terça-feira, 26 de setembro de 2017

O conde partido ao meio

Crédito: Divulgação
 
A reputação de Gastão de Orléans (1842-1922), o Conde d’Eu, não foi positiva enquanto viveu e não mudou depois de morrer — em um navio, quando voltava para o Rio de Janeiro para tratar do patrimônio da destituída família real. Em seu tempo, o Príncipe Consorte do Brasil, marido da Princesa Isabel, era visto pelo gabinete conservador de dom Pedro II como liberal,enquanto os abolicionistas tinham restrições a ele por ser estrangeiro e católico. Francês, nascido no castelo  da família em Neuilly sur Seine, Gastão procurava se posicionar muito acima dos partidos e assim evitar a polarização nos debates políticos. A distância o fez cair do alto direto para o esquecimento e ganhar a imagem póstuma de um conde partido ao meio, personagem impotente, incapaz de manter a coroa. Como não bastasse, sofreu campanhas de difamação quando  marechal de campo das tropas da Tríplice Aliança nos último meses da Guerra do Paraguai (1864-1870). Dizia-se que havia ordenado a degola de chefes militares paraguaios e ordenado que os soldados executassem crianças e mulheres nas últimas escaramuças organizadas pelo presidente paraguaio deposto Solano Lopes.
A publicação em livro do “Diário do Conde d’Eu — comandante em chefe das tropas brasileiras em operação na República do Paraguai” (editora Paz & Terra) altera as ideias imprecisas sobre o personagem. Segundo o historiador Rodrigo Goyena Soares, que organizou, traduziu e anotou o diário, sua personalidade é mais complexa do que a retratada na his†ória do Brasil. O caderno de capa dura vermelha que Gastão manteve no Paraguai — entre outros diários que estão depositados no Museu Imperial de Petrópolis — revela inteligência, sensibilidade e tino político.



CENAS A Princesa Isabel toca piano, em foto tirada pelo marido, Gastão, por volta de 1869; capa do jornal “Vida Fluminense” em 30/4/1870 ironiza a volta do Conde d’Eu da Guerra do Paraguai; O conde d’Eu como marechal de campo na Guerra do Paraguai e 1869
Em suas anotações, Gastão critica a grosseria dos políticos platinos, o corte dos uniformes do exército e a alimentação da tropa, obrigada a sobreviver nas trincheiras com frutas. Também expressa angústia por não receber cartas pessoais e descreve o cotidiano das tropas, com homens oriundos de todo o Brasil, seus diferentes hábitos e festas. “Ele narra que o soldados participavam de peças de teatro, festas folclóricas e até casamentos com mulheres paraguaias desamparadas”, afirma Soares. Gastão elogia a criatividade dse seus comandados: conta que os batalhões do Norte e do Nordeste construíam moendas para preparar caldo de cana e assim evitar fome e sede.
Terceiro império
 
Em suas anotações, Gastão critica a grosseria dos políticos platinos, o corte dos uniformes do exército e a alimentação da tropa, obrigada a sobreviver nas trincheiras com frutas. Também expressa angústia por não receber cartas pessoais e descreve o cotidiano das tropas, com homens oriundos de todo o Brasil, seus diferentes hábitos e festas. “Ele narra que o soldados participavam de peças de teatro, festas folclóricas e até casamentos com mulheres paraguaias desamparadas”, afirma Soares. Gastão elogia a criatividade dse seus comandados: conta que os batalhões do Norte e do Nordeste construíam moendas para preparar caldo de cana e assim evitar fome e sede.

“O conde d’Eu era humanista e liberal”, diz Soares. “Ele se preocupava com a organização do exército e as condições da população paraguaia rendida. Os episódios de que ele foi acusado ocorreram a sua revelia. Ele se indignava com as atitudes bárbaras dos militares. E teve um papel relevante na política, pois favoreceu a abolição da escravatura e a politização do exército na volta da Guerra do Paraguai. Foi nesse momento que os militares entraram na luta política e se associaram à nascente classe média — uma união que persiste até hoje.”
Gastão defendia a monarquia constitucional, o fim da escravidão e o desenvolvimento da economia. Influenciou Isabel em seus decretos liberais, como a Abolição da Escravatura, em 1888. Sonhava em instaurar um Terceiro Império ultraliberal com a coroção de Isabel. Mas seus sonhos se espatifaram: acabou excluído por todas as facções partidárias da época e expulso do país — como toda a família real — pelos militares republicanos que havia apoiado. “É preciso redimir o papel histórico do desprezado Príncipe Consorte do Brasil”, afirma Soares.
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