá-lo de verdade?", questiona.
"Resolvi seguir em frente assim mesmo."
Por isso, ela explica, os cálculos utilizados em seu método são aproximados.
Para efeito de comparação, a designer fez os mesmos cálculos para a Holanda e para os Estados Unidos, quando conseguiu obter as informações.
"É meio chocante, porque lá tudo é o dobro", diz.
Ela conta que está, no momento, procurando empresas que a ajudem a fazer as mesmas estimativas para o Brasil.
A pedido da BBC Brasil, ela adaptou alguns gráficos produzidos durante a sua pesquisa e converteu os dados para as unidades de medida brasileiras.
 
Consequências 'surpresa'
Ao escolher estudos de caso para exemplificar o impacto oculto do nosso consumo, Porcelijn diz ter se surpreendido com dados que desafiavam o senso comum a respeito do tema.
No exemplo da calça jeans, ela descobriu que o maior prejuízo ao meio ambiente está escondido no cultivo de algodão. Mas o uso de máquinas de lavar e de secar, que costuma não ser considerado, emite cerca de 12,5 kg de CO2 por lavagem, além do gasto de ao menos 50 litros de água.
No caso dos alimentos, a pesquisa revelou que frutas e legumes em conserva ou transformados em molhos, como o tomate, podem ter menos impacto ambiental do que os frescos.
A autora explica: normalmente, o impacto da produção de vegetais no ecossistema é pequeno, incluindo eventuais embalagens plásticas. O problema se encontra, no entanto, no desperdício que acontece do momento da colheita até a chegada ao prato do consumidor.
"Perder um tomate tem um impacto muito mais negativo do que comprar tomates embalados. A embalagem na verdade, se não for excessiva, pode ser boa, se considerarmos que ela impede a perda", diz.
Mais de um terço da comida produzida nunca chega ao seu prato. No caso das frutas, legumes e verduras, a perda chega a 50% das colheitas. Por isso, as conservas - que são feitas com vegetais frescos logo após serem colhidos e têm perda menor - acabam sendo mais vantajosas para o meio ambiente.
Parte desse não aproveitamento acontece em casa, com a comida que estraga na geladeira ou é deixada no prato. Porcelijn calculou também esse impacto: se não desperdiçássemos nenhum alimento, nossa pegada ecológica diminuiria cerca de 15% para comida em geral e até 17% considerando só os vegetais.
Uma das dicas da designer industrial é fazer um calendário .
com as frutas, legumes e verduras de cada estação e procurar comprá-los de produtores locais -
localizados a até 2 mil quilômetros de distância, para diminuir o impacto do transporte. Se quiser algum que esteja fora de época, cujo impacto para produzir é maior, prefira a conserva.
Outra boa ideia, segundo Porcelijn, é comprar produtos que estejam perto do vencimento e consumi-los rapidamente, para evitar que o supermercado jogue no lixo. E vale a pena ficar de olho em embalagens excessivas.
 
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Os meios de transporte também foram computados no cálculo de Porcelijn, com mais uma revelação surpreendente: caso a intenção seja diminuir realmente o seu impacto negativo no mundo, vale reduzir as viagens longas de avião.
Apesar de, no total, carros poluírem mais por quilômetro rodado que aviões, os especialistas consultados pela designer ressaltam que a possibilidade de viajar de avião aumentou as distâncias que percorremos.
Por isso, eles fizeram uma comparação entre diferentes meios de transporte para uma viagem de 6,5 horas. O resultado: aviões poluem mais, pelo menos em viagens mais longas. Para outro estado pode valer a pena. Mas férias em Dubai? Pense no impacto, sugere Babette Porcelijn.
Caso você realmente não queira abrir mão das férias em outro continente, vale calcular o plantio de árvores necessário para compensar as emissões pela duração do voo, ou apoiar alguma organização que faça esse trabalho.
 
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Por onde começar?
A designer holandesa também se especializou em dar dicas para tentar mitigar a pegada ecológica de cada um, sem que isso tenha que significar adotar uma vida "ecoréxica", segundo ela.
"Para mim, é importante começar pelas coisas grandes, que causam mais impacto. Mudá-las é mais eficiente", afirma.
Desde que se debruçou sobre o tema, Porcelijn inseriu algumas dessas mudanças na rotina de sua família.
"Só compro o que realmente preciso e, se eu puder, de segunda mão, especialmente roupas; parei de comer carne e também não tenho mais carro e não pego aviões, a não ser que isso seja para fazer mais bem do que mal. Estou indo de avião para São Paulo porque acho que alcançar pessoas aí e eventualmente ajudá-las a mudar suas vidas faz mais bem do que mal", afirma.
"Nas férias, viajamos muito de bicicleta. É uma aventura incrível e nossos filhos também adoram. A família ficou mais próxima."
A designer acredita que deixar de comer carne - o alimento mais poluente - pode ser mais prioritário para o meio ambiente do que deixar de ter um carro.
"Na Holanda certamente esse é o caso, e pelo que ouço do Brasil, também", diz.
 
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O primeiro passo, segundo ela, é tornar-se sustentável e reduzir o impacto relativo aos seus hábitos pessoais.
De acordo a ONU, a população da Terra será de cerca de 10 bilhões de pessoas em 2050, caso o ritmo de crescimento se mantenha.
Já a economia global em 2050 será 2,7 vezes maior do que hoje, segundo a consultoria PricewaterhouseCoopers. E, de acordo com a ONG Global Footprint Network, a população atual vive como se tivesse os recursos de 1,6 planeta Terra.
De acordo com o cálculo de Porcelijn, usando as duas estatísticas, chegaríamos a 2050 precisando de 4,3 Terras para sustentar nosso estilo de vida.
"Se vivermos de acordo com os limites do nosso planeta, já seremos sustentáveis", afirma.
No caso do Brasil, cuja população vive como se tivesse 1,8 planeta Terra, viver no limite seria reduzir o impacto médio total para cerca de metade do que ele é atualmente.
Para quem pretende ir mais além, ser "econeutro" envolve fazer compostagem, plantar árvores, investir em energia renovável e apoiar financeiramente organizações ambientais, por exemplo.
O nível três, "ecopositivo", significa trabalhar para que sua influência na mudança de hábitos das pessoas ao seu redor - em casa, no trabalho e em outros grupos - seja maior do que seu impacto no mundo como consumidor.
O impacto negativo está, inevitavelmente, em todos os produtos que consumimos e atividades que praticamos. A holandesa ressalta, no entanto, que a mudança não deve assustar.
"O truque é: mesmo que você ainda faça tudo o que normalmente faz, faça menos. Por exemplo, pode comer a metade de uma porção de carne, e não essas enormes. Ou não comer todo dia, mas só uma vez por semana", diz.
"Depois de começar a adotar essas reduções, pode escolher opções que tenham menos impacto. No caso da carne, por exemplo, a bovina tem o maior impacto. Frango já seria melhor."
Para Porcelijn, também é preciso combater o mito de que "tudo o que é orgânico é melhor" na hora de mudar o estilo de vida.
"A carne orgânica, por exemplo, nem sempre é a melhor escolha. Os dados que recolhi mostram que os animais vivem mais, mas geralmente têm um rendimento menor e necessitam de mais espaço e mais alimento, que é o fator mais poluente", explica.
 
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"Ainda precisamos fazer com que a produção de orgânicos seja algo muito mais eficiente do que é. E também melhorar a agricultura e pecuária intensivas. Acho que os dois processos deveriam ser combinados e teríamos um bom resultado. Até lá, tenha cuidado."
A escolha do material das roupas também é importante.
"Eu achava que roupas sintéticas seriam melhores, porque a produção delas é menos poluente do que as de algodão, lã ou seda. Mas o problema é que, quando você lava, os tecidos sintéticos liberam microplásticos na água", explica.
"Se você sabe que determinado tecido é produzido de maneira menos poluente, ótimo. Mas é melhor comprar menos roupas, do que simplesmente mudar para roupas orgânicas."
Críticos afirmam que a ideia de abrir mão de tantos produtos e atividades ainda é elitista - já que, em sua maioria, produtos orgânicos ou sustentáveis costumam ser mais caros.
A autora diz, no entanto, que são as pessoas com maior renda que devem, de fato, se preocupar mais com seus hábitos.
"Quanto mais dinheiro você tem, mais impacto pode comprar. Então os ricos devem estar mais atentos a isso do que os pobres. E, de modo geral, percebo que minha vida é bem mais barata com o novo estilo que adotei."
"Tento dizer quais mudanças seriam as mais eficientes. Mas não julgo o comportamento das pessoas. Só acho que não temos tempo a perder."

Asteróide de 5 km vai passar "raspando" na Terra antes do Natal

Uma rocha espacial de cerca de 5km de extensão passará "de raspão" na Terra, de acordo com as proporções espaciais.
 
ilustração de asteróide se desfazendo
O asteroide 3200 Phaeton deve ficar a cerca de 10 milhões de quilômetros do nosso planeta em 16 de dezembro. Pode parecer grande, mas é apenas 26 vezes a distância do nosso planeta para a Lua.
A extensão do objeto é o equivalente a quase duas vezes o tamanho da avenida Paulista, no centro de São Paulo. Equivale também à distância do estádio Mané Garrincha ao Congresso Nacional, em Brasília (DF).
Segundo a Nasa (agência espacial dos EUA), não há motivo para pânico, porém: é extremamente improvável que haja qualquer dano ao nosso planeta com a passagem do Phaeton.
Ainda segundo a Nasa, a passagem do Phaeton permitirá observações bastante precisas a partir dos observatórios de Arecibo (em Porto Rico) e Goldstone (na Califórnia). "As imagens serão excelentes para obter um modelo 3D detalhado" do objeto espacial, disse a agência espacial em comunicado.
A inspiração do nome Phaeton vem da mitologia grega. Para os gregos antigos, o deus Hélio (que representava o Sol) não andava a pé: a divindade atravessava o céu do nascente ao poente em uma carruagem, puxada por quatro cavalos. Até que um filho de Hélio, Faeton, pegou o veículo emprestado para "dar um rolê". Ele acaba perdendo o controle dos animais e quase põe fogo na Terra. Para evitar o desastre, Zeus precisa destruir a carruagem com um raio, e acaba matando Fáeton no caminho.

Asteroide ou cometa?

Os cientistas acreditam que o Phaeton seja o responsável pelas chuvas de meteoros das Geminíadas, observadas todos os anos nos dias 13 e 14 de dezembro. É que a órbita do Phaeton é muito similar às dos meteoros das Geminíadas.
Só que chuvas de meteoros geralmente são causadas por cometas - que têm uma "cauda" ou "rabo" formado por estilhaços e gelo, o que não é o caso do Phaeton. A hipótese é de que Phaeton esteja literalmente "quebrando" aos poucos, o que faz com que ele apresente atividade típica dos cometas em algumas ocasiões. Esta é mais uma questão a ser estudada agora em dezembro.

Próxima aproximação: 2050

A aparição de 2017 será a mais próxima da Terra desde a descoberta do asteroide, em 1983, diz a Nasa. É possível, assim, que o objeto fique visível até mesmo para observadores armados apenas de telescópios pequenos. Para isso, porém, é preciso que a pessoa tenha experiência nesse tipo de observação e esteja em um local escuro o suficiente (como na zona rural).
A última passagem próxima do asteroide ocorreu em 2007.
De acordo com os cálculos da Nasa, o Phaeton só voltará a se aproximar tanto da Terra em 2050. E, em 14 de dezembro de 2093, ele passará a apenas 1,9 milhão de quilômetros do nosso planeta (o que não significa que seremos atingidos, segundo a Nasa).
Por causa da sua trajetória, o asteroide é classificado como o terceiro maior Asteroide Possivelmente Danoso (PHA, na sigla em inglês) identificado. Os outros dois são o 53319 1999 JM8 (cerca de 7 km de extensão) e o 4183 Cuno (cerca de 5,6 km).
BBC Brasil

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O que as imagens de fuga de soldado norte-coreano revelaram ao mundo

Cenas extraordinárias em um vídeo mostram um soldado desertor norte-coreano atravessando a fronteira, em fuga para a Coreia do Sul. Em 13 de novembro, ele dirigiu um jipe até a divisa entre os dois países, dentro da área de segurança conjunta - na sigla em inglês JSA, de Joint Security Area. Em seguida, correu para o lado do sul, sob intenso tiroteio.
A JSA é uma área armada entre as duas Coreias. É o único lugar ao longo de 250 quilômetros na zona desmilitarizada onde soldados dos dois lados estão cara a cara.
No armistício de 1953, que deu fim à guerra entre os dois países, ambos os lados concordaram em não executar qualquer ato hostil dentro, a partir de, ou contra essa área.
Esse acordo, no entanto, teria sido quebrado no dia 13, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). A instituição, que supervisiona as forças militares de apoio à Coreia do Sul, afirma que as imagens recém-divulgadas de perseguição ao soldado mostraram violações claras do armistício, com soldados da Coreia do Norte disparando através da fronteira e cruzando a linha de demarcação estabelecida na região.

Soldado em fuga em veículo

Área segura, mas sem "barreiras"

As imagens em vídeo mostram o soldado passando em alta velocidade pelo que parece um ponto de controle da Coreia do Norte. Ele dirige em direção à fronteira.
A zona desmilitarizada é fortemente protegida, mas na JSA não há muros ou outros obstáculos que poderiam ser esperados na divisa de dois países que tecnicamente ainda estão em guerra.
Mesmo o ponto de controle da Coreia do Norte não parecia ter barreiras. A ausência delas deve ser proposital, conforme determinação do armistício, disse à BBC coreana o pesquisador Yang Uk, do Korea Defense & Security Forum.
"A área foi instalada como terreno neutro para conversas do comitê de armistício", o que, segundo ele, costumava ocorrer frequentemente.
"As forças armadas do Norte e do Sul trabalhavam juntas na JSA, o que é óbvio considerando o que ela significa - área de segurança conjunta".
Essa área foi originalmente estabelecida como um ambiente no qual os Exércitos trabalhassem conjuntamente, mas um incidente em 1976 conhecido como "caso do assassinato do machado" - quando soldados norte-coreanos mataram soldados dos EUA enquanto derrubavam uma árvore - resultou em novas regras em que militares dos dois países tiveram que se manter em seus devidos lados.
Na área, acrescenta ele, existem poucos lugares para se esconder. A "Freedom House", no lado sul da fronteira, tem apenas um ponto de entrada no centro do seu lado sul - então seria difícil para um desertor do norte se esconder no prédio.

Guarda norte-coreano que participava da perseguição chega a invadir por alguns momentos o território da Coreia da Sul

Comando da ONU aponta violação de regras durante perseguição

Pelas imagens do circuito de câmeras que captaram os momentos da fuga, parece surpreendente que o soldado tenha sobrevivido. Guardas norte-coreanos o alcançam e seguem atirando a curta distância apenas alguns segundos após ele abandonar o veículo que dirigia e correr para cruzar a fronteira. Ele não para. Atravessa uma estrada e só desmaia alguns metros depois - o suficiente para ficar fora de alcance e protegido no perímetro de um prédio chamado "Freedom House" da Coreia do Sul.
Um guarda de fronteira participava da perseguição, antes de parar abruptamente ao perceber que havia invadido o território do sul. Ele dá a volta e retorna ao ponto onde estão seus companheiros, escondidos atrás de um posto de vigilância.
Para o Comando das Nações Unidas, esse foi outro exemplo de violação do armistício.
Contudo, a Linha de Demarcação Militar, uma linha de administração temporária que divide as duas coreias, parece não estar visivelmente demarcada em toda a extensão da JSA.

Imagens de câmeras de segurança mostram o desertor caído sobre um monte de folhas momentos após ser atingido por soldados norte-coreanos

Nas imagens divulgadas pelo Comando das Nações Unidas, o desertor atravessa um campo gramado perto de um dos prédios. O guarda-fronteira não parece estar ciente de que invadiu o território vizinho, até estar de fato do lado do sul.
O Comando das Nações Unidas disse quarta-feira que os guardas norte-coreanos também violaram regras ao atirar no desertor em direção à Coreia do Sul, dentro da JSA.
O porta-voz das forças dos EUA trabalhando sob o comando da ONU disse que o sul mostrou uma "ponderação admirável" ao não revidar.
Agora espera apenas ouvir se o norte está disposto a conhecer e  discutir o incidente, além de maneiras de evitar que se repita.

Soldados norte-coreanos

Soldados norte-coreanos pareciam bem armados, mas "confusos"

As forças de segurança do Norte estão visivelmente bem armadas, no decorrer do incidente, mas suas reações parecem confusas.
No início da fuga, elas tiveram a chance de parar o soldado no posto de controle, mas ele acelerou enquanto, aparentemente, um guarda entrava em pânico.
Depois disso, houve ainda a invasão de outro guarda ao território do sul, e disparos dos soldados contra o desertor fugitivo - fatos que sugerem que eles esqueceram protocolos no meio da confusão ou que teriam decidido quebrar regras.
As imagens também mostram, na sequência, um grupo de soldados norte-coreanos movendo-se em círculos no seu lado da JSA e parecendo reticentes, antes de irem embora. Um deles é visto abaixando o rifle para ajustar o sapato ou a perna da calça.
A questão do armamento foi levantada por alguns analistas.
"Na teoria, apenas as pistolas são permitidas na JSA, para a autodefesa. Na prática, no entanto, soldados da Coreia do Norte foram vistos portando armas de fogo de mais grosso calibre. Os militares sul-coreanos também se prepararam com armas pesadas no caso de agressão ", disse Yang Uk à BBC.

Câmeras infravermelho mostram soldados sul-coreanos arrastando o desertor para longe da fronteira com a Coreia do Norte

Resgate

De acordo com o Comando da ONU, os sul-coreanos tinham um plano e trabalharam rapidamente para resgatar o desertor sem saber se ele havia sido capturado.
Depois de esperar cerca de 40 minutos, dois soldados sul-coreanos rastejam em direção ao desertor e arrastam-no para longe.
Deserções são raras na área desmilitarizada e mais ainda na JSA.
Nenhuma das registradas até agora havia sido tão dramática.