sexta-feira, 8 de junho de 2018

Se o cérebro precisa de açúcar para funcionar, por que devemos parar de consumi-lo?

azucar alimentos
 
Como disse o escritor e químico italiano Primo Levi em seu livro O Sistema Periódico, de 1975, “o destino do vinho é ser bebido, e o da glicose é ser oxidada”. Assim, não é à toa que esse composto orgânico é o principal combustível que fornece energia às células do organismo. Também aos neurônios do nosso cérebro, que, assim como o de todos os mamíferos, precisa de uma dose constante de glicose para funcionar.
No entanto, a OMS recomenda reduzir o consumo de açúcar livre (o que se acrescenta, não o que se encontra de forma natural em alguns alimentos como a frutose, nas frutas, ou a lactose no leite) a menos de 10% da ingestão calórica total do dia, e inclusive estimula que esse consumo seja inferior a 5%, pois isso “produziria benefícios adicionais para a saúde”. Neste ano, também a indústria alimentícia entrou num processo de reformulação de seus produtos para reduzir esses açúcares, além do sal e das gorduras saturadas. Mas por que, se a glicose é fundamental para o funcionamento do cérebro, não é bom que comamos açúcar?

Como o cérebro ‘come’ açúcar

A glicose – o termo vem do grego e significa algo como “açúcar de mosto” – é um composto orgânico muito comum na natureza, uma forma de açúcar formado por grandes moléculas que, através da chamada oxidação catabólica, se transforma em moléculas menores e mais simples, um processo que libera uma importante quantidade de energia utilizada para realizar o conjunto de reações químicas e fisicoquímicas que ocorrem em todas as células vivas do organismo, o que se conhece como metabolismo.
O cérebro especificamente consome 5,6 miligramas de glicose por cada 100 gramas de tecido cerebral por minuto, segundo Ramón de Cangas, da Academia Espanhola de Nutrição e Dietética. No cérebro de um indivíduo adulto, acrescenta ele, a maior demanda por energia procede dos neurônios, que têm gostos exigentes: para elas a glicose é primordial, porque, diferentemente das células comuns, que também obtêm energia de outras fontes, os neurônios dependem quase que exclusivamente dessa substância. Por isso, embora o cérebro represente menos de 2% do peso corporal, gasta até 20% da energia total que o organismo fabrica a partir da glicose; é o seu principal consumidor.

De onde tiramos a glicose

A glicose, portanto, é um componente essencial para a vida, e especificamente para o correto desenvolvimento das funções cerebrais. Entretanto, embora seja um açúcar simples, ou monossacarídeo, não é preciso comer açúcar nem alimentos doces para que o organismo conte com a quantidade necessária, um argumento ao qual frequentemente a indústria alimentícia recorre para justificar a inclusão de açúcares nos seus produtos.
“De fato, se uma pessoa adotasse uma dieta livre de açúcar isso não representaria nenhum problema: o organismo tem vários mecanismos para obter glicose”, aponta De Cangas. “Além de obtê-la através da alimentação, nosso corpo pode sintetizá-la a partir do glicogênio, um polissacarídeo armazenado no fígado e, em menor quantidade, nos músculos. Também se gera glicose a partir de subprodutos das gorduras chamados corpos cetônicos, os quais, em situações de hipoglicemia (baixo conteúdo de açúcar no sangue), podem suprir essa carência.” Outras fontes de energia são os ácidos graxos. “A gordura se armazena em forma de triacilglicerídeos (uma molécula de glicerol e três de ácidos graxos). Nos humanos, os ácidos graxos não podem originar glicose, mas o glicerol pode, embora em quantidades mínimas.”

A quantidade certa: nem muito nem muito pouco

Definitivamente, todos os alimentos que ingerimos acabam, em maior ou menor medida, sendo transformados em glicose, ou seja, em energia para o organismo. O tipo de alimento de mais fácil transformação é o grupo dos carboidratos. Eles incluem os açúcares livres, acrescidos a uma infinidade de produtos, mas também muitos outros, como os cereais, tubérculos, leguminosas, laticínios, frutas e hortaliças. Se mantivermos uma dieta saudável e nosso organismo funcionar bem, não há por que se preocupar: o suprimento de glicose está assegurado, mesmo que nunca mais comamos cup cakes. A evolução já se ocupou de criar recursos para obter o principal suprimento de energia celular.
Mas, como é sabido, o organismo pode falhar por múltiplas razões, também no que diz respeito à obtenção de glicose. Quando o fornecimento não é adequado, ou seja, quando a quantidade de glicose no sangue é excessiva ou insuficiente, ocorrem, respectivamente, hiperglicemia e hipoglicemia.
O diabetes é uma das causas mais disseminadas dessa disfunção, e se deve à resistência à insulina entre os afetados por essa doença. A insulina é o hormônio que se encarrega de regular a quantidade de glicose no sangue. Se ela não funciona, pode ocorrer tanto a hiperglicemia (de forma mais frequente) como a hipoglicemia, e as consequências disso são sempre negativas. “Os níveis permanentemente elevados de glicose no sangue podem causar danos em vários órgãos do corpo, como a retina, o rim, as artérias e o sistema nervoso”, diz De Cangas. “Por outro lado, os níveis baixos de glicose (por exemplo, causados pelo diabetes tipo 1 descontrolado) podem conduzir inclusive a um coma diabético e à morte do paciente.”

Quando o cérebro pede comida, está nos mandando um SOS

Se a glicose escasseia surgem várias disfunções e doenças, conforme evidenciou um estudo realizado por pesquisadores da Alemanha e Estados Unidos. “O metabolismo da glicose proporciona o combustível para a função fisiológica do cérebro através da geração de ATP – adenosina trifosfato, a molécula-estrela no processo de obtenção de energia celular nas reações químicas –, a base para a manutenção celular neuronal e não neuronal, assim como para a geração de neurotransmissores”, explica o estudo.
“Se o metabolismo da glicose for alterado”, diz De Cangas, “podem ocorrer várias alterações neurológicas, bem como obesidade, diabetes tipo 2, demência e Alzheimer: um dos sinais mais precoces dessa doença, aliás, é a redução do metabolismo da glicose cerebral”.
Cabe destacar, acrescenta De Cangas, que “se os neurônios não podem obter a glicose que necessitam, pode-se desencadear inclusive um processo de morte celular por autofagia; ao não contar com o alimento necessário para funcionar, estas células cerebrais obtêm a energia de si mesmas até morrerem”.
Por isso, quando os níveis de glicose estão abaixo do necessário, os neurônios enviam uma série de sinais de alarme ao conjunto do organismo: problemas de visão, irritabilidade, ansiedade, suores, enjoo, sonolência, confusão, fraqueza, fome… Um acervo de mensagens que levam a pessoa a corrigir essa falta de glicose ingerindo alimentos. Se a glicose não aumentar, podem ocorrer convulsões, desmaios e inclusive um coma, que poderia terminar com uma morte neuronal. Por outro lado, os sintomas da hiperglicemia (uma concentração de açúcar no sangue superior a 180 miligramas por decilitro) são sede desmesurada, dor de cabeça, problemas de concentração, visão imprecisa, micção frequente e perda de peso.
“Em seu caminho ascendente, que leva ao equilíbrio e por fim à morte, a vida cria uma alça e se agarra a ela”, diz Primo Levi sobre o processo pelo qual a glicose se oxida e vira energia. Sem dúvida, essa biomolécula é um bom exemplo da maravilhosa capacidade do organismo de adotar as mais intrincadas maneiras de se aferrar à existência.

Sem celular até os 15 anos: França quer lei para proibir telefones nas escolas

 
Garota francesa consulta seu celular na sala de aula.
A mudança na redação da lei é sutil e a discussão, bizantina, mas o simbolismo é forte: a França quer proteger a escola da onipresença das telas.
A Assembleia Nacional adotou nesta quinta-feira uma emenda para proibir nas salas de aula, no pátio e nas atividades extracurriculares o uso de telefones celulares a partir do próximo ano letivo. A proibição se aplica às escolas do nível fundamental (primário e intermediário), até os 15 anos, e não inclui o ensino médio. Deixa margem a cada estabelecimento para regular a aplicação da norma: onde guardar os telefones (em um armário ou na carteira escolar) ou como punir os que desobedecerem. E permite exceções para o uso pedagógico dos aparelhos.
A lei responde a uma promessa eleitoral do presidente Emmanuel Macron. Traduz na prática a filosofia educativa do ministro da área, Jean-Michel Blanquer, partidário do regresso aos fundamentos tradicionais e convencido de que a sala de aula é “uma pequena república, onde se aprende a escutar, a entender um ao outro, a cooperar e saber o que está em jogo na vida coletiva”, como escreve em seu último livro, Construisons Ensemble L’École de la Confiance (Construamos juntos a escola da confiança, sem tradução no Brasil).
A lei, que ainda depende de votação no Senado, foi aprovada com os votos da maioria presidencial. A proposta consiste em modificar o artigo 515 do Código da Educação, adotado em 2010. O texto original dizia: “Nas escolas maternais, nas escolas elementares e nos colégios, a utilização durante a atividade de ensino e nos lugares previstos pelo regulamento interno, por parte de um aluno, de um telefone celular está proibida”. O novo texto corrige: “Com exceção dos locais onde, nas condições em que for preciso, o regulamento interno o autorize expressamente, o uso de um telefone celular por parte de um aluno está proibido nas escolas maternais, nas escolas elementares e nos colégios”.
Captar a diferença entre as duas leis exige um desses exercícios de análise de texto que constituem um código de identidade do sistema educacional francês.
Segundo a oposição, a lei é uma “operação de comunicação”, pura gestualidade política sem efeitos tangíveis. A metade das unidades já aplicava a proibição. A maioria presidencial argumenta que o novo texto fornece uma base jurídica mais sólida para enfrentar um problema que a legislação atual deixou sem resolver. Um total de 93% dos menores entre 12 e 17 anos na França tem telefone celular. Os legisladores alegam que os celulares favorecem o assédio na Internet e expõem os alunos a imagens de violência e pornografia, além de reduzirem a concentração. O problema, acrescentam, não é apenas sua presença nas classes, mas no pátio, onde “pode se tornar nefasto ao reduzir a atividade física e limitar as interações sociais entre os alunos”.
Blanquer explica em seu livro o objetivo da lei, mais ambiciosa do que o texto deixa entrever. Trata-se, escreve, de “recuperar o uso razoável do aparelho [...] e propor a nossos filhos uma experiência de vida na qual a tela não seja o centro”. A lição vale para os alunos e para os adultos.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Robô na Nasa encontra novos blocos de construção da vida em Marte

O rover Curiosity da Nasa, retratado em Marte em 4 de fevereiro de 2018
 
Um robô da Nasa detectou mais blocos de construção da vida em Marte - a matéria orgânica mais complexa até hoje - a partir de rochas de 3,5 bilhões de anos na superfície do Planeta Vermelho, disseram cientistas nesta quinta-feira (7).
O rover Curiosity não tripulado também encontrou evidências crescentes de variações sazonais de metano em Marte, indicando que a fonte do gás é provavelmente o próprio planeta, ou possivelmente sua água subterrânea.
Embora não sejam evidências diretas de vida, os componentes da cratera Gale de Marte são o conjunto mais diversificado já retirado da superfície do planeta desde que o veículo robótico aterrissou em 2012, dizem especialistas.
"Este é um avanço importante porque significa que há materiais orgânicos preservados em alguns dos ambientes mais severos de Marte", disse a autora principal de um dos dois estudos publicados na revista Science, Jennifer Eigenbrode, astrobióloga do Goddard Spaceflight Center da Nasa.
"E talvez possamos encontrar algo mais bem preservado do que isso, que tenha assinaturas de vida", disse à AFP.
O rover Curiosity da Nasa já havia encontrado matéria orgânica em Marte. Uma descoberta menor foi anunciada em 2014.
"Esta é a primeira detecção realmente confiável", disse à AFP o coautor Sanjeev Gupta, professor de ciências da Terra no Imperial College London.
"O que este novo estudo está mostrando com alguns detalhes é a descoberta de compostos orgânicos complexos e diversos nos sedimentos. Isso não significa vida, mas compostos orgânicos são os blocos de construção da vida", acrescentou.
"Esta é a primeira vez que detectamos um conjunto tão diversificado desse tipo de coisa".
- Pista para "algo maior" -
Os compostos podem ter vindo de um meteorito, ou de formações geológicas parecidas com o carvão e o xisto negro na Terra, ou alguma forma de vida, disse Eigenbrode.
Sua fonte precisa ainda é um mistério.
"Detectamos os fragmentos de algo maior", disse Eigenbrode.
As amostras foram perfuradas a partir da base do Monte Sharp, dentro de uma bacia chamada Gale Crater, que acredita-se ter abrigado um antigo lago marciano.
"Esse é um bom lugar para a vida ter vivido, se alguma vez existiu em Marte", disse.
A rocha de argilito foi perfurada a partir dos cinco centímetros superiores da superfície marciana e aquecida num laboratório de análise em miniatura localizado a bordo do rover.
Um instrumento construído na França revelou "várias moléculas orgânicas e voláteis que lembram rochas sedimentares ricas em elementos orgânicos encontradas na Terra, incluindo: tiofeno, 2- e 3-metiltiofenos, metanotiol e dimetilsulfureto", disse o estudo da Science.
- Estudo do metano -
O outro artigo na Science relatou novos detalhes na busca pela fonte de metano em Marte, que tem picos e quedas de acordo com as estações do ano.
O metano, a molécula orgânica mais simples, varia entre "0,24 a 0,65 partes por bilhão, com um pico próximo ao final do verão no hemisfério norte", disse o estudo, com base em três anos de dados.
A fonte ainda não está clara, mas pode estar armazenada no subsolo frio marciano em cristais à base de água chamados clatratos, disseram os pesquisadores.
"Ambas as descobertas são avanços em astrobiologia", escreveu Inge Loes ten Kate, da Universidade de Tübingen, na Alemanha, em um comentário na revista Science.
"A detecção de moléculas orgânicas e metano em Marte tem implicações de longo alcance em vista da potencial vida passada em Marte", disse.
"O Curiosity mostrou que a cratera Gale era habitável há cerca de 3,5 bilhões de anos, com condições comparáveis ​​às da Terra primitiva, onde a vida evoluiu naquela época", acrescentou.
"A questão de se a vida pode ter se originado ou existido em Marte é muito mais oportuna agora que sabemos que moléculas orgânicas estavam presentes em sua superfície naquela época", concluiu.
- Próximas missões -
De acordo com Ariel Anbar, professor da Universidade do Estado do Arizona que dirigiu o programa de astrobiologia da faculdade financiado pela Nasa de 2009 a 2015, o trabalho "definitivamente move a bola pela quadra de maneiras importantes".
Ele "define como as perguntas serão feitas e perseguidas na próxima etapa da exploração de Marte", disse Anbar, que não esteve envolvido no estudo, à AFP por e-mail.
Os cientistas esperam promover a busca por sinais de vida em Marte com o rover europeu e russo ExoMars, programado para aterrissar em 2021.
Este vai perfurar ainda mais fundo do que qualquer instrumento anterior, até dois metros de profundidade.
A Nasa também tem outro rover em andamento com sua missão Mars 2020, que planeja perfurar núcleos e separá-los para uma possível futura captura e retorno à Terra.

Álbum da Copa da Rússia tem 21 erros a mais que edição anterior

Capa do álbum da Copa do Mundo Rússia 2018.
 
Com as listas de todas as 32 seleções que disputarão a Copa do Mundo da Rússia 2018 completas, também já estão definidos os erros nas figurinhas do álbum da Copa, que a cada quatro anos aposta com antecedência em quem serão os convocados de cada equipe. Nesta edição, foram 92 erros no livro ilustrativo (2,8 por time, em média), 21 a mais do que o número em 2014. Somando os escolhidos de Brasil, Argentina, Alemanha, Espanha, França, Portugal, Bélgica e Inglaterra, as oito principais seleções do torneio, são 26 erros, uma média de mais de três figurinhas equivocadas por equipe favorita.
Quem mais enganou a publicação da Panini foi o treinador Didier Deschamps, da França. Presentes no álbum, os laterais Digne e Kurzawa, o zagueiro Koscielny, o meia Rabiot e onas atacantes Lacazette e Martial não foram chamados para a Copa. Digne, Lacazette, Martial e Rabiot ainda foram indicados para a lista de 12 suplentes, mas o último se negou a fazer parte desta, causando polêmica na França. Rabiot foi preterido pelos meio-campistas Kanté, Matuidi, N’Zonzi, Pogba e Tolisso. Sem nenhum erro na edição de 2006 do álbum, os franceses viram a publicação se equivocar com Benzema em 2010 e Ribéry em 2014.
Atrás da França estão Portugal, Argentina e Inglaterra, todos com quatro erros. Nos portugueses, o lateral Eliseu, os volantes Danilo e André Gomes e o atacante Nani foram convocados pela Panini, mas não chamados pelo treinador Fernando Santos. Sampaoli deixou de lado o goleiro Romero, o zagueiro Funes Mori, o meia Enzo Pérez e o atacante Icardi, todos com figurinha no álbum. Por fim, o goleiro Hart, o lateral Bertrand e os meias Oxlade-Chamberlain e Lallana estão apenas na seleção inglesa do livro ilustrado.
Talvez as duas ausências mais polêmicas, Sané e Nainggolan, que fizeram grande temporada no Manchester City e na Roma, respectivamente, ganharam suas figurinhas da Panini. No entanto, Joachim Löw, da Alemanha, e Roberto Martínez, da Bélgica, não convocaram os dois jogadores. Na seleção alemã, Can (Liverpool) e Götze (Borussia Dortmund) também se tornaram 'erros' da Panini. Na Espanha, ainda, Vitolo e Morata estão no álbum, mas não na Copa.
Com a seleção brasileira, a Panini quase repetiu seu melhor desempenho, obtido em 2014 quando apenas Robinho estava na seleção do álbum e não no Mundial. Giuliano tinha tudo para ser o único erro da publicação em 2018, mas Daniel Alves, com lesão no joelho, se tornou desfalque de Tite e equívoco no livro ilustrado às vésperas da convocação decisiva. Em 2010, foram três erros: André Santos, Ronaldinho e Adriano; em 2006, mais três: Roque Júnior, Renato e Júlio Baptista.
Assim como vitimaram nomes como Beckham, Ballack, Ribéry, Thiago Alcântara, Walcott e Reus em Copas anteriores, as lesões voltaram a ser responsáveis em casos que a Panini não tinha como adivinhar. Além de Dani Alves no Brasil, Danilo, de Portugal, Koscielny, da França, Romero, da Argentina, e Chamberlain, da Inglaterra, se tornaram equívocos após sofrerem lesões no fim da temporada e não conseguirem se recuperar a tempo para a disputa do Mundial.
El País

terça-feira, 5 de junho de 2018

Por que caminhamos mais devagar quando envelhecemos?

Perda de força e massa muscular prejudica a mobilidade: A dificuldade para caminhar pode reduzir a expectativa de vida

Já reparou que os idosos costumam caminhar mais lentamente? O que será que está por trás dessa marcha reduzida? Há uma explicação física, baseada em achados científicos, para essa história. Com o passar dos anos, geralmente após os 30, a maioria das pessoas começa a perder pequenas quantidades de massa muscular.
E o que isso tem a ver com as caminhadas? Bem, uma pesquisa publicada no início do ano pela Universidade Carnegie Mellon, nos Estados Unidos, constatou que os idosos caminham a uma velocidade menor e cansam mais rapidamente devido à perda de força e massa nos músculos das pernas. Mais do que isso, os estudiosos verificaram que o perfil da macha do indivíduo mais velho pode estar associado à sua expectativa de vida.
Segundo o estudo, esse declínio no desempenho da marcha é capaz de levar a um estilo de vida sedentário, contribuindo para a piora do estado geral de saúde. Estima-se que isso possa gerar uma redução de dez anos na sobrevida.
 

Para melhorar as coisas e evitar essas perspectivas, os pesquisadores sugerem hábitos e medidas que permitam a construção e reparação dos músculos das pernas. Assim ficaria mais fácil caminhar e ter uma vida ativa e equilibrada, fator essencial para a longevidade.
Para se ter uma ideia da dimensão dessa questão, 4% dos homens e 3% das mulheres com idade entre 70 e 75 anos e 16% dos homens e 13% das mulheres com 85 anos ou mais apresentam perda acentuada da massa muscular, segundo dados da Fundação Internacional de Osteoporose. A situação pode evoluir inclusive para uma condição chamada de sarcopenia, que consiste na perda da massa e da força dos músculos e está diretamente relacionada ao envelhecimento. A sarcopenia, por sua vez, afeta o equilíbrio, a marcha e a capacidade de realizar atividades rotineiras.
Sabemos que a diminuição da mobilidade pode induzir um círculo vicioso de redução das atividades físicas, o que afeta em cheio a qualidade e a expectativa de vida. Por isso, a prática de exercícios regulares, em especial os treinos de força com uso de pesos, associada a uma dieta balanceada com bom espaço para proteínas, é pré-requisito para prevenir ou minimizar a perda de massa muscular e mesmo do tecido ósseo.
Exercício físico é uma das ferramentas básicas para chegarmos bem à velhice. Procure ter o hábito de realizar caminhadas diárias de pelo menos 30 minutos. Isso já ajuda bastante. O ato de caminhar nos faz gastar energia, ter controle sobre os movimentos e bota para trabalhar os sistemas cardíaco, pulmonar, nervoso e musculoesquelético. Se puder agregar outras atividades esportivas à rotina, tanto melhor. Sua saúde agradece. Hoje e lá na frente.

Os dias na Terra estão ficando mais longos - e a culpa é da Lua

Os dias na Terra estão ficando mais longos – e a culpa é da Lua
 
Sabe aqueles momentos atarefadíssimos que fazem você desejar que o dia tivesse mais horas? Seu desejo vai se realizar. Mas só daqui a alguns milhões de anos. E por culpa da Lua.
Cientistas da Universidade de Wisconsin-Madison atestaram que os dias na Terra estão ficando mais longos. A cada ano, nossos dias ficam um centésimo de milésimo de segundo (1/75000) mais longos.
Ok, os números podem não impressionar. É pouco para o tempo de vida do ser humano. Nem a geração dos seus tataranetos vai sentir a diferença.
Mas daqui a muitos, muitos (e bote muitos nisso) anos, essa mudança será crucial. É só pensar ao contrário. Se os dias estão ficando mais longos, anos atrás eles eram mais curtos.
Cientistas descobriram que numa época quatro vezes mais antiga que os dinossauros, quando não existia nenhum ser vivo com mais de uma célula no planeta (ou seja, há cerca de 1,4 bilhões de anos), um dia durava apenas 18 horas. E isso é, pelo menos em parte, causado pelo aumento da distância entre a Lua e a Terra.
A SUPER já explicou que a Lua está se afastando da Terra, e a cada centímetro mais longe, mais uma casa decimal pequenininha de tempo aumenta nos nossos dias. Tudo porque objetos astronômicos, como a Lua e a Terra, exercem uma influência gravitacional uns sobre os outros – o que afeta o eixo e a velocidade de rotação da Terra. Esse efeito é proporcional à distância entre eles. Com a Lua mais próxima, a Terra acelera – processo que você entende melhor aqui. “À medida que a Lua se afasta, a Terra é como uma patinadora, que desacelera de um giro quando estica os braços”, diz Stephen Meyers, professor de geociência da Universidade de Wisconsin-Madison e um dos autores do estudo.
Há mais de um bilhão de anos, a Lua estava cerca de 40.000 quilômetros mais próxima, o que fazia a Terra girar mais bem rápido. Consequentemente, os dias eram muito menores. Mas isso não é para sempre: os cientistas atestaram que, quando a Lua chegar a uma distância ideal da Terra, ela não vai mais se afastar. 
O mais legal desse novo estudo é o método utilizado para fazer essas descobertas, chamado de “astrocronologia”. Ele usa um modelo estatístico que liga astronomia teórica com observações geológicas, o que torna possível investigar o passado da Terra e reconstituir a história de todo o sistema solar. É uma espécie de arqueologia do espaço. Por exemplo: uma das formas pelas quais os cientistas conseguiram fazer esses cálculos em relação à rotação da Terra, há mais de um bilhão de anos, foi observando os sedimentos de uma rocha de 90 milhões de anos. Ela forneceu informações cruciais sobre os ciclos climáticos do nosso planeta.
“O registro geológico é um observatório astronômico para o sistema solar primitivo. Estamos olhando para o seu ritmo pulsante, preservado na rocha e na história da vida”, afirma Meyers. Além da relação com a Lua, os cientistas comprovaram mudanças na direção do eixo de rotação da Terra e na forma de sua órbita, tanto em tempos mais recentes quanto há bilhões de anos – tudo isso através da astrocronologia. Apesar de a lua que brilha lá no céu ficar cada vez mais longe, os mistérios do universo estão cada vez mais próximos do homem.
 
 

 

Dia Mundial do Meio Ambiente: a "epidemia de plásticos", em imagens

Slide 2 de 19: Segundo a ONU, até 2050, pode haver mais plásticos que peixes nos oceanos, caso a humanidade não reveja a forma como consome o material. Na imagem, um peixe se aproxima de vários micro plásticos em uma imagem divulgada durante uma entrevista coletiva promovida pelo Greenpeace, em Hong Kong, em 23 de abril.

Segundo a ONU, até 2050, pode haver mais plásticos que peixes nos oceanos, caso a humanidade não reveja a forma como consome o material. Na imagem, um peixe se aproxima de vários micro plásticos em uma imagem divulgada durante uma entrevista coletiva promovida pelo Greenpeace, em Hong Kong, em 23 de abril.

Slide 3 de 19: Operário separa resíduos em um centro de reciclagem em Pira (Itália) os plásticos recolhidos por pescadores italianos durante um projeto impulsionado pelas autoridades da Itália para sensibilizar a população sobre a contaminação marinha.

Operário separa resíduos em um centro de reciclagem em Pira (Itália) os plásticos recolhidos por pescadores italianos durante um projeto impulsionado pelas autoridades da Itália para sensibilizar a população sobre a contaminação marinha.

Slide 4 de 19: Em 2018, o Dia Mundial do Meio Ambiente tem como tema o impacto do uso do plástico no planeta. A hashtag #AcabeComAPoluiçãoPlástica foi adotada pela ONU para as redes sociais neste dia. Na imagem, um homem empilha tambores de plástico em uma oficina de reciclagem em Mumbai (Índia), em 9 de março de 2018.

Em 2018, o Dia Mundial do Meio Ambiente tem como tema o impacto do uso do plástico no planeta. A hashtag #AcabeComAPoluiçãoPlástica foi adotada pela ONU para as redes sociais neste dia. Na imagem, um homem empilha tambores de plástico em uma oficina de reciclagem em Mumbai (Índia), em 9 de março de 2018.

Slide 5 de 19: Anualmente, 500 bilhões de sacolas plásticas são usadas (e jogadas fora) no mundo, segundo a ONY. O objetivo da campanha neste ano é estimular o consumo consciente para reduzir a produção de produtos plásticos descartáveis. Na imagem, clientes de um supermercado em Sevilla, na Espanha, guardam compras em sacolas plásticas.

Anualmente, 500 bilhões de sacolas plásticas são usadas (e jogadas fora) no mundo, segundo a ONY. O objetivo da campanha neste ano é estimular o consumo consciente para reduzir a produção de produtos plásticos descartáveis. Na imagem, clientes de um supermercado em Sevilla, na Espanha, guardam compras em sacolas plásticas.

Slide 6 de 19: Plásticos empilhados na planta de reciclagem do grupo ALVA em Berlim (Alemanha), em 15 de agosto de 2017. A Comissão Europeia apresentou no dia 28 de maio uma proposta legislativa para reduzir o consumo de plástico que proíbe os produtos de um só uso, como cacnudinhos e talheres de plástico.

Plásticos empilhados na planta de reciclagem do grupo ALVA em Berlim (Alemanha), em 15 de agosto de 2017. A Comissão Europeia apresentou no dia 28 de maio uma proposta legislativa para reduzir o consumo de plástico que proíbe os produtos de um só uso, como cacnudinhos e talheres de plástico.

Slide 7 de 19: Ação simbólica de Greenpeace para viabilizar o problema da contaminação no mar Mediterrâneo.

Ação simbólica de Greenpeace para viabilizar o problema da contaminação no mar Mediterrâneo.

Slide 8 de 19: Uma praia cheia de lixo, incluídos muitos plásticos, na Hann Bay, no Senegal, no último dia 1 de junho.

Uma praia cheia de lixo, incluídos muitos plásticos, na Hann Bay, no Senegal, no último dia 1 de junho.

Slide 9 de 19: Três dos mais de 2.000 voluntários que limparam uma praia de Hong Kong no último 27 de maio.

Três dos mais de 2.000 voluntários que limparam uma praia de Hong Kong no último 27 de maio.

Slide 10 de 19: Restos de poliolefina recolhidos durante uma campanha de sensibilização pela reciclagem em Pisa, na Itália.

Restos de poliolefina recolhidos durante uma campanha de sensibilização pela reciclagem em Pisa, na Itália.

Slide 11 de 19: Um ativista da luta contra a contaminação do meio ambiente pelo lixo construiu um barco de garrafas de plástico na cidade libanesa de Byblos, no Líbano, exibido em maio deste ano.

Um ativista da luta contra a contaminação do meio ambiente pelo lixo construiu um barco de garrafas de plástico na cidade libanesa de Byblos, no Líbano, exibido em maio deste ano.

Slide 13 de 19: Um homem caminha acima do lixo em um povo de pescadores em Jacarta (Indonésia).

Um homem caminha acima do lixo em um povo de pescadores em Jacarta (Indonésia).

Slide 14 de 19: Um pescador separa o lixo dos peixes durante um projeto contra a contaminação em Livorno (Itália).

Um pescador separa o lixo dos peixes durante um projeto contra a contaminação em Livorno (Itália).

Slide 15 de 19: Os resíduos plásticos produzidos em uma semana pela família Lyritsis, estabelecida em Atenas (Grécia). Estima-se que cada ser humano produz, em média, um quilo de lixo por dia, sendo que mais da metade dele poderia ser reciclado.

Os resíduos plásticos produzidos em uma semana pela família Lyritsis, estabelecida em Atenas (Grécia). Estima-se que cada ser humano produz, em média, um quilo de lixo por dia, sendo que mais da metade dele poderia ser reciclado.

Slide 16 de 19: Homem coleta material plástico em Abidjan, na Costa do Marfim, em maio deste ano. Dia Mundial do Meio Ambiente de 2018 tem como tema o consumo de plástico.

Homem coleta material plástico em Abidjan, na Costa do Marfim, em maio deste ano. Dia Mundial do Meio Ambiente de 2018 tem como tema o consumo de plástico.

Slide 17 de 19: De acordo com a ONU, caso a humanidade não reveja a forma como consome plástico no mundo, poderá haver mais plásticos do que peixes nos oceanos até 2050. Na imagem, uma sacola boiando no Mar Vermelho, no Egito.

De acordo com a ONU, caso a humanidade não reveja a forma como consome plástico no mundo, poderá haver mais plásticos do que peixes nos oceanos até 2050. Na imagem, uma sacola boiando no Mar Vermelho, no Egito.

Slide 18 de 19: O Dia Mundial do Meio Ambiente foi instituído em 1974 e, neste ano, tem como objetivo repensar o uso do plástico no planeta. Na imagem, um homem carrega galões de água no Vietnã.

O Dia Mundial do Meio Ambiente foi instituído em 1974 e, neste ano, tem como objetivo repensar o uso do plástico no planeta. Na imagem, um homem carrega galões de água no Vietnã.

Slide 19 de 19: Homem seleciona lixo reciclável em um aterro na cidade de Bulawayo, segunda maior cidade do Zimbábue.

Homem seleciona lixo reciclável em um aterro na cidade de Bulawayo, segunda maior cidade do Zimbábue.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Erupção do Vulcão de Fogo na Guatemala

Vulcão de Fogo na Guatemala

Na Guatemala uma violenta erupção do Vulcão de Fogo, ocorreu na tarde deste domingo. Um dos rios de lava e lama fervente criados pelo vulcão sepultou o povoado de El Rodeo de Escuintla, no sul do país, segundo as autoridades.

Trabalhos de resgate baixo a chuva de cinza em Guatemala, neste domingo.

O chefe da Coordenadoria Nacional para a Redução de Desastres (Conred), Sergio García, disse na noite de domingo que haviam sido contabilizados também ao menos 20 feridos, 3.100 moradores desalojados e um total de 1,7 milhão de cidadãos afetados pela erupção do vulcão. Ainda não se conhece o número de desaparecidos e desabrigados, já que muitos dos afetados procuraram refúgio em casas de familiares ou amigos.
Sete das vítimas estavam em El Rodeo de Escuintla, e outras quatro são dois bombeiros e duas pessoas que não respeitaram os cordões de isolamento, informaram as autoridades em uma entrevista coletiva com a participação do presidente Jimmy Morales, acompanhado de seus ministros de Governo (Interior), Saúde Pública e Defesa.

Erupção do Vulcão de Fogo na Guatemala deixa pelo menos 62 mortos

A cinza expelida pelo Vulcão de Fogo alcançou os 10.000 metros de altura sobre o nível do mar e, segundo o Instituto Nacional de Sismologia, Vulcanologia, Meteorologia e Hidrologia (Insivumeh), esta erupção, a segunda do vulcão em 2018, é a maior dos últimos anos. As colunas de cinza e o fluxo de lava deixaram desalojados na capital e provocaram o fechamento do aeroporto local.
Eddy Sánchez, diretor de Vulcanologia do instituto, alertou para os riscos de médio prazo, como a contaminação da água potável nas localidades afetadas pela cinza e a possibilidade de que a drenagem seja estancada pela areia arrastada com a água das chuvas.
O ministro da Saúde Pública e Assistência Social, Carlos Enrique Soto, informou no final da tarde que 15 pessoas tinham sido internadas com queimaduras causadas pela lava. “Entre eles há quatro crianças em estado grave, com queimaduras de terceiro grau.”
O presidente Morales reuniria seu gabinete na noite de domingo para analisar a possibilidade de decretar algum estado de exceção em três províncias particularmente afetadas.
Na coletiva, as autoridades advertiram à população que a dimensão da tragédia está sendo exagerada nas redes sociais, com fotos antigas, inclusive algumas de catástrofes ocorridas fora da Guatemala. Pediram aos usuários que ignorem essas mensagens.
A erupção iniciou por volta de meio-dia de domingo, com explosões e colunas de cinza que alarmaram as comunidades próximas. Na cidade histórica de Antigua, os visitantes também ficaram assustados com a chuva de cinzas que cobriu as ruas com dois a cinco centímetros de matéria vulcânicas.
As cinzas atingiram vários departamentos (províncias) do país, a tal ponto que as autoridades decidiram fechar o aeroporto internacional de La Aurora “para garantir a segurança de aeronaves e passageiros”. Por volta de 19h30 (23h30 em Brasília), metade da limpeza estava concluída, mas a reabertura só deveria acontecer quando as autoridades e os representantes das companhias aéreas concluíssem que havia condições de operar em segurança. Enquanto isso, cinco voos internacionais com destino à Guatemala foram desviados para El Salvador.
Duas das principais rodovias da Guatemala, a Pan-Americana, que liga a capital do país com o México, e a que conduz ao Pacífico, apresentam problemas de circulação porque a areia, mais a água da chuva, deixam a pista escorregadia. Há temores de inundações, porque grande parte da lava e da lama cai diretamente nos leitos dos rios próximos.
O Vulcão de Fogo, situado entre os departamentos de Escuintla, Sacatepéquez e Chimaltenango, já havia entrado em erupção em janeiro deste ano. Esse vulcão, com 3.763 metros de altura e 35 quilômetros a sudoeste da capital, provocou em setembro de 2012 a última emergência por erupção no país, desalojando 10.000 moradores de povoados ao sul da montanha.
El País

Mudança climática afeta teor nutritivo dos alimentos

Os pesquisadores decidiram estudar o arroz porque mais de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo dependem desta cultura como sua principal fonte de alimento.

Pesquisadores da mudança climática começaram a se dar conta, nos últimos anos, de que o excessivo dióxido de carbono que a humanidade bombeia na atmosfera não está apenas aquecendo o planeta, também está tornando menos nutritivas algumas de nossas plantações mais importantes.
Cientistas descobriram em um novo estudo que o arroz exposto a níveis elevados de dióxido de carbono contém quantidades menores de importantes nutrientes.
As consequências potenciais deste fenômeno para a saúde humana são enormes, considerando que já são bilhões as pessoas em todo o mundo que não ingerem proteínas e vitaminas, bem como outros nutrientes, em quantidades suficientes.
"Quando estudamos a segurança dos alimentos, frequentemente nos concentramos no fato de que a mudança climática poderá afetar a produção das lavouras", disse Lewis H. Ziska, fisiologista vegetal do Departamento da Agricultura dos Estados Unidos e coautor do estudo. "Mas a qualidade destas culturas e seu teor nutricional são igualmente importante, e nem sempre têm sido analisados de maneira mais profunda".
No estudo, publicado em maio pela revista "Science Advances", Ziska e seus colegas expuseram campos de arroz experimentais na China e no Japão aos mesmos níveis elevados de dióxido de carbono que, segundo se prevê, ocorrerão mais perto do final do século em consequência da atividade humana. A maioria das 18 variedades de arroz que foram cultivadas continha um teor consideravelmente menor de proteínas, zinco e ferro do que o arroz cultivado hoje em dia. Todas as variedades de arroz apresentaram declínios drásticos das vitaminas B1, B2, B5 e B9, embora contivessem níveis mais elevados de vitamina E.
Os pesquisadores decidiram estudar o arroz porque mais de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo dependem desta cultura como sua principal fonte de alimento.
"Em um país como o Bangladesh, o arroz fornece 70% das calorias diárias necessárias e não há muitas outras oportunidades de conseguir esses nutrientes", afirmou Kristie L. Ebi, professora de saúde pública da Universidade de Washington e coautora do estudo.
O documento se baseia em um estudo publicado na revista "Nature" em 2014 e conclui que elevados níveis de dióxido de carbono reduziram a quantidade de zinco e ferro encontrados no trigo, no arroz, na ervilha forrageira e na soja.
Em plantas como arroz e trigo, que realizam o que conhecemos como fotossíntese C3, o aumento dos níveis de dióxido de carbono pode fazê-las produzir mais carboidratos, diluindo alguns dos componentes mais nutritivos. Mas os cientistas ainda tentam compreender por que alguns compostos, como a vitamina B, ficam diluídos e outros não, ou por que algumas variedades de arroz sofrem declínios mais acentuados de vitamina B do que outras.
Com pesquisas mais aprofundadas, os cientistas poderiam tentar cultivar ou criar pela engenharia genética novas variedades de culturas que preservam grande parte do seu valor nutricional apesar do aumento do dióxido de carbono. Mas este poderá ser um processo extremamente complexo, aponta Ziska, considerando que todas as linhagens de arroz testadas em seu estudo mostraram declínios significativos da vitamina B.
Se os cientistas que estudam tais culturas não puderem solucionar o problema, serão necessárias mudanças mais profundas para neutralizar o efeito negativo para a nutrição no mundo todo.
"Consequentemente, as pessoas precisarão de dietas mais diversificadas com uma variedade de fontes de alimentos de qualidade", afirmou Kristie L. Ebi, "e este já constitui um grande desafio".
Outra solução possível seria a redução da quantidade de dióxido de carbono que a humanidade emite.
"A ideia de que os alimentos poderão tornar-se menos nutritivos foi uma surpresa, não é algo intuitivo", explicou Samuel S. Myers, um cientista dedicado à pesquisa do Harvard University Center for the Environment .
que trabalhou no estudo publicado pela "Nature" em 2014. "Mas acho que devemos esperar outras surpresas. Estamos alterando completamente as condições biofísicas em que se baseia nosso sistema alimentar, e ainda conhecemos muito pouco sobre a maneira como essas interferências se espalharão pelo ecossistema e afetarão a saúde humana".

 

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Qual é a origem do feriado de "Corpus Christi" ?


procissão

A frase em latim "Corpus Christi" - o que é:
O que poucos sabem é que não se trata de um feriado nacional, mas sim de ponto facultativo. Ou seja, na maioria das cidades, os empregadores não têm obrigação de liberar os funcionários. Cada empresa decide se vai ou não paralisar os serviços por um dia.
A regra é outra em cidades que aprovaram leis tornando Corpus Christi um feriado municipal. Para a alegria de quem se programa todo ano para tirar o dia de folga, muitos municípios optaram por isso. É o caso, por exemplo, do Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Maceió (AL) e Vitória (ES).
No Distrito Federal, por outro lado, esta quinta-feira será dia de ponto facultativo. E aquela "enforcada" da sexta-feira para viabilizar uma viagem ou um descanso mais longo depende, também, da boa vontade de cada empresa.
Alguns dos tribunais de Brasília, como o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Superior Tribunal de Justiça (STJ), folgarão nesta quinta-feira, mas trabalharão normalmente na sexta-feira. No Congresso Nacional, deputados e senadores devem ter nesta quarta as últimas sessões da semana.
 
cruz
 

Mas o que quer dizer Corpus Christi?

Significa, em latim, "corpo de Cristo". É uma data móvel celebrada pela Igreja Católica sempre 60 dias depois do domingo de Páscoa ou na quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade. Na tradição católica, esta quinta-feira é considerada o dia no qual Jesus Cristo instituiu o sacramento da eucaristia.
De acordo com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), no Corpus Christi se celebra a "presença real de Jesus Cristo no pão e no vinho".

Ouro Preto

Desde quando a data é celebrada?

A festa foi instituída pelo papa Urbano IV, no dia 8 de setembro de 1264 - ele publicou uma bula papal sobre o tema, chamada de "Transiturus", instituindo a data e concedendo indulgências às pessoas que fossem à missa neste dia. Segundo alguns biógrafos, o papa medieval incumbiu o filósofo e teólogo italiano São Tomás de Aquino (1255-1274) de redigir um rito ("ofício") para a celebração da data.
Urbano, porém, morreu poucos anos após instituir a festa, em outubro do mesmo ano - o que acabou retardando a adoção das celebrações. A comemoração de Corpus Christi só "pegaria" para valer décadas depois, quando a data foi reafirmada pelo Concílio de Viena, em 1311.
Uma forma tradicional de celebrar é com uma procissão em alusão à caminhada do "povo de Deus" em busca da Terra Prometida.
Em Portugal, o dia é chamado também de "Corpo de Deus", e é comemorado às vezes com procissões pelas ruas - que também acontecem em algumas cidades do Brasil. Em algumas cidades brasileiras, há o costume de adornar as ruas com "tapetes" feitos de serragem colorida e outros materiais.

terça-feira, 29 de maio de 2018

A 'Disneylândia' de Sadam: como ditadores exploram ruínas históricas

 
Mural de Hussein
 
De tão reluzente, torna-se difícil mirar o palácio que se ergue em fachadas angulares e janelas abertas sob o intenso sol do Iraque. Uma curta estrada em espiral leva a seu topo, onde cascalhos soltos são cobertos por sombras de oliveiras e palmeiras que crescem livres nos jardins outrora luxuosos.
Esse foi um dos palácios mais opulentos de Saddam Hussein. Em seu interior, restam marcas de sua extravagância nas portas e revestimentos delicadamente esculpidos e no grande candelabro ainda pendurado sobre o salão de entrada.
Agora, as paredes estão pichadas de grafite, crianças das redondezas jogam futebol em espaços que produzem eco, e pedaços de vidro do candelabro se espalham pelo chão. E assim o palácio do então poderoso ditador se tornou uma ruína vazia.
 
Da varanda do quarto do ditador, as planícies se alongam e outra ruína aparece à vista: as paredes quebradas de onde, há 2.500 anos, a cidade de Babilônia governava o mundo.
 
Ruínas de Hussein
 
A surpreendente vista não é coincidência. A intenção era que visitantes olhassem para as ruínas da Babilônia e se dessem conta de que estavam diante de um grande líder cujo legado duraria por milênios. Saddam não é o primeiro ditador a usar ruínas antigas dessa forma.
Na verdade, a relação entre a idealização de ruínas e governantes totalitários é histórica. Isso porque ruínas nunca são apenas o que parecem: uma coleção de paredes virando areia. Elas são repositórios de memória e mito. Elas ajudam a construir a narrativa fascista da busca pela grandeza do passado perdida para a decadência dos novos tempos.
Intimidação na Babilônia
O Iraque hoje tem um dos patrimônios arqueológicos mais ricos do mundo. A bacia do Tigre-Eufrates que forma a espinha dorsal do país abriga algumas das primeiras cidades do mundo, entre elas Uruk, Ur, Babilônia e Nineveh. Essas ruínas foram há muito tempo saqueadas por forças coloniais, e seus artefatos levados para mobiliar museus estrangeiros. No século 19, as gravuras assírias de Nineveh foram expostas no British Museum, em Londres; e a Porta de Ishtar, da Babilônia, despojada de seus ladrilhos e reconstruída no Museu Pergamon, em Berlim.
Mas depois que assumiu a Presidência do Iraque, Saddam determinou que as preciosas ruínas do país fossem usadas de outra maneira: para construir um culto à supremacia iraquiana, com ele à frente.

Ruínas de Babilônia

A arqueologia teve um papel fundamental nesse plano. Um dos primeiros grupos a se encontrar com Saddam Hussein depois que este assumiu o poder, em 1968, foi justamente o dos arqueólogos iraquianos. "As antiguidades são as relíquias mais preciosas dos iraquianos", teria dito o ditador durante uma reunião. Essas relíquias, continuou, "mostram ao mundo que nosso país é [descendente] de civilizações que, no passado, contribuíram enormemente para a humanidade".
Na década que veio após a tomada de poder no Iraque pelo Partido Baath, de Saddam, o orçamento do Departamento de Antiguidades aumentou em mais de 80%. Os sítios arqueológicos de Nineveh, Hatra, Nimrud, Ur, Aqar Quf, Samarra e Ctesiphon foram submetidos a uma pesada reconstrução. Mas para Saddam, a joia da coroa iraquiana sempre foi Babilônia.
Entre os séculos 18 e 6 a.C., Babilônia foi uma das grandes metrópoles do planeta. Foi a maior cidade do mundo em pelo menos dois momentos históricos, e talvez a primeira a ter mais de 200 mil habitantes. Foi ocupada por Alexandre, o Grande, no século 4 a.C., e prosperou brevemente antes de ser esvaziada devido a guerras posteriores ao seu governo. Após a conquista muçulmana da Arábia no século 7, os viajantes que visitavam a área descreviam apenas ruínas.
 
Babilônia
 
Saddam sempre foi fascinado pelas ruínas da Babilônia. Ele ordenou uma ambiciosa reconstrução dos muros da cidade, o que custou milhões de dólares em pleno auge da Guerra Irã-Iraque. E ergueu os muros a uma altura historicamente improvável de 11,5 metros, provocando críticas da comunidade arqueológica internacional, que o acusou de transformar a Babilônia em "Disneylândia para um déspota". Como gota d'água, Saddam construiu nas ruínas um anacrônico teatro de estilo romano. E, quando os arqueólogos lhe disseram que antigos reis como Nabucodonosor gravavam seus nomes nos tijolos da antiga Babilônia, Saddam insistiu que seu nome também fosse eternizado nos tijolos da reconstrução.
Esses esforços foram depois descritos por Paul Bremer, líder da autoridade provisória da coalizão que assumiu o governo do país interinamente após a queda de Saddam, em 2003, como "uma caricatura(…) monstruosidades artificiais".
 
Pintura de John Warwick Smith
 
Para o teatro do regime totalitário, as ruínas eram um cenário indispensável. A partir de 1981, Babilônia foi palco de celebrações do primeiro aniversário da invasão iraquiana ao Irã, com oficiais usando o slogan: Nebuchadnasar al-ams Saddam Hussein al-yawm, que significa Ontem Nabucodonosor, hoje Saddam Hussein.
Saddam chegou a ordenar que uma representação gigante dele mesmo em compensado fosse colocada sobre o Portão de Ishtar, em Bagdá. E no festival de 1988, um ator representando Nabucodonosor entregou uma faixa ao ministro da Cultura iraquiano, declarando que Saddam Hussein era "neto de Nabucodonosor" e "embaixador dos rios gêmeos (Eufrates e Tigre)."
Peças de museu de Mussolini
Saddam seguiu o modelo de Mussolini. Na Itália, no começo do século 20, o autoproclamado "Líder" (Il Duce) transformou as ruínas de Roma Antiga em um poderoso instrumento de propaganda política. Embora governos anteriores italianos também tivessem feito reivindicações similares, os fascistas de Mussolini levaram essa idealização a outro nível. Mussolini era frequentemente descrito nas propagandas como "um novo Augusto", evocando o imperador romano que reconstruiu grande parte da cidade durante seu reinado.
 
Berlim na Segunda Guerra
 
"Roma é nosso ponto de partida e referência", disse Mussolini a uma multidão durante a celebração do aniversário da cidade em 1922, pouco depois de tomar o poder. "Ela é nosso símbolo ou, se preferirem, nosso mito. Sonhamos com uma Itália romana, que é sábia e forte, disciplinada e imperial. Muito do que foi o espírito imortal de Roma ressurge no Fascismo."
Mas os fascistas se depararam com um problema: desde a Antiguidade, Roma cresceu cobrindo suas ruínas, absorvendo-as no tecido de uma cidade em constante mudança. Pessoas ergueram casas entre capitéis e pilares antigos, construíram suas casas sobre eles com pedras removidas de suas estruturas. Distritos inteiros cresceram cobrindo ruínas e apagando o legado do qual os fascistas dependiam.
 
Desfile nazista
 
Para resolver esse problema, Mussolini ordenou grandes escavações, removendo casas e distritos inteiros e realocando populações que lá viviam. Ele escavou o mausoléu de Augusto, construindo uma praça fascista a seu redor; removeu prédios que se aglomeravam perto do Teatro de Marcellus; e desenterrou o solo da Arena do Coliseu, retirou toda a verdejante vegetação local e trazendo à tona seu hipogeu (monumentos funerários que ficavam no subsolo).
Em maio de 1938, apenas 16 meses antes do início da Segunda Guerra Mundial, Hitler visitou Roma. Durante a visita, Mussolini mostrou ao ditador alemão uma capital italiana transformada, com ruínas recuperadas e em evidência. Hitler passeou pela cidade à noite, e técnicos de Mussolini destacaram as ruínas recém-escavadas com luzes vermelhas. O passeio cruzou as principais ruínas de Roma, terminando no bem-iluminado Coliseu.
O Führer alemão ficou tão impressionado quanto Mussolini esperava. Hitler também sempre fora fascinado por ruínas. Em seu escritório no Reichstag, Hitler pendurou um retrato do Fórum Romano feito pelo artista francês Hubert Robert, do século 18; o próprio Hitler retratou várias ruínas quando foi pintor. E com frequência, o líder nazista expressava seu ódio à arquitetura moderna e seu amor pela arquitetura clássica da Roma Antiga.
 
"Se Berlim vier a ter o mesmo destino de Roma", elaborou Hitler em 1925, "as gerações seguintes poderiam admirar apenas as lojas de departamentos dos judeus e os hotéis de algumas corporações como as obras mais imponentes do nosso tempo, a expressão característica da cultura de nossos dias".
Para Hitler, as ruínas do passado apontavam para uma versão idealizada da história, o que ele esperava emular em seu Terceiro Reich. "Hitler gostava de dizer que o propósito de suas construções era transmitir seu tempo e seu espírito à posteridade", lembrou o arquiteto-chefe do Terceiro Reich, Albert Speer, em suas memórias.
"Em última análise, tudo o que restou para lembrar os homens dos grandes períodos da história foi sua arquitetura monumental", observou ele. "O que restou dos imperadores do Império Romano? O que lhes daria evidência hoje se não suas construções (...) Assim, as edificações do Império Romano permitiriam que Mussolini se referisse ao espírito heroico de Roma quando quisesse inspirar seu povo com a ideia de um império moderno."
Em resposta a essa ansiedade, Hitler e Speer criaram a teoria do Ruinenwert, ou "valor da ruína". A ideia era criar uma arquitetura que deixasse, mesmo em seu estado decadente, um exemplo inspirador para as futuras gerações. Essa filosofia da arquitetura é visível em grandes projetos arquitetônicos como a arquibancada do campo de Zeppelin (obra de Speer), em Nuremberg, inspirada no antigo Altar de Pérgamo, exposto no mesmo museu (Berlim) onde está a Porta de Ishtar, da Babilônia.
No final das contas, nem as construções da era Hitler, nem os palácios de Saddam conseguiram deixar legados monumentais - ou foram destruídos ou estão largados para a ação do tempo e de grafiteiros.
BBC Brasil

42 bilhões de reais: a conta que a América Latina paga por não estar integrada em uma zona de livre comércio

 
Visão general do porto de Veracruz, o cais comercial mais antigo de México.
A integração comercial é um dos grandes mantras latino-americanos dos últimos tempos. Depender menos das vendas para países terceiros e mais das exportações aos seus próprios vizinhos é uma das grandes metas, muito parcialmente cumpridas, das principais economias da região. Este objetivo deixaria de lado a atual plêiade de acordos de livre comércio em favor de um único tratado que uniria todo o subcontinente, desde Ciudad Juárez até o Cabo Horn. Os números impressionam: o fluxo comercial aumentaria em até 11,3 bilhões de dólares (cerca de 42,2 bilhões de reais) — um crescimento de 3,5% —, de acordo com um estudo divulgado nesta terça-feira pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), um dos mais completos publicados até o momento.
Embora quase 90% dos bens comercializados na América Latina e no Caribe estejam livres de integrar, um acordo único latino-americano teria efeitos positivos de segunda ordem: o comércio de bens intermediários — que são incorporados aos bens exportados — aumentaria 9%, fortalecendo as atuais frágeis cadeias de valor regionais. E as exportações de produtos acabados, por sua vez, mostrariam uma alta entre 1% — dos produtos de mineração nos países andinos — até 21% para os produtos agrícolas da América Central; as exportações de bens manufaturados do México poderiam crescer 8%.
"É difícil entender por que as três maiores economias da região, Brasil, México e Argentina, continuam sem um acordo comercial", observa Mauricio Moreira, economista-chefe do setor de Integração e Comércio do BID. "Representam, em conjunto, metade do PIB de toda a América Latina e do Caribe. Mas o comércio entre eles não chega a 8%." "A chave é que esses três países possam se integrar", acrescenta Ignacio Bartesaghi, diretor do departamento de Negócios Internacionais e Integração da Universidade Católica do Uruguai. "No entanto, não acho que haja vontade política suficiente para isso."
A América Latina está dividida hoje, em termos gerais, em dois grandes blocos comerciais e uma série de pequenos tratados. A Aliança do Pacífico (que desde 2011 inclui o México, a Colômbia, o Peru e o Chile) e o Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) representam mais de 80% do PIB de toda a região. Embora esta gama de acordos tenha conseguido aumentar em 64% o comércio inter-regional, seus benefícios não estiveram, segundo os técnicos do BID, "à altura do que um mercado de cinco trilhões de dólares poderia oferecer". Tampouco conseguiram fazer com que o subcontinente desse um verdadeiro salto de competitividade em escala global.
A organização financeira internacional com sede em Washington propõe um roteiro ambicioso com um único objetivo: aproveitar todas as possibilidades oferecidas pelo livre comércio por meio da convergência de várias áreas de livre intercâmbio ou, pelo menos, de comércio preferencial. "Isolados e sem uma massa crítica", explica Antonio Estervadeordal, gerente do setor de Integração e Comércio do BID, "estes tratados estão condenados à irrelevância ou mesmo a uma morte lenta, à luz dos mega-acordos já em vigor na Europa, Ásia e América do Norte".
A onda protecionista iniciada por Donald Trump desde sua chegada à Casa Branca, há um ano e meio, é uma exceção à regra. Alheio a essa regressão, o restante do mundo, com a China, Japão e União Europeia na liderança, continua apostando no livre comércio como via à prosperidade. Nos últimos meses foram criadas as bases do TPP, que – já sem os Estados Unidos, que se autoexcluiu após a vitória do magnata republicano – permitirá a livre movimentação de bens e serviços entre 11 nações da bacia do Pacífico, entre elas o México, Chile e Peru. E foi reeditado o pacto comercial entre o México e o bloco europeu. São, todos elas, mensagens claras de que o mundo segue um caminho diferente ao escolhido por Trump. Nesse entorno tumultuoso ao comércio internacional, uma verdadeira unidade latino-americana é um desejo mais importante do que nunca: como uma espécie de seguro contra potenciais perdas de mercados. “Um tratado de livre comércio desse tipo poderia atenuar em até 40% os efeitos negativos dos atritos do comércio mundial sobre as exportações latino-americanas”, diz Estervadeordal.
Em abril do ano passado, durante o Foro Econômico Mundial sobre a América Latina realizado em Buenos Aires, os chanceleres do Mercosul e da Aliança do Pacífico iniciaram um processo de integração que consideraram irremediável e irreversível. Para os dois blocos, se tratava de um movimento defensivo diante de um mundo que se tornou mais complicado ao comércio dos países emergentes. O protecionismo dos EUA acabou por convencer a região da necessidade de potencializar suas relações inter-regionais. Enquanto o México olhou em direção ao Sul, como uma maneira de diversificação de sua matriz exportadora muito concentrada na maior potência mundial, as economias do Mercosul decidiram olhar em direção ao Oeste, onde encontraram até agora posições irreconciliáveis com as políticas de esquerda que caracterizaram seus Governos. Tudo mudou com o rumo liberal tomado na Argentina em dezembro de 2015, com a chegada de Mauricio Macri ao poder.
A mudança de época é evidente. Os membros do Mercosul sempre olharam com receio seus vizinhos da Aliança. O primeiro via o segundo muito alinhado aos EUA. O segundo acusava o primeiro de ser politizado e pouco eficiente. Mas Macri e seu homólogo brasileiro, Michel Temer, decidiram abrir o Mercosul ao mundo. E Trump fez o resto para convencer o México e, em menor medida, o Chile, da necessidade de reduzir a dependência comercial com Washington.
Decidiram então avançar à integração com um bloco, o Mercosul, que agora se apresenta mais amigável.
O BID entende que uma eventual união dos dois maiores blocos sub-regionais criará um mercado de 4,3 trilhões de dólares (16 trilhões de reais). “Já existem sinais concretos e promissores de que essa convergência é algo mais do que uma expressão de desejos”, diz o texto do BID, em referência ao acordo de 2017. Qualquer acordo possível, entretanto, não contempla uma fusão e sim entendimentos que agilizam o comércio e derrubam barreiras alfandegárias. Isso já seria o bastante, se for levado em conta todo o caminho que resta percorrer. Basta comparar o nível do comércio inter-regional em outras áreas do mundo: 69% na União Europeia, 55% na Ásia e somente 18% na América Latina.
“Os lucros dos 33 acordos existentes foram menores do que o esperado: os Governos devem ir além da retórica política e fazer um esforço unificador em detrimento do mosaico atual de pequenos acordos”, diz Moreira. “O momento político no México, Argentina e Brasil é propício. E a dificuldade na renegociação do TCL [que une o México, EUA e Canadá desde 1994, e que Trump ameaça implodir se suas exigências não forem atendidas] é um incentivo a mais”, finaliza o economista chefe do setor de Integração e Comércio do BID.