quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Como rápida mudança no polo norte magnético da Terra poderá afetar humanidade?

A bússola magnética continua sendo uma importante ferramenta de navegação, mesmo na era do GPS, mas o problema é que a agulha de uma bússola está sempre alinhada com o polo norte magnético da Terra, que está sempre em fluxo.
O polo magnético apesar de ser lento, é um constante viajante, e os geólogos dizem que ele está se movendo do Ártico canadense para a Sibéria, na Rússia, a uma taxa anual de mais de 55 quilômetros.
 
Macaque in the trees
 
Essa mudança é causada pela convecção – uma rotação lenta da rocha fluida e do metal fundido no núcleo externo da Terra – e é o metal líquido que gera o imenso campo magnético do nosso planeta.
"Essa é a mudança da velocidade de rotação das diferentes partes do núcleo externo, que significa que o movimento do polo norte magnético não tem a mesma velocidade através do tempo", disse Paul Byrne, professor na Universidade da Carolina do Norte (EUA), à emissora de TV CBS 17.
Conhecer a localização do polo norte magnético é crucial para os sistemas de navegação que empregam bússolas magnéticas.
Por esta razão, os cientistas desenvolveram o Modelo Magnético Mundial (WMM, na sigla em inglês) – uma representação do campo magnético da Terra, que permite que o norte magnético seja fixado precisamente.
A cada cinco anos uma versão atualizada do modelo é apresentada, sendo o próximo lançamento agendado para o final de 2019. Porém, mudanças recentes fizeram com que os cientistas lançassem a atualização no início deste mês.
Os cientistas asseguram que as mudanças serão relativamente menores para o usuário comum, mas que afetarão principalmente àqueles que vivem ou viajam ao redor do extremo Ártico. Espera-se também que a atualização seja útil para militares, companhias aéreas comerciais, navios e aeronaves de busca e resgate, NASA e outras agências e grupos que dependem da navegação de precisão no extremo norte.
Segundo Byrne, "esses mapas são usados para todos os tipos de coisas, incluindo a navegação de aeronaves e veículos militares para entender onde as pessoas estão na Terra".
"Honestamente, isso não faz uma grande diferença para as pessoas que não estão vivendo muito perto do polo. De fato, [isso] afeta apenas às pessoas que estão realmente próximas do polo norte magnético", explica.
Ele acrescenta que os aplicativos de navegação "vão receber mais uma atualização desse mapa de campo magnético e, como resultado disso, os usuários não verão nenhuma diferença usando seus telefones, [pois] eles são bons".
 

Cidades dos EUA podem vir a encarar clima terrível atè 2080, alertam ecólogos

O aquecimento global é real e se as temperaturas já estão altas, então continuarão subindo gradativamente. Cientistas afirmam que, se dióxido de carbono continuar sendo liberado nas mesmas taxas de agora nos Estados Unidos, o futuro dos norte-americanos será repleto de implicações negativas e imprevisíveis.
Matthew Fitzpatrick, da Universidade de Maryland, e Robert Dunn, da Universidade Estatal da Carolina do Norte, descreveram o clima que cidades norte-americanas podem vir a ter em 2080 se as emissões permanecerem intactas.
 
Macaque in the trees
 
O estudo abrange zonas urbanas, onde, em geral, há cerca de 250 milhões de habitantes, incluindo mais de três quartos da população dos EUA e mais da metade da população do Canadá.
"Descobrimos que se as emissões continuarem aumentando ao longo do século XXI, o clima em zonas urbanas da América do Norte se tornará, em média, mais parecido com o clima contemporâneo de locais a 850 km de distância e principalmente ao sul", alertam.
Na década de 2080, segundo o estudo, a vida urbana dos norte-americanos será "significativamente diferente" do que hoje em dia em termos climáticos, vindo a ser "mais quente e úmido em todas as estações", mais parecido com os climas úmidos subtropicais típicos do centro-oeste ou sudeste dos EUA.
Um clima mais quente e úmido levaria as espécies que hoje habitam o sudeste dos EUA a se deslocarem para o norte, sendo relocadas, também, doenças.
"Caso esses novos residentes sejam portadores de doenças (por exemplo, mosquito tigre asiático e vírus do oeste do Nilo), as áreas urbanas podem vir a sofrer aumento das epidemias."
Na prática, a mudança climática esperada significa que os americanos teriam que dirigir cerca de 1.000 km para chegar a uma cidade com clima semelhante ao da sua cidade hoje em dia.
Nem todos nos EUA apoiam a luta contra a mudança climática. Donald Trump, que retirou os EUA do Acordo de Paris em 2015, contestou um relatório do governo dizendo que a economia nacional sofreria centenas de bilhões de dólares até o final do século devido à crise climática.

Quantos dias de férias são necessários para desconectarmos de verdade?

Praia de Ipanema.
 
Todo mundo gosta de férias. Todos nós, evidentemente, preferimos não madrugar – ao menos não por obrigação –, ter mais tempo livre para fazer o que gostamos, com a sensação de aproveitarmos muito mais os dias do que quando os passamos quase inteiros trancados no escritório. Mas as férias não são só um capricho, e sim uma necessidade real, não só para a produtividade, mas também para nosso bem estar físico e mental.

Assim, alguns estudos insistem que as férias são importantes para a saúde cardiovascular e para melhorar os níveis de cortisol e a pressão arterial, entre outras coisas. Da mesma maneira, o coach e palestrante norte-americano Joe Robinson afirma em seu livro Work to Live (trabalhar para viver) que “somos máquinas de energia. Devemos repor a energia que consumimos”. Desse ponto de vista, entende que “ansiamos psicologicamente pelas férias, porque nossos neurônios desejam acima de tudo duas coisas para obter a plenitude em longo prazo: novidades e desafios. As férias oferecem ambas as coisas em abundância”.

Mínimo uma semana

Mas quantas férias são necessárias, e a cada quanto tempo? Segundo um estudo realizado pela empresa Randstad na Espanha, 62% dos entrevistados precisavam de menos uma semana para se esquecer da sua rotina de trabalho, enquanto outros 38% necessitavam de pelo menos duas semanas ou mais para realmente trocar o chip. Embora esses dados sejam gerais, variam segundo alguns fatores como o grau educacional e o sexo.
Assim, por exemplo, parece que as mulheres têm um pouco mais de dificuldade para desconectar que os homens e, de fato, necessitam de mais tempo. Aproximadamente 41% delas afirmam necessitar de pelo menos duas semanas de descanso para desconectar, contra 35 % dos homens que dão essa resposta. Conforme se infere do estudo, pessoas com ensino superior completo têm mais dificuldade para desligar: 24% desses profissionais reconhecem que não conseguem se esquecer das suas obrigações trabalhistas durante as férias. Em seguida vêm os portadores de diploma técnico (12%), de ensino médio (9%) e do ensino fundamental (8%).

A cada quanto tempo é preciso tirar férias?

Sobre essa ideia, a coach Natalia Arango recorda que “não só é questão de tempo, mas sim da qualidade desse tempo. Você nunca teve um fim de semana sensacional com uma pequena viagem, da qual voltou renovado?”. Leve em conta que, às vezes, ajuda mais espaçar pequenas folgas do que esperar todo o ano para tirar um mês seguido de férias.
A coach também recorda que “quanto mais longo o período, maior o impacto da volta e, portanto, do processo de adaptação”. Por isso, na hora de decidir entre férias pequenas e mais frequentes ou longas e anuais, a especialista diz que isso dependerá da capacidade de adaptação das pessoas, já que “há muitas diferenças neste processo”. Por exemplo, se precisamos de um tempo para nos aclimatar ou não. “Tem gente que prefere esperar até o voo da madrugada, para aterrissar diretamente na mesa do computador e não perder tempo pensando que a vida boa acabou”, observa Arango.
É que, apesar de toda a dificuldade em nos desconectar, voltar à rotina é bastante fácil. Outro estudo, este desenvolvido por Jessica de Bloom, pesquisadora de psicologia da saúde da Universidade Radboud, na Holanda, concluiu que, embora “a saúde e o bem estar dos trabalhadores participantes no estudo tenham melhorado notavelmente durante as férias”, a maioria dos benefícios começa a desaparecer durante a primeira semana no escritório.

Aprender a descansar

A respeito disso, a psicóloga Yolanda Cuevas explica que o efeito das férias também depende de como foi o nosso descanso. “Férias não significa ir até o outro lado do mundo para apanhar aviões e andar de um lado para o outro. Férias é parar, descansar e desconectar. É preciso diferenciar entre fazer turismo e ter férias. Se nas minhas férias tiro uma semana para ficar gastando sola de sapato num lugar, talvez me desconecte, mas não descansarei. Preciso de outra semana para descansar e me aclimatar à volta.”
Outra ideia importante é se realmente desligamos durante as férias ou se as novas tecnologias nos mantêm amarrados ao escritório. Diante desse novo desafio do mundo trabalhista – que seu chefe possa localizá-lo em qualquer ponto do planeta –, Cuevas insiste em que “é preciso voltar a aprender a desconectar”. “Hoje em dia”, prossegue, “tanta facilidade de conexão dificulta nossa fuga do mundo trabalhista, mas sem essa desconexão necessária não conseguiremos descansar e não recarregaremos as baterias”.
Desta forma, ela propõe alguns conselhos como:
- Avisar os colegas ou clientes (com um email, por exemplo) que nossas férias começaram, já que assim evitaremos, na medida do possível, que nos escrevam com assuntos que não sejam urgentes.
- Organizar nosso trabalho com antecedência, para deixar resolvidos todos os assuntos, sem pendências para rondar a nossa cabeça durante as férias ou nos escravizar depois da volta.
- Não somos imprescindíveis. Não é necessário checar o email constantemente nem escrever para os colegas e chefes perguntando se está tudo bem. Eles conseguem sobreviver sem nós. Também devemos pensar que, quanto mais descansarmos, mais produtivos seremos para a nossa empresa quando voltarmos.
- É verdade que, com o celular, temos mais facilidade de checar o email, mas a ideia é deitar numa rede, não ficar em rede. Se tivermos que fazer alguma tarefa imprescindível, é melhor marcar um horário, para que não se misture com o nosso descanso.
- As férias não servem (apenas) para resolver assuntos pendentes que não conseguimos arrematar durante a época de trabalho. São para mudar de rotina e de atividades. Faça coisas novas, deleite-se com as comidas, tome um vinho junto à lareira, passeie, pratique esportes, leia, aprenda algo novo, dedique-se mais aos amigos, à família e ao seu cônjuge, e não fique remoendo o que precisa fazer quando voltar. Se fizer isso, seu corpo estará de férias, mas sua mente, não. Centre-se no seu agora, faz tempo que você deseja ter esses dias, então as aproveite de verdade. Se não, você se verá na sua mesa de trabalho revivendo as férias pelas fotos no celular, arrependendo-se de não ter estado lá realmente.
EL PAÍS

O apetite humano ameaça a megafauna que resta

Secagem de barbatanas de tubarão no telhado de uma edificação na China.
 
Para os imperadores chineses da dinastia Song (960-1279 desta era) a sopa de barbatana de tubarão já era uma iguaria. Na qualidade de um prato influía a dificuldade de obter seus ingredientes, e capturar um esqualo perigoso devia ser uma grande oferenda ao imperador. Além disso, acreditava-se em uma espécie de transmutação, pela qual a força e a ferocidade do animal passavam para quem comia sua carne. Tais atavismos transformaram este prato em um símbolo de status. Até recentemente, na China, todos os casamentos, jantares de negócios ou banquetes oficiais que se prezassem deveriam incluir sopa de barbatanas de tubarão. E mesmo considerando que esses adendos têm pouco sabor e o principal ingrediente do caldo é o frango.
Cerca de trinta espécies de tubarões, peixes-serra, tubarões-martelo e outros peixes cartilaginosos estão ameaçados de extinção por causa do desejo de muitos chineses de agradar a seus hóspedes. De acordo com um estudo recente sobre ameaças à megafauna, eles fazem parte do grupo dos grandes vertebrados mais perseguidos. Existem cerca de 200 espécies de animais de grande porte que estão perdendo população e 150 delas estão em risco de extinção por culpa de vários apetites humanos.
"Nosso estudo mostra que, além da perda ou degradação do habitat, a caça direta por humanos é a maior ameaça para os maiores animais do mundo", diz o professor de ecologia da Universidade do Estado do Oregon (EUA) e principal autor do estudo, William Ripple. "Há muitas causas pelas quais os humanos estão matando a megafauna." Às vezes, é para subsistência, às vezes para interesses comerciais, em outras, para fins medicinais ou simples hobby, às vezes a morte é intencional e às vezes não intencional, por captura acidental", acrescenta.
A investigação, publicada na Conservation Letters, catalogou como megafauna os mamíferos e peixes de mais de 100 quilogramas e os anfíbios, répteis e pássaros que excedem 40 quilos. Encontraram um total de 292 espécies com dados suficientes sobre o seu estado de conservação e seus riscos principais. Seus resultados mostram que 70% das espécies de megafauna estão perdendo população e 59% estão ameaçadas de extinção, com algumas em risco crítico. Dois dados confirmam que os seres humanos se nutrem dos maiores animais: entre as espécies de todos os tamanhos, metade perde população e um quinto está ameaçada.
Entre a dezena de ameaças, além da perda de habitat, os pesquisadores analisaram o impacto de espécies invasoras, poluição, desmatamento, avanço da agricultura, mudanças climáticas ... Embora muitas espécies sofram impactos de várias frentes, a caça está presente em 98% das ameaçadas. O item caça também inclui pesca.
“O consumo é muito grave. Inclui um enorme tráfico ilegal de subsistência e comercial para os mercados legais e ilegais", diz o pesquisador Gerardo Ceballos, do Instituto de Ecologia da Universidade Nacional Autônoma do México e coautor do estudo. "É parte do que chamamos de 'aniquilação da natureza'. A maior parte deste consumo se deve a dois fatores: a miséria em que vive um grande número de pessoas no planeta e a ganância das máfias, principalmente asiáticas (chinesas), que dominam o mercado negro.”
Há espécies caçadas por sua carne, pele, penas e até mesmo os ovos, como o avestruz somali, colocado em extremo perigo pela caça de subsistência. Em outras, a condenação está em seus ornamentos, e isso vem de longe, como acontece com elefantes e rinocerontes. Mas é a comida, geralmente de pratos supostamente requintados, que está matando muitos dos poucos animais de grande porte que restam. Entre essas iguarias está a carne da salamandra-gigante-da-China, o único anfíbio da lista, o único grande anfíbio que resta.
“A situação das populações da salamandra-gigante-da-China é absolutamente crítica", diz Samuel Turvey, pesquisador do Instituto de Zoologia da Sociedade Zoológica de Londres. Autor de vários livros sobre extinções causados por humanos, Turvey participou entre 2013 e 2016 de uma extensa campanha para conhecer o status desse anfíbio. Foram realizados estudos de campo em 97 condados da China e entrevistados cerca de 3.000 moradores. "Não encontramos nenhuma salamandra gigante na natureza", diz o zoólogo britânico, que não tomou parte do estudo da megafauna. As únicas que eles viram foram espécimes fugidos de fazendas onde são criadas como gado.
Embora este animal esteja há muito tempo sob risco de extinção, de acordo com a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, as autoridades chinesas ainda não proibiram sua captura (fora das áreas protegidas) e seu consumo. Talvez o caso dos tubarões possa servir como referência: com eles a pressão sobre a oferta parece não funcionar, mas, sim, as ações para reduzir sua demanda.
Na maioria dos países, e também na China, a pesca de algumas espécies é proibida, mas não a de outras, e as barbatanas dos tubarões são muito parecidas com as de outros animais. Uma pesquisa recente da Universidade de Hong Kong, principal porto e mercado desses apêndices, mostrou que pelo menos um terço das barbatanas pertencia a espécies que aparecem ameaçadas na Lista Vermelha.
"Os dados apontam que as capturas mundiais de tubarões superaram um milhão de toneladas por ano, mais do que o dobro de seis décadas atrás. Esta superexploração ameaça hoje quase 60% das espécies de tubarões, a maior proporção entre todos os vertebrados", disse em uma nota a bióloga Yvonne Sadovy, da universidade da ex-colônia britânica.
“A exclusividade de um produto natural combinada com a sua reduzida disponibilidade em liberdade aumenta seu preço e o torna um produto atraente para as redes de negócios, incluindo o extenso tráfego ilegal, que se mostrou muito difícil de ser controlado pelas autoridades", acrescentou.
No entanto, de acordo com estatísticas oficiais, o consumo de barbatanas de tubarão na China caiu 80% nos últimos anos. De acordo com um relatório da organização ambientalista e ativista WildAid, a importação dessas partes do animal teve redução similar. Em um contexto em que tanto a Europa quanto os Estados Unidos perseguem esse comércio, a pressão das organizações conservacionistas levou o Governo chinês a retirar a sopa de tubarão de seus banquetes oficiais. As campanhas contra este prato por parte de organizações como a WildAid decolaram com os Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. Hoje as principais redes hoteleiras o tiraram de seus cardápios e começa a ser malvisto festejar o casamento com este caldo.
A solução, portanto, poderia estar no combate à demanda com a arma da educação. Peter Knights, CEO da WildAid, explica: "Nossas campanhas, apoiadas pelas mídias governamentais e lideradas por ícones como Yao Ming [ex-jogador da NBA] e outras celebridades chinesas mudaram as atitudes do público em relação às barbatanas de tubarão. Quando as pessoas estão informadas sobre o declínio das populações de tubarões e seu impacto sobre a saúde dos ecossistemas marinhos, e descobrem a crueldade na forma de capturá-los, a sopa dá mais vergonha do que prestígio.”
El País

Jantar só frutas e outros mitos sobre a última refeição do dia

Françoise Hardy e Jean-Claude Brialy em 'Castelo na Suécia' de 1963.

Pular, eliminar nutrientes ou evitar certos alimentos são práticas disseminadas em relação ao jantar. Três especialistas nos orientam para manter hábitos saudáveis sem abrir mão de nada.

Dietas rígidas para manter o peso ideal, truques para que o jantar (ou a falta dele) ajude a emagrecer, nutrientes proibidos nas últimas horas do dia... Todo mundo tem uma base de crenças estabelecida sobre a ingestão de alimentos antes de dormir. E os especialistas advertem: a maioria é falsa. Com a ajuda deles, desmontamos, ponderamos e analisamos alguns dos mantras mais comuns sobre o assunto.
Falso. “Apesar da inatividade física, enquanto dormimos o corpo está realizando um gasto calórico pelo simples fato de executar as funções vitais, ou seja, o metabolismo basal”, explica Silvia Moreno, nutricionista. “À noite, o organismo se ajusta e precisa de energia”, diz a médica Beatriz Beltrán, do Centro Médico que leva seu nome. “Na fase REM [Rapid Eye Movement, fase do sono na qual ocorrem os sonhos mais vívidos], o cérebro permanece ativo, às vezes mais do que na vigília”, acrescenta. De fato, a Sociedade Torácica dos Estados Unidos descobriu, em um estudo de acompanhamento que durou 16 anos, que as mulheres que dormiam cinco horas tinham 32% a mais de probabilidade de aumentar de peso do que as que dormiam sete horas.

Pular o jantar ajuda a emagrecer.
De forma sistemática, não. “Ao não consumir alimentos, alongamos o tempo de jejum e entramos em um período catabólico: o metabolismo se acelera e, portanto, perdemos peso”, afirma Salvador Ferrando, responsável pela Unidade de Medicina Metabólica e de Controle de Peso do Instituto Médico Ricart. No entanto, mantê-lo ao longo do tempo pode não ser benéfico. “Certamente estamos deixando de ingerir parte da proteína que essa refeição conteria, o que causa um desequilíbrio na dieta e pode desembocar em perda de massa muscular”, adverte Moreno. Sua recomendação: adiantar o horário do jantar.

Nem jantar só frutas emagrece...
Levado ao extremo, o frugivorismo tende a seguir uma dieta baseada exclusivamente nesses alimentos. Também há muitos regimes nas redes que prometem acabar com quilos extras: a dieta do melão, a do abacaxi... E algumas transferem isso ao jantar como hábito. “É um erro comum e grave”, opina Beltrán. “As frutas são açúcares que rapidamente se acumulam em forma de gordura.” Ferrando recomenda preferir as verduras de folhas escuras, desde que o plano dietético do restante do dia esteja equilibrado.

... nem deve ser evitado a todo custo.
No outro extremo estão os que a condenam pelas ressalvas anteriores. “É um tipo de alimento muito saudável, que contribui com uma grande quantidade de vitaminas, minerais e líquidos em qualquer refeição, desde que se coma inteira e não como suco”, pondera Moreno. “Além disso, por conter muita fibra, ajuda a saciar e a manter o apetite sob controle.”
 
Um jantar leve ajuda a manter o peso.
Correto. “Sempre é recomendável fazer jantares leves, com alimentos não processados e que ajudem a não ultrapassar a exigência calórica diária”, corrobora Moreno.
Deitar-se logo após o jantar dificulta pegar no sono.
Depende. “Se jantamos alimentos pesados, de difícil digestão, ou consumimos álcool ou cafeína, provavelmente será difícil conseguir um descanso adequado”, acredita Moreno. Para Beltrán, o aconselhável é deixar passar duas horas antes de ir para a cama para digerir os alimentos. Se não for possível, a solução é um jantar leve.

Devemos evitar os carboidratos.
“Arroz integral não é a mesma coisa que donuts”, compara Beltrán, que mesmo assim recomenda restringi-los o máximo possível. “Não seria um problema consumi-los na forma de frutas, verduras e cereais como massa e arroz, desde que o preparo seja saudável”, acrescenta Moreno. Molhos muito leves e evitar frituras e refogados permite incluir esses nutrientes à noite sem problemas.
 
Alface dificulta a digestão à noite.
Depende de cada organismo. “Não há base científica que demonstre isso, mas há pessoas que afirmam notar digestão pesada e gases quando ingerem verduras cruas à noite”, afirma Moreno. Beltrán explica: “A alface tem um alto conteúdo de fibras insolúveis e pode causar inchaço abdominal”.
 
Ingerir carne à noite não cai bem.
Depende do acompanhamento. “Recomendo com verduras, mas nunca com féculas ou batata, pois a combinação torna os dois indigestos”, revela Beltrán. Também se deve evitar se houver contraindicação médica, e fugir de processados e embutidos, apostando em carnes brancas. Ferrando, no entanto, avisa: “Como os ovos, é mais rica em aminoácidos que podem incentivar a secretação de dopamina e alterar nosso sistema nervoso. O peixe, por sua vez, contém triptófanos que ajudam a regular o sono.”

Jantar mais tarde do que o normal engorda mais.
Falso. A queima de calorias não depende tanto da hora de ingestão, mas do tempo transcorrido entre a última refeição do dia e a primeira do dia seguinte. “O ideal seria deixar um período de tempo de cerca de 12 horas entre jantar e café da manhã”, afirma Ferrando.
 
É melhor comer um prato só e evitar sobremesas.
Como em todos os nutrientes, depende. Para Ferrando, “se o prato contém tudo de que necessitamos em uma refeição, é suficiente; se faltam proteínas ou outras substâncias, deveríamos completar com outras porções”. “Minha recomendação é dividir o prato em 60% de carboidratos como verduras, 20% de proteínas e 20% de gorduras”, detalha Beltrán. “Se comermos sobremesa, é melhor evitar os preparados lácteos e escolher uma fruta ou um iogurte com baixa taxa de açúcar”, diz Moreno.
 
É bom substituir o jantar por uma vasilha de cereais ou leite com biscoitos.
Falso. “Esse tipo de jantar contém uma alta carga glicêmica que favorece o aumento de peso”, afirma Ferrando.

Se saio para jantar fora e me excedo, devo comer menos no dia seguinte.
Falso. “Nada acontece se for pontual e estiver dentro dos limites da alimentação saudável”, afirma Moreno. Durante o dia, devem ser comidos todos os nutrientes necessários e não reduzi-los devido a um consumo excessivo um dia antes, pois podemos gerar desequilíbrio.
El País

A Oportunity provavelmente morreu em Marte, e estes cientistas quiseram dar seu adeus à sonda

 
Uma brutal tempestade de poeira engoliu Marte no ano passado. A tempestade que afetou todo o planeta poupou a sonda Curiosity, movida a energia nuclear, mas a Opportunity, mais antiga e movida a energia solar, se desligou quando a poeira espessa bloqueou a luz do Sol. A Opportunity está em silêncio desde 10 de junho de 2018, apesar das centenas de tentativas da NASA de contatá-la. Quando uma temporada de ventos em Marte começou em novembro, os cientistas esperavam que as rajadas de vento pudessem limpar os detritos de seus painéis solares, mas essa esperança parece ter sido em vão. A NASA continua enviando comandos de recuperação, mas, infelizmente, parece que a missão Opportunity chegou ao fim
Ao mesmo tempo, 2019 representa um marco histórico para o rover, que atingiu oficialmente seu 15º ano em Marte no dia 25 de janeiro. Isso excede em muito a expectativa de vida inicial, de 90 dias. Junto com o rover Spirit, cujo fim veio em 2010, a missão Mars Exploration Rover (MER) marca um dos mais importantes programas científicos da era moderna, encontrando evidências de que Marte já esteve coberto de líquidos e enviando imagens icônicas da superfície do planeta
Em homenagem ao 15º aniversário da Opportunity, e com o entendimento de que podemos nunca mais ouvir falar do rover novamente, pedimos a alguns cientistas da missão MER e de outros lugares para compartilhar seus pensamentos e memórias sobre a Opportunity, a Spirit e seu legado.

Steve Squyres, investigador principal da Mars Exploration Rover Mission (MER) e professor na Universidade Cornell: 
Ainda não desisti. Temos uma lista de coisas para tentar e não terminaremos até tentar tudo. Mas estamos chegando ao fim da lista, então é um momento apropriado para começar a pensar sobre essas coisas. Quanto a como nos sentimos, nos sentimos bem... É uma morte honrosa. (Os rovers) Não são imortais. Você sabe que vai perdê-los mais cedo ou mais tarde. Para que uma missão de 90 dias dure 15 anos e então termine como consequência de uma das mais ferozes tempestades de poeira que atingiu Marte em muito tempo, podemos ir embora de cabeça erguida. A missão excedeu em muito o que eu poderia ter esperado.
O legado é sólido... O legado é o legado tanto da Spirit quanto da Opportunity, e o espírito e o legado da equipe que os construiu em primeiro lugar, a equipe de engenheiros, cientistas, gerentes, líderes e financeiros. O motivo do sucesso é o que eles fizeram há 15 anos. É a eles que o crédito pertence.
Sobre o legado científico, Marte acabou sendo um lugar muito mais interessante do que eu esperava. (A missão) Mudou a forma como os humanos olham para Marte. As três aterrissagens que precederam as nossas foram todas nessas terras planas e estéreis — de propósito — porque eram os lugares mais seguros para aterrissar. Era apenas o terreno conhecido. Foi isso que me deixou tão entusiasmado por fazer uma missão de rover. Temos esses pequenos rovers cênicos que escalaram montanhas e desceram em crateras. Marte se tornou um lugar realmente cênico, bonito e interessante, no sentido de que você pode imaginar estar lá e andar nas trilhas dos rovers e ver o que eles viram. Isso muda a nossa perspectiva.
A terceira parte do legado é o efeito que essas missões tiveram nas crianças. Um dos sonhos que cultivo com mais carinho, e eu sei que isso provavelmente aconteceu, é que uma criança de 8 anos tenha assistido à televisão em 2004 na noite em que aterrissamos e tenha pensado: "Nossa, eu acho isso legal, mas eu posso fazer melhor". Vejo evidências de que a missão fez isso até certo ponto, inspirando jovens a seguir carreiras em ciência, engenharia e tecnologia com seus próprios sonhos.



Kirsten Siebach, geólogo planetário, Universidade Rice:
Aqueles rovers foram os pioneiros. Eles tiveram um impacto enorme. Ter a Opportunity em Marte significou que temos novas imagens da superfície de outro planeta desde que eu estive no ensino médio. Nossa compreensão de Marte se expandiu, e eu acho que isso sempre manteve um nível de excitação e interesse. Tem sido uma inspiração para aqueles de nós que trabalham com Marte, estudantes e qualquer pessoa no público que nos acompanhe. Torna Marte acessível e próximo.... Penso que o legado é importante para a ideia de exploração e para motivar uma geração a pensar que estamos tão perto de outro planeta e que continuamos a explorar o Sistema Solar e a aprender coisas novas todos os dias....
Todos falam da incrível engenharia que nos permite ter um robô andando em outro planeta sem um mecânico, em condições absurdas durante 15 anos. É um feito incrível. Mas, para mim e para as pessoas da equipe, tem todos esses 15 anos. Havia pessoas aqui na Terra em equipes de ciência e engenharia que se reuniam três a cinco vezes por semana, abordando o progresso do dia anterior e programando cuidadosamente o que o Opportunity faria no dia seguinte. Para essa equipe, é mais do que apenas um robô, e vamos sentir falta dele... Foi muito divertido trabalhar nisso, estamos felizes por ter sido tão bem-sucedido. E esse nível de poeira foi definitivamente uma morte honrosa se não tivermos notícias dele novamente.

Kevin Lewis, professor assistente na Universidade Johns Hopkins: 
Espero que a Opportunity volte a funcionar! Eu estava na equipe MER durante a pós-graduação (2003-2009), o que é um testemunho de quanto tempo a missão durou — 15 anos é aproximadamente três PhDs concluídos! A Opportunity estava fazendo um grande trabalho científico até perder o contato, explorando novas unidades de rocha que nunca deveria ter sido capaz de alcançar por seus parâmetros originais de projeto. Tanto a Spirit quanto a Opportunity revolucionaram totalmente a forma como fazemos ciência em Marte, e é seguro dizer que não teríamos a Curiosity sem os esmagadores sucessos da missão MER. A Spirit e a Opportunity *figurativamente* prepararam o caminho para a Curiosity e para os futuros viajantes do Sistema Solar por meio das suas conquistas técnicas e científicas revolucionárias.
Tanya Harrison, cientista planetária e diretora de pesquisa da Iniciativa de Ciência e Tecnologia Espacial da Universidade Estadual do Arizona e colaboradora da equipe científica da Mars Exploration Rover Opportunity: 
A Opportunity superou todas as expectativas que tínhamos. Ela desvendou o mistério do sinal de hematita detectado por orbitadores antes dela, nos ensinou sobre as condições aquáticas e ventosas do passado em Marte e foi mais longe do que qualquer outro rover além da Terra. Não importa o que o Planeta Vermelho parecia jogar para ela, ela e sua inteligente equipe de engenheiros conseguiram encontrar uma maneira de contornar isso — até esta última tempestade de poeira global. Mas é justo que a coisa que finalmente foi capaz de tirar (de serviço) a Oppy tenha sido a tempestade de poeira mais forte que já observamos em Marte. Agora, ela pode descansar, sabendo que deixou a humanidade orgulhosa como nossa pequena emissária robótica.

Ashwin Vasavada, cientista de projeto do Mars Science Laboratory/Curiosity Rover no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA:
O rover Opportunity foi uma inspiração real para mim durante o desenvolvimento do rover Curiosity, porque mostrou como um geólogo de campo virtual poderia de fato montar a história de um ambiente antigo estudando o registro mantido nas rochas. Águas antigas fluindo pela superfície, lagos secos entre dunas, águas subterrâneas ensopando as rochas, coisas tão boas... Tudo isso me manteve ativo durante os dias mais difíceis de levar a Curiosity para Marte.
 

Emily Lakdawalla, editor sênior de The Planetary Society:
A Spirit e a Opportunity realmente abriram um novo caminho para a comunicação pública sobre uma missão de ciência ativa quando Steve Squyres e Jim Bell tomaram a decisão de tornar todas as imagens disponíveis ao público quando chegaram à Terra. Eles queriam ter certeza de que os estudantes pudessem trabalhar com os dados e que eles não precisassem estar em algum servidor protegido por senha.... Jim e Steve disseram: "Não, queremos que o público aproveite a aventura da mesma forma que nós." Essa decisão foi tão visionária. Ela criou essa enorme comunidade internacional de pessoas que foram capazes de seguir o sonho diário de explorar outro planeta por meio dos olhos da Spirit e da Opportunity. As pessoas faziam mosaicos e animações, discutiam as rochas que estavam vendo e o que a equipe científica estava fazendo. Em muitos casos, pessoas na Europa viam as imagens antes de a equipe americana acordar — Squyres gosta de checar esses fóruns porque era mais fácil de lidar (do que o servidor).
A equipe da Cassini não tinha planos de compartilhar suas imagens dessa forma. O Laboratório de Propulsão a Jato da NASA (JPL), tendo visto a missão Mars Exploration Rover, disse: ok, vamos compartilhar as imagens da Cassini também. Muitas outras missões seguiram seus passos — todas as missões aterrissadas em Marte, como Curiosity, Phoenix e InSight. Ela influenciou a Agência Espacial Europeia a ser mais aberta com os seus dados de imagem — sua estrutura é diferente da estrutura da NASA, uma vez que as instituições constroem e fornecem as câmeras —, mas foram capazes de começar a partilhar uma câmera chamada VMC, que compartilha imagens (de Marte) assim que elas chegam à Terra, e a Rosetta partilhou as suas imagens de NavCam muito rapidamente. (As missões) Juno e New Horizons compartilharam seus dados muito rapidamente.... Isso teve uma profunda influência na forma como as missões compartilhavam seus dados com o público.
Acho interessante que, quando a Opportunity inicialmente ficou em silêncio, muitas pessoas estavam prontas para descartá-la instantaneamente. Isso pode ter sido uma coisa mais pragmática de se fazer, mas não levava em conta o sentimento das pessoas que mantiveram essa nave espacial viva por tanto tempo. Acho que é necessário para a equipe esgotar todas as possibilidades para que eles possam sentir algum encerramento na missão. Com certeza, alguns deles não querem desistir... É preciso um grande investimento emocional para manter essas missões acontecendo. Acho que espero que a Opportunity nos surpreenda e volte. Suponho que provavelmente não vai acontecer e sinto muito pelos engenheiros por sua perda. As pessoas vão precisar de tempo para lamentar e perceber que é emocionalmente difícil.

Abby Fraeman, cientista adjunta de projeto do rover Opportunity no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA: 
Sentirei falta, antes de mais nada, de interagir com a equipe regularmente. Essas pessoas estão trabalhando nessa missão há muito tempo, e, mesmo que pessoas tenham saído e outras tenham entrado, há uma sensação realmente maravilhosa de camaradagem. Consigo reconhecer todos pela voz. Sei que podemos confiar nas pessoas quando nos deparamos com desafios ou questões científicas difíceis. É muito divertido trabalhar com todos esses problemas com as pessoas envolvidas. Também vou sentir falta de acordar todas as manhãs e ver o que o rover enviou, quais são as fotos mais recentes. Todos os dias você pode ver algo que nenhum humano jamais viu antes.
Eu tenho uma história muito pessoal com o rover. Eu estava no ensino médio quando a Spirit e a Opportunity aterrissaram. Havia um programa dirigido pela The Planetary Society chamado Programa Astronauta Estudante, que levava estudantes do ensino médio para o JPL para estarem lá na noite em que o rover pousou. Eu estava lá na noite em que a Opportunity pousou, e foi uma experiência incrível que me inspirou a entrar na ciência planetária.
A maneira como tanto a Spirit quanto a Opportunity transformaram a ciência (em torno) de Marte foi muito profunda... Isso nos deu uma nova perspectiva sobre o planeta que não tínhamos no ano 2000. Os rovers foram enviados para seguir a água, e, antes de irmos para lá, não tínhamos nenhuma evidência definitiva de que tivesse havido água líquida em Marte no passado. Foram as primeiras imagens da Oppy, e mais tarde as da Spirit, que foram provas incontestáveis de que Marte teve um clima diferente que podia abrigar água líquida na superfície. Isso abriu um novo espaço de parâmetros para perguntas que poderíamos fazer sobre a evolução de Marte. Essas perguntas foram respondidas pelo rover Curiosity, um rover novo, maior, com instrumentos mais sofisticados, e algumas delas serão respondidas pelas missões de retorno de amostra; algumas perguntas precisarão de missões futuras para serem respondidas. Nem sequer sabíamos que perguntas fazer antes de termos os resultados da Spirit e da Opportunity.
Só estou feliz por ter durado tanto tempo quanto durou. É uma celebração pelo sucesso e pioneirismo dessa missão.
 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Dois terços das geleiras do Himalaia podem derreter até 2100

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Um terço das geleiras do Himalaia pode derreter até o fim do século em razão das mudanças climáticas, que ameaçam as fontes de água doce para cerca de 1,9 bilhão de pessoas, mesmo que os atuais esforços para reduzir o aquecimento global funcionem. Mas se essas ações falharem, o impacto pode ser ainda pior: dois terços das geleiras da região poderão derreter até 2100.
As informações são de um estudo publicado na segunda-feira, 4, pelo Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado de Montanhas. "O aquecimento global está a caminho de transformar os glaciares, os picos das montanhas cobertas por geleiras da região do Hindu Kush e Himalaia", disse Philippus Wester, do Centro, que liderou as pesquisas.
O estudo foi realizado durante cinco anos e observou os efeitos das mudanças climáticas na região que passa por Afeganistão, Paquistão, Índia, Nepal, China, Butão, Bangladesh e Mianmar. A área, que inclui algumas das montanhas mais altas do mundo, tem geleiras que alimentam sistemas fluviais como os rios Indo, Ganges, Yangtzé e Mekong.
As pesquisas apontam que o impacto do derretimento pode variar de inundações causadas pelo aumento de escoamento a uma elevação dos níveis de poluição do ar em razão do carbono negro e
Segundo um estudo recente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, as emissões de gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono, precisariam ser reduzidas a um nível que o planeta consegue absorver - conhecido como net-zero - até 2050 para manter as temperaturas globais em 1,5°C, como previsto no acordo.
O Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado de Montanhas disse que o estudo contou com o trabalho de mais de 350 pesquisadores e especialistas de 22 países. 

Até o fim do século, a cor da Terra vai mudar

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Os oceanos são azuis porque as moléculas de água refletem luz do comprimento de onda corresponde à cor azul, absorvendo o resto. Outras coisas, como os animais, algas e bactérias que vivem no oceano, refletem luz de outras cores, o que é capaz de alterar ligeiramente o resultado cromático final (afinal, os oceanos são realmente repletos de seres vivos).
Um dos grandes coadjuvantes na definição da cor dos oceanos – e, por tabela, da aparência da Terra vista do espaço – é o fitoplâncton: o nome genérico dado a um conjunto abundante de organismos microscópicos que fazem fotossíntese e fornecem boa parte do oxigênio que nós respiramos. Eles são esverdeados, graças à clorofila.
Uma pesquisa divulgada pelo MIT nesta segunda-feira (4) e publicada no periódico Nature Communications procurou prever, usando uma simulação computadorizada, de que maneira as mudanças climáticas vão interferir nas comunidades de fitoplâncton dos oceanos, mudando, desta forma, a cor do planeta como um todo. 

A principal conclusão foi que, até 2100, mais de 50% dos oceanos terrestres terão mudado ligeiramente de cor graças às alterações no clima. O azul das regiões azuladas se tornará mais profundo, e o tom ligeiramente esverdeado presente nas regiões mais próximas aos polos se tornará mais verde. 
Os cientistas não estão preocupados com o que possíveis alienígenas vão pensar da paleta de cores do nosso planeta, é claro. A ideia é usar as mudanças de cor para conseguir avaliar como o aquecimento global está afetando o fitoplâncton. Esses microorganismos fotossintetizantes ocupam diferentes faixas de água de acordo com a temperatura a que estão acostumados. Os que gostam de calor ficam mais próximos da superfície, os que preferem o frio afundam para profundidades maiores.
Conforme as águas se aquecem, os que gostam de frio morrem, os que gostam de calor se proliferam, a natureza da reflexão da luz muda e a Terra, em última instância, fica ligeiramente diferente vista de longe. Simulando um aumento de 3ºC na temperatura até 2100 (que os cientistas esperam que acontecerá se pouca coisa mudar em nossas emissões de gases estufa), os comprimentos de onda que serão mais intensificados serão justamente os azuis e os verdes. “O legal desse modelo é que podemos usá-los como um laboratório, um lugar para experimentar e ver como nosso planeta vai mudar”, disse Dutkiewicz.
O mais preocupante são as consequências ecológicas. “Pode ser potencialmente bem sério”, alerta Dutkiewicz. “Pois também vão mudar as cadeias alimentares que eles suportam.” Em outras palavras: o fitoplâncton é um negócio importante. A mudança de cor pode significar que a ecologia dos oceanos foi alterada, com alguns organismos se reproduzindo descontroladamente e outros entrando em extinção. Torça para a Terra ficar da cor que está.
 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

As pessoas congeladas criogenicamente vão voltar a viver?



O congelamento de cadáveres não se tornou exatamente popular, mas a maioria das pessoas já está familiarizada com o conceito: você arruma uma tonelada de dinheiro, assina alguns papéis e passa algumas décadas de pós-morte em um congelador, aguardando calmamente as condições para o seu eventual retorno dos mortos. 
Mais de 300 americanos congelados e mortos - ou cérebros americanos congelados e mortos, dependendo de qual procedimento eles optaram (corpo inteiro ou somente cérebro) - podem ser encontrados atualmente em instalações de armazenamento em todo o país. Todos eles fizeram uma aposta – de pouco risco no sentido metafísico: o pior cenário seria apenas a continuação da sua morte.
Por enquanto, esse também é o único cenário possível. Só o tempo dirá se esses otimistas extremamente mortos voltarão um dia para ficarem de novo presos no trânsito ou vagar pelo ciberespaço com seus cérebros de inteligência artificial. Mas podemos pelo menos começar a imaginar quando - ou se - esse dia chegará. Para o Giz Pergunta desta semana, nós contatamos vários neurocientistas, bioeticistas, defensores da criogenia e céticos para ter uma noção do que acontecerá aos humanos congelados. Honestamente, ainda não parece que está na hora – mas uma das principais coisas do futuro é que ele mostra como o passado pode estar errado, então, quem sabe!

Dr. João Pedro de Magalhães - Biólogo da Universidade de Liverpool e coordenador da Rede de Pesquisa de Criotomia e Criopreservação do Reino Unido

Eu diria que, com a tecnologia de hoje, a criônica danifica gravemente as células do corpo. Mesmo sob condições ótimas (isto é, o procedimento começando logo após a morte), há vários problemas. Em particular, os agentes crioprotetores têm efeitos tóxicos nos tecidos humanos na exposição prolongada. Vitrificar grandes órgãos como o cérebro também pode resultar em fraturas devido a diferentes taxas de resfriamento em diferentes partes. Em condições não ideais (ou seja, se um tempo significativo transcorrer entre a morte e ser criopreservado) muito mais danos podem ocorrer porque as células começam a morrer, e as células cerebrais em particular começam a morrer minutos após a parada cardíaca, devido à falta de nutrientes e oxigênio (isso chama isquemia). Portanto, serão necessários enormes avanços científicos em áreas como engenharia de tecidos e medicina regenerativa para deixar os indivíduos criopreservados vivos e saudáveis ​​novamente.
Além disso, o reparo no nível molecular usando a nanotecnologia será necessário, mas isso permanece no reino da ficção científica. Dito isso, é impossível prever como a tecnologia irá progredir nas próximas décadas ou séculos. No momento, eu diria que as chances de indivíduos criopreservados serem revividos é baixa, mas não impossível. Então a resposta é que o pior resultado possível de ser criopreservado é permanecer morto, então a criônica nos dá uma chance de reviver no futuro que não existe se você for enterrado ou cremado.
Além disso, a criopreservação humana reversível e segura seria uma tecnologia revolucionária no campo dos cuidados críticos. Pacientes com doenças terminais, incluindo crianças, podem optar por ser colocados em crioestase até que uma cura seja descoberta. Em certo sentido, teríamos uma alternativa à morte, o que carrega profundas implicações filosóficas, éticas e médicas.

“As chances de indivíduos criopreservados serem revividos é baixa, mas não impossível”.

Mark Kline - Cofundador e CTO da X-Therma Inc., empresa que está melhorando o armazenamento a frio de células-tronco, tecidos e órgãos inteiros. 
Existem duas maneiras diferentes de congelar criogenicamente pessoas. Uma envolve congelar apenas o cérebro ou a cabeça - a ideia nisso é que há uma quantidade menor de tecido e você deve preservar a essência da pessoa. Também é mais barato e mais fácil. Mas armazenar a estrutura fundamental do cérebro e as conexões entre as células provavelmente será muito mais difícil. O outro método envolve o congelamento de todo o corpo, na esperança de que você possa ser revivido um dia, quando a tecnologia certa estiver disponível para curar suas doenças e reparar os danos do processo.
Há uma infinidade de problemas aqui, em ambos os casos. A coisa mais difícil de resolver é: como congelar as coisas sem danificá-las? Nós misturamos vários crioprotetores - como o anticongelante usado em carros, mas voltados para a biologia - em um esforço para evitar a formação de gelo dentro das células e dos tecidos. Mas você precisa reduzir drasticamente a temperatura - até cerca de -196 graus celsius, a temperatura do nitrogênio líquido. Evitar a formação de gelo a essa temperatura, através de um tecido muito grande, é muito, muito difícil. Quando o gelo se formar, ele vai cortar as células como uma faca - basicamente, vai passar uma lâmina pelos órgãos que você está tentando preservar. E depois há a dessecação: uma vez que você coloca esses produtos químicos em um órgão ou célula, faz com que a deixe as células e as resseque, o que danifica as conexões entre as células. Quando esse dano é causado, o reparo se torna quase impossível, já que as células não parecem reconstruir essas conexões adequadamente após serem congeladas. Pelo menos os pesquisadores enxergam muito pouco reparo da matriz.
Portanto, há o problema da química (prevenção do gelo), o problema da biologia (dano nos tecidos, dano na conexão), o problema da física (como você esfria uniformemente algo tão grande quanto um órgão? E como aquecê-lo uniformemente depois, sem danificá-lo?).
Eu acho que existem aplicações muito mais iminentes para a criopreservação, como a preservação de órgãos. Preservar órgãos tem um impacto de alto valor para o sistema médico, e também é muito mais viável do que preservar todo o corpo. Você pode salvar muitas vidas com a preservação de órgãos.

“A coisa mais difícil de resolver é: como congelar as coisas sem danificá-las?”

Nick Bostrom - Professor da Universidade de Oxford e diretor do Future of Humanity Institute e do programa Governance of AI. 

Tecnicamente parece que provavelmente funcionaria. O congelamento (melhor: vitrificação ou plastinação) e armazenamento nós somos capazes de fazer agora. A parte de retorno pode, contudo, precisar da assistência da superinteligência da máquina para reparar o extenso dano celular que ocorre durante o processo de suspensão.
Dennis Kowalski - Presidente, Cryonics Institute. 
A resposta cientificamente correta é que não sabemos, pois ninguém conhece o futuro e o que será possível. No entanto, é por isso que algumas pessoas se inscreveram para preservar seus corpos na temperatura do nitrogênio líquido, na esperança de que a futura tecnologia e medicina sejam capazes de responder a essa pergunta.
Assim como era impossível ressuscitar os mortos há 100 anos, eles acreditavam que novas técnicas como a ressucitação cardiorespiratória e a desfibrilação cardíaca, mudariam a definição do que significa estar morto.
Novas tecnologias avançando podem significar terapias avançadas de células-tronco guiadas por IA que regeneram tecidos que foram danificados pelo envelhecimento, pelo congelamento ou pela própria morte. A teoria das mudanças aceleradas de Ray Kurzweil sugere que, tecnologicamente, estamos avançando a um ritmo exponencial, e isso significa que coisas consideradas impossíveis há algumas décadas se tornarão realidade. Por exemplo: o celular no bolso que permite que você se comunique em todo o mundo em tempo real, sendo capaz de acessar todo o conhecimento humano ao seu alcance. No passado, esse dispositivo era chamado de bola de cristal e era considerado um mito. Parece provável, mas só o tempo dirá.
Cathal O'Connell - Pesquisador em bioimpressão 3D e biofabricação na BioFab3D e pesquisador do hospital St Vincent, Melbourne.
Todos os sinais apontam para não. O processo de congelamento é crítico. Fazer isso de uma maneira que preserve a função das células - especialmente em relação à conectividade no cérebro humano - está muito além das nossas capacidades atuais. Infelizmente, todo mundo que já foi congelado até agora foi basicamente transformado em mingau. Essas pessoas nunca serão revividas.
A criônica em sua forma atual é mais uma religião do que uma ciência. Em vez de uma entidade divina, seus seguidores depositam sua fé no progresso tecnológico - acreditando que os avanços futuros compensarão os terríveis danos causados pelas atuais técnicas de congelamento. Não há evidência ou indicação de que isso seja possível. Embora eu não duvide que seus profetas sejam bem intencionados, a criogenia contemporânea é essencialmente um sistema de crenças que proporciona conforto contra o medo da morte.
A capacidade de alguns organismos sobreviverem ao congelamento é um sinal da natureza que o que a criônica promete um dia poderia ser possível. Mas chegar lá exigirá um investimento maciço - bilhões de dólares, milhares de cientistas, décadas de pesquisa. Sem um claro incentivo econômico, esse investimento não está disponível. Como meu antigo professor dizia, uma visão sem financiamento é alucinação.
Pense que hoje em dia são necessárias algumas décadas e algumas centenas de milhões de dólares para desenvolver um novo tratamento médico. Os problemas enfrentados pela criogenia são pelo menos uma ordem de grandeza mais complexa. No momento que a humanidade os resolver, todos nós poderemos ser imortais.

"...imensamente desafiador e muito além do que é atualmente possível..."

Ralph Merkle - Diretor da Alcor Life Extension Foundation, a principal organização de criônica do mundo
A versão curta é: muitos dos pacientes da Alcor provavelmente serão revividos em algum momento deste século.
Se você tivesse perguntado a uma pessoa qualquer em 1940 se o voo para a lua era possível, você provavelmente teria ouvido "não". Uma resposta típica era "porque não há ar para voar no espaço". Esta objeção totalmente falsa, mas por ter fundamento científico era comum entre cientistas, foi a base para o editorial do New York Times de 1920 denunciando Robert Goddard. Ele foi corrigido em 17 de julho de 1969, um dia após o lançamento do vôo espacial Apollo 11.
No entanto, aqueles que conheciam o voo espacial previam voos para a Lua décadas antes do evento. Da mesma forma, conhecedores da nanomedicina também prevêem o renascimento de pacientes criopreservados há décadas, e essas previsões também são baseadas em uma avaliação sólida da lei física.
Enquanto ainda ouvimos declarações céticas sobre a criogenia, a óbvia falta de qualquer argumento técnico sólido contra a viabilidade da criônica está se tornando cada vez mais óbvia. Até que as estruturas no cérebro que codificam nossas memórias e personalidade tenham sido tão destruídas que não possam, em princípio, ser inferidas e restauradas a um estado funcional, vocês não estão mortos. Este critério teórico informacional da morte é obviamente muito mais difícil de encontrar do que as definições legais ou médicas atuais, daí a crença de que os pacientes criopreservados não estão realmente mortos.
"Este critério teórico informacional da morte é obviamente muito mais difícil de encontrar do que as definições legais ou médicas atuais, daí a crença de que os pacientes criopreservados não estão realmente mortos."
 
Michael Hendricks - Membro da Canada Research Chair especializado na área de neurobiologia e comportamento no Canadá e professor assistente de biologia na Universidade McGill, autor de “The False Science of Cryogenics” para a MIT Technology Review.
Se você quer dizer pessoas que já tiveram seus cérebros, cabeças ou corpos armazenados criogenicamente após a morte (ou estão fazendo isso com a tecnologia atual): não, eles nunca serão revividos . Eles estão mortos e permanecerão mortos para sempre.
Será que alguma vez será possível armazenar uma pessoa morta (ou o cérebro de uma pessoa morta) de tal forma que ela possa ser revivida? Quase certamente não. Será que alguma vez será possível criogenicamente “suspender” uma pessoa viva por algum período de tempo? Quase certamente. Por quanto tempo? Impossível dizer. Alguma vez será possível “carregar” - transferir - a consciência de alguém para uma forma digital? Não. Consciência não é apenas uma coisa, é um monte de coisas diferentes que os cérebros produzem.
Teoricamente, você poderia criar uma simulação digital distinta da pessoa, e a pessoa ainda pode estar viva ou morta. De qualquer forma, a novidade não são eles. Uma pessoa é um sistema causal físico particular, não uma abstração computacional.
Será que vai ser possível criar uma simulação ou versão digital de uma pessoa morta com base no exame de seu cérebro? Isso não é teoricamente impossível, mas está tão longe de nossa tecnologia (tanto biológica quanto computacional) que qualquer um que diga que sabe responder se acontecerá, provavelmente, está vendendo alguma coisa. A crença de que uma tecnologia teoricamente possível se tornará realidade se desejarmos forte o bastante que ela aconteça é de um delírio quase religioso.
Olhe para o mundo. A única coisa boa que ainda fazemos de forma confiável para as gerações futuras é sair do caminho deles. Não vamos tirar até isso deles... eles já terão muito trabalho com todos os terríveis problemas que deixamos por causa do nosso egoísmo e ganância. Nós não deveríamos responsabilizá-los por manter nossos corpos gelados também.
Matthew I. Gibson - Professor de química da Warwick Medical School, cuja equipe pesquisa novos crioprotetores para ajudar a armazenar produtos biológicos.
A criopreservação de células sustenta uma enorme gama de ciências fundamentais e médicas; da mesma forma que com a comida, não podemos deixar as células por aí na temperatura ambiente e esperar que fiquem bem, então temperaturas baixas são essenciais para nos deixar armazenar (ou trazer de volta) as células.
O armazenamento bem sucedido de células requer cuidadosa adição e remoção de crioprotetores, assim como o controle preciso das taxas de congelamento e descongelamento. Em pequenos volumes (para células) isso pode ser simples, mas se torna muito mais difícil à medida que o volume aumenta e é um dos muitos problemas do congelamento de uma pessoa. Devemos lembrar que um humano é um dos muitos problemas do congelamento de uma pessoa. Devemos lembrar que um humano é uma comunidade de células ligadas entre si e essas ligações precisam ser mantidas para que um tecido seja viável, especialmente para órgãos complexos como o cérebro.
É interessante pensar que só porque células, ou alguns tecidos, são rotineiramente criopreservados que o mesmo pode ser aplicado a uma pessoa inteira, mas isso é realmente uma simplificação exagerada. Ninguém pode prever tecnologias futuras, mas eu não vejo como isso seria possível, e dizer que a nanotecnologia irá "recompor" as partes danificadas do cérebro/corpo não está de acordo com a realidade científica no momento.

Simon Woods - Professor de bioética da Universidade de Newcastle.
Em primeiro lugar, acredito que qualquer cadáver ou cérebro preservado criogenicamente que já esteja congelado (ou vai ser em um futuro próximo) tem zero chance, porque os indivíduos em questão já estão mortos e sua morte foi causada por doenças fatais atualmente incuráveis. Acordar esses cadáveres envolveria muitos avanços importantes muito além do que é possível agora, descongelando complexos sistemas de órgãos e tecidos em um estado viável, aplicando tecnologias regenerativas para reparar o dano dos tecidos, curando a doença fatal que os matou e finalmente revivendo a pessoa morta. Cada um destes passos é individualmente um desafio gigante e está muito além do que é atualmente possível (e lembre-se que na maioria das definições a morte é uma condição irreversível).
O que está em aberto como uma possibilidade é se a pessoa criogênica não estava morta ou terminalmente doente para começar - então isso poderia envolver a criopreservação com a eutanásia (aumentando assim as questões morais, especialmente se a pessoa não estava terminalmente doente, uma exigência na maioria das jurisdições que permitem a eutanásia). Suponho que esta técnica possa ser usada para permitir a exploração do espaço profundo onde a pessoa seria colocada em uma animação suspensa - embora neste caso a preservação criogênica possa não ser a melhor coisa porque, usando tecnologias atuais, as técnicas são muito prejudiciais às células.
Para tocar em alguns dos problemas sociais mais amplos - se uma pessoa fosse criopreservada por centenas de anos, qual seria o seu status na futura comunidade - acordada sozinha sem amigos ou parentes vivos, como um sobrevivente de naufrágios lançado em algum costa estrangeira.
 
 

Tragédia em Brumadinho: o que são liquefação e "piping", os dois principais problemas em barragens

Em agosto de 2016, cerca de 9 meses depois do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, as mineradoras Samarco, Vale e BHP Billiton tornaram públicos os resultados de uma investigação independente contratada para entender as causas do que se tornou o maior desastre ambiental do país.
A perda de estabilidade da barragem por uma mudança na característica física do rejeito em novembro de 2015, que teria se tornado menos sólido e mais líquido - um processo conhecido como liquefação - era, segundo o parecer, uma das principais razões da tragédia que deixou 19 mortos, milhares desabrigados e que destruiu completamente três distritos.
Ao lado de outro fenômeno chamado "piping" (ou entubamento), a liquefação está entre "os grandes motivadores de rompimento de barragens", diz Evandro Moraes da Gama, que há 36 anos é professor do departamento de Engenharia de Minas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).
Apesar da maior recorrência, contudo, ainda não se pode afirmar que esses fatores eventualmente estejam ligados ao rompimento da barragem Córrego do Feijão em Brumadinho, que fez centenas de vítimas neste mês de janeiro.
As causas da tragédia na região metropolitana de Belo Horizonte onde atuava a mineradora Vale, de acordo com a própria empresa, ainda estão sendo apuradas.

'O que era pastoso vira líquido'

Segundo Gama, a mudança de fase do rejeito que caracteriza a liquefação se dá em decorrência de vibrações no terreno - sismos induzidos que podem ser resultado, por sua vez, de alguma instabilidade no alicerce sobre o qual a barragem está construída.
O professor destaca, nesse sentido, a presença das cangas que recobrem parte do solo do quadrilátero ferrífero de Minas.
Esses afloramentos de rochas ferruginosas muitas vezes abrigam, além de uma biodiversidade única, grutas e cavernas que poderiam favorecer as situações de instabilidade às quais o especialista em geotecnia se refere.
Em um artigo que defende a preservação do ecossistema das cangas, os biólogos Claudia Maria Jacobi, Flávio Fonseca do Carmo, Felipe Fonseca do Carmo e Iara Christina de Campos afirmam que cerca de 20% das cavernas catalogadas no Brasil ocorrem nos geossistemas ferruginosos.

Região afetada pelo rompimento da barragem de Fundão, me Mariana

As lamas das barragens de rejeito construídas no Brasil são densas, úmidas e bastante heterogêneas - suas características em determinado ponto da estrutura de contenção podem ser bem diferentes das verificadas em outro.
Assim, diante de uma perturbação física, "o que era pastoso vira líquido", diz Gama, que já se aposentou e segue dando aulas na UFMG como professor voluntário.
Por essa razão, ele ressalta, as barragens de contenção precisam ser monitoradas constantemente e "muito instrumentadas", com a melhor tecnologia possível para avaliar em tempo real sua situação, como "um paciente no CTI", ilustra.

'Piping': infiltração no terreno

Outro problema recorrente nas barragens de rejeito, que danifica sua estrutura e favorece rompimentos, é o aparecimento de canais dentro da estrutura de contenção - mais uma vez, um reflexo da característica heterogênea da lama.
"São formados pequenos funis, por onde a água acaba circulando", explica Gama.
Esse processo de erosão interna é muitas vezes agravado por falhas nos sistemas de drenagem. Por conta do peso e da pressão da lama de rejeitos sobre o fundo da estrutura, "os filtros são amassados e ficam muitas vezes entupidos".
Quanto maior o acúmulo de água, mais instável fica a estrutura e maior é a probabilidade de ruptura da contenção.
O professor pondera que, no caso das barragens construídas no Brasil, muitas da década de 1950, o rejeito que entrava no início da operação era mais granular, mais resistente ao chamado cisalhamento - que grosso modo, significa a deformação da estrutura.
A argila, que apresenta maior dificuldade de sedimentação, foi sendo incluída com o tempo - o que poderia indicar, por exemplo, que a estrutura inicial das barragens não estava totalmente preparada para receber esse tipo de material.
"Eu tenho 66 anos de idade, mestrado e doutorado, e acho que entendo um pouco de geotecnia (ramo que une a geologia e a engenharia e que estuda o comportamento do solo e das rochas). Qualquer pessoa que trabalhe fazendo segurança de barragem de rejeito deveria ter no mínimo mestrado - mas, hoje em dia, um curso técnico de 40 horas já habilita (legalmente) alguém pra fazer isso", critica o professor.

As barreiras a montante - e seu 'descomissionamento'

Um ponto comum a praticamente todos os casos mais recentes de rompimentos de barragem no Brasil é o fato de que elas eram construídas a montante.
Nessas estruturas, a barragem vai crescendo "para dentro": após a edificação de um primeiro dique para represar o material, o segundo é erguido em parte sobre a estrutura do primeiro e em parte sobre o que já está depositado na barragem, e assim por diante.
No método a jusante, considerado mais seguro, os diques são empilhados no sentido contrário - eles vão avançando sobre o terreno, e não sobre os rejeitos que já estão depositados.
Já há muito tempo se sabe que o método a montante é o mais crítico em relação à segurança. Ele é, contudo, mais barato e mais rápido.
No dia 29 de janeiro, a Vale anunciou que irá "descomissionar" todas as suas barragens a montante - que hoje são 10, todas localizadas em Minas Gerais - nos próximos três anos. Segundo o presidente da mineradora, Fabio Schvartsman, isso significa esvaziá-las ou reintegrá-las ao meio ambiente.
O professor Evandro Gama alerta, contudo, que esse processo não é simples. Para tirar a lama do sistema de contenção de rejeito, por exemplo, pode ser necessário dragar e escavar ao mesmo tempo, por causa da consistência do material.
Não se sabe também, ele acrescenta, se as bombas de dragagem que operam no país teriam força suficiente pra puxar a massa densa encontrada nas barragens.
Nos últimos 14 anos, o professor tem se dedicado a pesquisar métodos de recuperação de rejeitos de mineração - como a fabricação de cimento a partir da argila encontrada nesses materiais - justamente por acreditar que as barragens devem ser "depósitos temporários", e não permanentes.
BBC Brasil

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Brumadinho: Brasil tem mais de 300 barragens de mineração que ainda não foram fiscalizadas e 200 com alto potencial de estrago

O Brasil tem 790 barragens de rejeitos de minérios, e mais de 300 delas não foram classificadas em relação ao seu risco de rompimento e ao potencial dano que poderia causar ao ambiente e à sociedade.
Um mapa criado pela BBC News Brasil (veja abaixo) com dados compilados em 2017 pela Agência Nacional de Águas (ANA), com informações da Agência Nacional de Mineração (ANM), mostra as barragens, sua localização e classificação, além das empresas responsáveis por elas.
A ANM é o órgão responsável pela fiscalização das estruturas. O site da agência tem uma lista de barragens que teria sido atualizada no dia 23 de janeiro, dois dias antes do rompimento da Barragem I da Vale em Brumadinho, que deixou ao menos 115 mortos, 248 desaparecidos e mais de 170 desalojados.
No entanto, a lista oficial da ANM apresenta um número menor de barragens do que o divulgado no relatório de segurança de barragens da ANA no ano passado.
Questionada pela BBC News Brasil, a agência não explicou por que sua lista atualizada contém 80 barragens a menos, e afirmou que os funcionários do setor que podem responder às perguntas estão atarefados em campo, após o desastre de Brumadinho.

Como explorar o mapa?

Foto de satélite do rio Paraopeba na região de Brumadinho mostra mancha de lama.  
 
 
Entre as 790 barragens que aparecem, cerca de 320 não se enquadram na Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB), lei federal aprovada em setembro de 2010.
Para que sejam fiscalizadas, precisam obedecer a critérios como capacidade acima de 3 milhões de metros cúbicos, 15 metros ou mais de altura, resíduos perigosos e dano potencial médio ou alto.
A Barragem I de Brumadinho, por exemplo, tinha 86 metros de altura e armazenava quase 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos.
No Brasil, as barragens são categorizadas cruzando a probabilidade de um rompimento ocorrer – ou seja, o risco – e o impacto que causarão nas comunidades próximas e no meio ambiente se o incidente de fato acontecer, o que é chamado de "dano potencial".
 
Barragens de mineração no Brasil
 
"Em geral, as barragens sem classificação são menores e consideradas de risco baixo, mas toda barragem que se rompe tem um dano, mesmo que seja só para os trabalhadores que estão ali todos os dias. Isso, de fato, precisa ser analisado", disse à BBC News Brasil Fabio Reis, presidente da Federação Brasileira de Geólogos e professor da Unesp de Rio Claro.
"Mas é natural que o foco principal das equipes sejam as estruturas maiores, que já se sabe que possuem mais risco e mais dano potencial."Segundo a lista da ANA, o Brasil tem 13 barragens de mineração com risco de rompimento médio e dano potencial alto.Outras 185 represas estão na mesma situação de Brumadinho, com risco considerado baixo, mas dano potencial alto.

Questionada pela BBC News Brasil, a ANA disse que, em alguns casos, é possível que algumas das barragens que ainda estão sem classificação ofereçam risco maior do que se imagina - caso a conservação delas não esteja sendo feita e informada corretamente.
 
 Buscas em Brumadinho no dia 30 de janeiro de 2019 

Como ocorre a fiscalização?

O risco de rompimento nas barragens é medido considerando características técnicas e de conservação. Estas informações devem ser fornecidas pelas empresas para o órgão fiscalizador, assim como os planos de ação em caso de uma emergência e relatórios periódicos de monitoramento e de conservação.Mas, nos casos das barragens que obedecem aos critérios da PNSB, elas também devem receber visitas periódicas de agentes fiscalizadores. Segundo geólogos e engenheiros ouvidos pela BBC News Brasil, a fiscalização de barragens no Brasil ainda é limitada e muito dependente do monitoramento das próprias mineradoras - o que aumenta ainda mais os riscos da exploração de minério.A ANM, responsável pela fiscalização, tem apenas 35 fiscais capacitados para atuar nas barragens de rejeitos de minérios.Considerando que cerca de 400 barragens precisam de fiscalização presencial, segundo a PSNB, o número de fiscais é considerado pequeno por especialistas."Se formos olhar, no Brasil, acontece de um deputado ter (de assessores) a quantidade de fiscais que a ANM tem pra fiscalizar barragens no país inteiro. Isso é um absurdo. E eles têm muita coisa para fazer, não é só ir nas barragens", disse Fabio Reis.De acordo com a ANM, os fiscais também são responsáveis por monitorar as minas, não apenas as barragens de rejeitos, além de fazer pesquisa mineral e conferir os relatórios de segurança enviados pelas empresas.

Quantas barragens existem no Brasil?

De acordo com a ANA, que tem a responsabilidade de consolidar o Relatório de Segurança de Barragens, o Brasil tem pelo menos 24.092 barragens, com diferentes usos. Elas podem ser usadas para a produção de energia elétrica, contenção de rejeitos de mineração, disposição de resíduos industriais ou usos múltiplos da água. A ANA, no entanto, afirma que esse número pode ser maior. Sua compilação depende de que os órgãos responsáveis pela fiscalização das barragens cadastrem as estruturas no sistema de dados do governo."O número de barragens com certeza é maior. A maior parte dessas 24 mil são barragens de pequeno porte, em propriedades rurais", diz Fabio Reis, da Febrageo.Destas mais de 24 mil barragens, cerca de 4,5 mil obedecem aos critérios da PNSB e, portanto, devem ser fiscalizadas regularmente. Mas, de acordo com a ANA, sobre muitas delas não há informações suficientes para saber se também deveriam receber agentes."Barragens com finalidades diferentes geralmente também são construídas com métodos diferentes. Há regras que valem para todas, mas, em geral cada órgão responsável também têm seus critérios para avaliar o risco de deterioração e os danos que um problema nelas poderia causar", afirma Reis.Neste mapa, apenas as barragens de mineração são mostradas. Minas Gerais possui a maior concentração de barragens de minérios - são 357. Em segundo lugar vem o Pará, com 109.Nem todas as barragens da lista continuam recebendo minérios, mas os dados não informam quais são as inativas. Mesmo sem receber rejeitos - como era o caso da barragem de Brumadinho, inativa desde 2015 - elas precisam ser monitoradas constantemente.A barragem que se rompeu, inclusive, aparece no mapa.Na última segunda-feira, o governo federal anunciou uma portaria que recomenda a fiscalização de todas as barragens com alto dano potencial associado e cobra os órgãos fiscalizadores para que exijam das empresas responsáveis a atualização dos seus planos de segurança — no entanto, tudo isso já está previsto na PNSB.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Estamos ficando sem café!

Café recém cosechado em Yayu, no sudoeste de Etiópia, a terra do 'Arabica'.

A maioria das espécies silvestres de café corre o risco de desaparecer nas próximas décadas. De algumas só restam três ou quatro plantas e de outras não há notícias há quase um século. Uma das ameaçadas é a Coffea arabica, da qual procede a maior parte das variedades cultivadas. Ainda que somente três espécies tenham interesse comercial hoje, a extinção de somente uma das demais ameaça o futuro tanto do café silvestre como do cultivado.
Quase 100% dos 10 milhões de toneladas de café em grão que serão colhidas nessa temporada são arabica e robusta (Coffea robusta). Há uma terceira espécie (Coffea liberica) que é consumida em diversas partes da África, mas seu principal valor no cultivo do cafeeiro é como enxerto no rizoma das outras duas espécies. Na natureza, entretanto, há muito mais café. Que se saiba, existem pelo menos 124 espécies silvestres de Coffea. E a maioria não é originária das terras úmidas da Etiópia. Estão em Serra Leoa, no extremo ocidental do continente africano, até no Estado de Queensland no leste da Austrália.
Agora, pesquisadores do Real Jardim Botânico de Kew (Reino Unido) determinaram o estado em que se encontram todas as espécies silvestres conhecidas de café. Os resultados, baseados em uma década de expedições, acabam de ser publicados na Science Advances. Das 124 espécies, 75 estão ameaçadas (60%), de acordo com os critérios estabelecidos pela Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).
A porcentagem de ameaçadas sobe até 70% se for descontado do total as quase vinte espécies das quais não existem dados confiáveis. De 14 não há informação recente, em boa parte pelas guerras que impediram seu estudo. De algumas, há mais de um século não se têm notícias e de cinco, todas asiáticas, só existem provas nos herbários ocidentais. Do total, 13 estão em perigo crítico de extinção e somente 35 foram catalogadas como não ameaçadas. Ainda que o risco exista em toda a distribuição geográfica do café silvestre, o drama se concentra em Madagascar, com 43 espécies ameaçadas, Tanzânia, com 12, e Camarões, com sete.
“Entre as espécies ameaçadas de extinção estão aquelas com potencial para ser usadas no cultivo e desenvolvimento dos cafés do futuro”, diz o responsável pela pesquisa do café em Kew e principal autor do estudo, Aaron Davis. Não se trata somente de que salvar uma espécie do desaparecimento seja um valor em si mesmo, é que, ainda sem ter interesse comercia hoje, muitas delas podem contribuir com resistência a doenças e ser capazes de enfrentar as cada vez mais complicadas condições climáticas. “O aproveitamento e desenvolvimento dos recursos do café silvestre podem ser determinantes à sustentabilidade a longo prazo do café”, afirma Davis.
Os autores do estudo classificaram todas as espécies em três grupos de acordo com sua atual previsível relevância futura ao cultivo comercial do café. Em um primeiro grupo colocaram as parentes silvestres do arabica, do robusta e do liberica, além do Coffea eugenioides, antecessor do primeiro. Sua proximidade genética com as espécies comerciais as transformam em reservas vitais à renovação de seu acervo genético. Em um segundo grupo incluíram 38 espécies que, mesmo sem hibridar naturalmente com as comerciais, podem trazer melhoras em resistência, aromas, rendimento... mediante as modernas técnicas agronômicas. No último grupo estão 82 espécies sem interesse comercial agora, ainda que possam ser aproveitáveis graças à engenharia genética.
 
À direita, grão de café arabica, à esquerda um de café ambongo, de Madagascar e em perigo de extinção.
 
A principal espécie ameaçada, do primeiro grupo, é a arabica, base do cultivo do café. Do segundo grupo, existem outras 23 espécies em perigo. E do restante, outras 51 espécies. Para compreender o alcance desses números e porcentagens, podem ser comparados com o estado geral da conservação das plantas. Enquanto no conjunto do reino vegetal, somente 22% das espécies estão ameaçadas, o estão quase três de cada quatro espécies de café.
Entre as causas há uma natural e o restante de origem humana. A primeira é a própria rigidez biológica do café. Apesar das variedades comerciais estarem presentes em todas as regiões tropicais do planeta, a maioria das espécies silvestres estão em faixas geográficas reduzidas e localizadas, muito adaptadas às condições locais. Por isso, perturbações humanas como a perda do habitat, o avanço da agricultura e efeitos da mudança climática como a redução da temporada de chuvas e o aumento dos dias de calor, estão afetando a resiliência dos cafezais silvestres.
“No café a questão é crítica. Só existem duas espécies utilizadas comercialmente e dessas somente uma pequena parte da variabilidade genética é utilizada”, diz o diretor do Centro Nacional de Pesquisas de Café da Colômbia (Cenicafe), Álvaro León Gaitán, não relacionado a esse estudo. “O problema é que na medida em que as condições de cultivo mudam, é preciso trocar as plantas e a pouca diversidade genética utilizada nas variedades comerciais não dá para selecionar novos tipos de plantas”, afirma. Por isso a importância das espécies silvestres, que podem ter genes com respostas a esses problemas. “No caso do arabica, entretanto, as florestas naturais da Etiópia e do Sudão do Sul nas quais a espécie se originou foram se degradando, de modo que é preciso recorrer às coleções de germoplasma coletadas nos anos 60”, diz o responsável do Cenicafe.
Mas o problema da conservação in situ se agrava porque muitas das espécies silvestres não têm cópias de respaldo fora. Boa parte da biodiversidade vegetal (e animal) possui estratégias de conservação ex situ. Nos jardins botânicos criados no século XIX, herbários e bancos de sementes e germoplasma, em vários locais do planeta estão guardados recursos da maioria das plantas de interesse aos humanos. Mas enquanto 71% dos 63 principais cultivos humanos contam com alguma cópia de segurança, isso ocorre com somente um terço das espécies de café.
“Ao contrário do feijão e do milho, a viabilidade das sementes de café se reduz significativamente se elas são secas e congeladas (o embrião morre)”, diz a pesquisadora do Global Crop Diversity Trust, Nora Castañeda, autora do estudo com os 63 principais cultivos. “Por isso, é preciso contar com outras alternativas para conservação desses recursos genéticos, como os bancos de germoplasma de campo, cultivos in vitro, criopreservação, parques naturais e até nas próprias fazendas dos produtores”, afirma a cientista colombiana. O objetivo da organização internacional, com sede em Bonn (Alemanha) é preservar a diversidade de cultivos para proteger a segurança alimentar mundial.
Para Castañeda, os resultados do estudo (em que não interveio) são um reflexo do estado de vulnerabilidade da vida silvestre no planeta em geral. “Não deixa de surpreender, entretanto, que os parentes do café se encontrem dentro do grupo de plantas com maior risco de extinção e que, além disso, são vulneráveis pois não recebem ações concretas para sua conservação”, diz por e-mail. Em 2017, em colaboração com o World Coffee Research, sua organização publicou uma estratégia global para a conservação do café. Estimaram que seria preciso investir apenas 25 milhões de dólares (94 milhões de reais) para “conservar em perpetuidade recursos genéticos do café que nesse momento se encontram em coleções chave”, afirma a cientista colombiana.
El País