sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Os homens que criam geleiras para sobreviver à seca no Himalaia

É meia noite no vale Ladakh, no Himalaia, extremo norte da Índia, a 3,5 mil metros acima do nível do mar. É o período mais frio do dia em um dos lugares mais frios do planeta - no auge do inverno, a temperatura chega a -30ºC.
 
Stupa em Ladakh
Um grupo de dez voluntários está reunido para colocar em prática um plano capaz de resolver a falta d'água crônica que afeta a região. Eles estão construindo geleiras de mais de 30 metros de altura na esperança de que derretam na primavera e forneçam a água necessária aos vilarejos e agricultores.
As estruturas de gelo são fruto da mente do engenheiro Sonam Wangchuk. Nascido ali, ele trabalha há vários anos em soluções inovadoras para problemas cotidianos das comunidades locais.
"Tedemos a buscar soluções criadas em Nova York ou Nova Déli, que não funcionam para nós aqui", diz ele. "Acredito que o povo das montanhas tem de encontrar soluções por conta própria."
 
Sonam Wangchuk em Ladakh

Isolamento

Os 300 mil habitantes de Ladakh enfrentam condições de vida duras. Os vilarejos ficam em locais remotos a altitudes que variam entre 2,7 mil e 4 mil metros acima do nível do mar. As estradas ficam bloqueadas durante a maior parte do inverno, isolando a região do resto do país.
Chove muito pouco ali. A média é de 100 milímetros por ano - em comparação, a média anual é de 450 milímetros no sertão de Pernambuco, segundo dados do Laboratório de Meteorologia da Universidade Federal do Vale do São Francisco.
Wangchuk diz que os efeitos das mudanças climáticas e o aquecimento global estão intensificando os problemas locais ao mexer com seu já delicado equilíbrio hídrico.
"Vemos que as geleiras estão encolhendo, sendo encontradas em altitudes cada vez maiores. Há menos água na primavera, mas, nos meses de verão, temos enfrentado inundações perigosas. O fluxo de água no vale tornou-se irregular", explica ele.
 
Moradora do vale Ladakh
 
Wangchuk inspirou-se em um colega de profissão que trabalha na região, o engenheiro Chewang Norphel, que criou uma geleira artificial plana em altitudes de 4 mil metros ou mais. Mas os moradores dos vilarejos relutavam em subir até lá.
Wangchuk conta que estava cruzando uma ponte quando teve a ideia de congelar suas estruturas.
"Notei que havia gelo sob a ponte, que, a 3 mil metros de altitude, é a área mais baixa e quente da região. Então, pensei que se a gente protegesse o gelo da incidência direta do sol, a gente poderia armazená-lo."

'Stupas'

Então, em 2013, ele e seus estudantes da Escola Alternativa Secmol começaram a fabricar próximo do vilarejo de Phyang protótipos destas estruturas, chamadas de stupas, por causa de sua semelhança com a stupas tibetanas - belas construções religiosas, formadas por domos ou cones e com extremidade pontiagudas, usadas para guardar relíquias, como os restos mortais de monges budistas.
A tecnologia por trás delas é simples. Uma das extremidades do cano fica enterrada abaixo do ponto de congelamento, profundidade em que a umidade do solo congela, enquanto o restante se eleva acima do chão.
A diferença de altura, temperatura e força gravitacional cria pressão dentro do cano, fazendo com que a água subterrânea seja bombeada para fora do cano, como em uma fonte, e congele gradualmente ao entrar e contato com o ar frio, formando uma pirâmide de gelo.
"Congelamos a água que não costuma ser usada no inverno. Por causa da forma geométrica da estrutura, o gelo não derrete até o fim da primavera", diz Wangchuk. Nessa época, explica, a água pode ser usada para irrigar plantações.

Sucesso e ampliação

Como o invento tem uma forma semelhante à stupa religiosa, Wangchuk acredita que isso faz com que elas sejam mais familiares aos habitantes locais. Depois de obter sucesso com uma das estruturas, em 2014, um monastério da região se envolveu na iniciativa, e monges budistas pediram que fossem construídas outras 20.
Uma campanha para financiar a empreitada arrecadou US$ 125,2 mil (R$ 396 mil), que custeou a construção de uma linha de transmissão de 2,3 km para levar água até Phyang. Wangchuk afirma que esses canos comportam a produção de até 50 stupas de gelo.
Ele agora está ajudando a construir novas estruturas próximo da cidade de St. Moritz, na Suíça. Depois de testar o primeiro protótipo, o plano é expandir o projeto para combater os efeitos do rápido derretimento das geleiras das montanhas do país.
"Em troca dessa tecnologia, os suíços compartilharão seus conhecimentos sobre turismo sustentável com as pessoas de Phyang, para recuperar a economia decadente do vilarejo", diz Wangchuk.
Ele diz estar otimista com o futuro: "Queremos treinar os jovens por meio de nossa universidade e esperamos estar criando uma nova geração de empreendedores do gelo."

Por que 11 países africanos estão construindo uma muralha de árvores

Resultado de imagem para fotos da muralha de árvores que os países africanos estão construindo

A África está construindo um muro gigante – de árvores.
A barreira cruza o continente de leste a oeste - e o território de 11 países - e faz parte de uma tentativa de mitigar os efeitos de mudanças climáticas.
O plantio de árvores teve início em 2007 e o objetivo é fazer com que o muro atinja 8 mil km de comprimento e 15 km de largura.
Até agora, Senegal é o país que fez o maior progresso, com 11 milhões de árvores.
De acordo com Absaman Moudouba, líder de um vilarejo do sul do país que fica nas cercanias da chamada Grande Muralha Verde, o projeto está revertendo a desertificação.
“Quando não havia árvores, o vento escavava e desgastava o solo. Mas está mais protegido agora. As folhas viram compostagem e a sombra aumenta a umidade do ambiente - e assim há menos necessidade de água”, afirma.
“Antes, havia fome e seca generalizadas aqui. Então, começou a plantação de árvores e depois um jardim onde as mulheres fazem a cultura agrícola. Antes, as pessoas costumavam migrar, mas agora elas só seguem a linha da Grande Muralha Verde em busca de emprego. Elas não partem mais”, diz Moudouba.
O projeto começou em 2007 e o custo estimado é de U$8 bilhões (R$25 bilhões). Apesar de estar anos distante de ser finalizado, o Banco Mundial, a ONU, a União Africana e os Jardins Botânicos do Reino Unido seguem na busca de fundos para continuar o plantio.
BBC Brasil

Como surgiu a superstição da sexta-feira 13?

É sexta-feira 13, o dia mais amaldiçoado do calendário, supostamente quando tudo pode dar errado. Mas de onde surgiu a ideia de que coisas ruins acontecem nesta data?
 
Documentos do Clube dos Treze
Sexta-feira e o número 13 já eram associados ao azar por si só, segundo Steve Roud, autor do guia da editora Penguin Superstições da Grã-Bretanha e Irlanda.
"Porque sexta-feira foi o dia da crucificação (de Jesus Cristo), as sextas-feiras sempre foram vistas como um dia de penitência e abstinência", diz ele.
"A crença religiosa virou uma aversão generalizada por começar algo ou fazer qualquer coisa importante em uma sexta-feira".
Por volta de 1690, começou a circular uma lenda urbana dizendo que ter 13 pessoas em um grupo ou em torno de uma mesa dava azar, explica Roud.
As teorias por trás da associação de azar com o número 13 incluem o número de pessoas presentes na Última Ceia e o número de bruxas em um clã.
Até que esses dois elementos - a sexta-feira e o número 13 - que já causavam receio isoladamente acabaram se unindo em um momento da história. Por ironia do destino, um grupo que surgiu para ridicularizar superstições acabou consagrando a data.
Em 1907, um livro chamado Sexta-feira 13 foi publicado pelo corretor de ações Thomas Lawson - essa foi a inspiração para a mitologia em torno da data, culminando na franquia de filmes homônima nos anos 1980.
O livro conta a história sombria de um corretor de Wall Street que manipula o valor de ações para se vingar de seus inimigos, deixando-os na miséria.
Para isso, ele tira proveito da tensão natural causada pela data no mercado financeiro. "Cada homem na bolsa de valores está de olho nessa data. Sexta-feira, 13, quebraria o melhor pregão em andamento", diz um dos personagens.
 
Livro Sexta-Feira 13 de Thomas W. Lawson
 
Como se vê, em 1907, a sexta-feira 13 já era uma superstição socialmente estabelecida. Mas não era assim 25 anos antes.
O Clube dos Treze, um grupo de homens determinados a desafiar superstições, se reuniu pela primeira vez em 13 de setembro de 1881 (uma quarta-feira) - mas só seria fundado oficialmente em 13 de janeiro de 1882.
Eles se encontravam sempre no dia 13 de cada mês, sentavam - os 13 - à mesa, quebravam espelhos, derrubavam saleiros extravagantemente e entravam no salão de jantar passando debaixo de uma escada.
Os relatórios anuais do clube mostravam meticulosamente quantos de seus membros tinham morrido, e quantas destas mortes haviam ocorrido dentro do prazo de um ano após um membro comparecer a um de seus jantares.

'Grande coração'

William Fowler
 
O grupo foi fundado pelo capitão William Fowler em seu restaurante, o Knickerbocker Cottage, na Sexta Avenida de Manhattan, em Nova York. Ele era considerado um "bom companheiro de grande coração, simples e caridoso".
Como mestre de cerimônias, ele "sempre entrava no salão de banquetes à frente do grupo, vistoso e sem medo", segundo Daniel Wolff, "chefe de regras" do clube.
O jornal The New York Times informou na época que, na primeira reunião, o 13º convidado estava atrasado, e Fowler ordenou que um dos garçons assumisse seu lugar: "O garçom estava sendo empurrado escada acima quando o convidado que faltava chegou".
O primeiro alvo do grupo foi a superstição de que, se 13 pessoas jantassem juntas, uma delas morreria em breve. Mas uma segunda superstição veio logo a seguir.
Em abril de 1882, o clube adotou uma resolução lastimando o fato de que a sexta-feira era "há muitos séculos considerado um dia de azar... sem motivos razoáveis" e enviaram apelos ao presidente americano, a governadores e a juízes pedindo que estes últimos parassem de marcar enforcamentos para sextas-feiras e levassem a cabo execuções em outros dias da semana.
Mas não há qualquer sinal da superstição da sexta-feira 13 nas atividades do clube. Ela surgiu em algum momento entre a fundação do clube, em 1882, e a publicação do livro de Lawson de 1907.
Seria isso por culpa do próprio clube?

Casa em Manhattan onde começou o Clube dos Treze

Orgulho

O grupo aproveitava todas as oportunidades que apareciam para juntar as duas superstições e ridicularizá-las, segundo reportagem do jornal Los Angeles Herald de 1895: "Nos últimos 13 anos, quando a sexta-feira caiu no dia 13, esta peculiar organização fez reuniões especiais para se deleitar".
O clube se orgulhava de ter colocado a superstição no foco das atenções. Sua fama cresceu: o grupo original de 13 membros passou a contar com centenas de pessoas na virada do século, e clubes parecidos foram fundados em outras cidades em todo o país.
Em 1894, foi criado o Clube dos Treze de Londres. Em uma carta de 1883 aos membros nova-iorquinos, o escriba do clube londrino, Charles Sotheran, elogia a determinação com que eles combateram "duas dessas superstições vulgares, a crença de que o número 13 traria azar e que a sexta-feira seria um dia azarado". "Vocês criaram um sentimento popular a favor dos dois".
A frase é ambígua, mas ela pode ser interpretada como um sinal de que as duas superstições, juntas, caíram nas graças do povo.
A doutrina do Clube dos Treze era de que "superstições deveriam ser combatidas e eliminadas".
Mas tudo indica que, em vez disso, eles tiveram o grande azar de acabar lançando uma das superstições mais conhecidas e persistentes do mundo ocidental.
BBC Brasil

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Descoberta do nome de Alá em artefatos wikings intriga cientistas

Fragmentos de tecidos feitos de seda e prata foram encontrados em sítios arqueológicos suecos | Foto: Divulgação
 
Arqueólogos suecos anunciaram a descoberta de caracteres da escrita árabe em mantas mortuárias encontradas em cerimônias funerárias vikings.
Curiosamente, os fragmentos estavam esquecidos em um arquivo, onde permaneceram por mais de cem anos, classificados como material genérico.
Mas uma nova análise dos tecidos, encontrados em túmulos dos séculos 9 e 10 agora revela detalhes desconhecidos sobre o contato entre os mundos viking e muçulmano.
E o exemplo mais gritante são os bordados em prata e seda que escrevem as palavras "Alá" e "Ali".
Padrões diferentes
A descoberta foi feita por Annika Larsson, da Universidade de Uppsala. A arqueóloga, especializada em tecidos, ficou intrigada ao constatar que as amostras, recuperadas em escavações ao longo dos últimos dois séculos, tinham procedência da Ásia Central, Pérsia e China.
Larsson explica que os padrões geométricos encontrados nos tecidos eram diferentes de tudo o que ela tinha visto na Escandinávia.
"Lembrei-me que tinha visto os desenhos em tecidos da época da ocupação árabe da Península Ibérica", conta ela.
 
Vikings eram enterrados em barcos de madeira, por causa da crença de que precisariam de transporte para chegar ao paraíso
 
Foi quando a arqueóloga percebeu que estava analisando caracteres de uma forma arcaica de escrita árabe, a kufic.
Duas palavras apareciam com frequência. Um delas, com auxílio de um colega do Irã, Larsson identificou como "Ali", o nome do quarto califa do Império Islâmico, que viveu no século 7.
A outra deu mais trabalho. Foi como desvendar um quebra-cabeças: após ampliar as letras e examiná-las em diversos Larsson encontrou as duas palavras em pelo menos dez dos mais de cem fragmentos que está analisando. E elas sempre aparecem juntas. Ãngulos, a especialista descobriu tratar-se de um mosaico formado pelo nome "Alá" (Deus, em árabe).
Larsson encontrou as duas palavras em pelo menos dez dos mais de cem fragmentos que está analisando. E elas sempre aparecem juntas.
Quem eram?
A descoberta também desperta perguntas fascinantes sobre os ocupantes das tumbas.
"Não podemos descartar que as pessoas enterradas eram muçulmanas. Análises de DNA em outras escavações de túmulos vikings revelaram que seus ocupantes eram originários de locais distantes, como a Pérsia, em que o Islã já era dominante."
No entanto, a arqueóloga acredita que o mais provável é que a descoberta mostre a influência de ideias islâmicas em rituais fúnebres vikings - noções, por exemplo, de vida eterna no paraíso após a morte.
A equipe da arqueóloga agora tenta, junto ao Departamento de Genética da universidade, estabelecer as origens geográficas dos corpos envoltos nos tecidos.
 
Anel viking com inscrição "para Alá", encontrado em um túmulo do século 9 | Foto: Gabriel Hildebrand/The Swedish History Museum
 
Contato
Historiadores há tempos já aceitam que houve contato entre os mundos viking e muçulmano, com base em evidências históricas que incluem a descoberta de moedas árabes na Suécia, em abril de 2008.
Há dois anos, arqueólogos examinaram um anel de prata retirado de um tumba no sítio arqueológico de Birka, no mesmo país, e encontraram a inscrição "para Alá" na peça.
O texto novamente estava em kufic, uma escrita desenvolvida na cidade iraquiana de Kufah, no século 7. Foi uma das primeiras formas usadas para escrever o Alcorão, livro sagrado muçulmano.
A descoberta de Larsson é ainda mais interessante porque é o primeiro registro histórico de uma menção ao califa Ali encontrado da Escandinávia.
"O nome de Ali é repetido diversas vezes ao lado de Alá", explica. "Sabemos que ele é altamente reverenciado pelos xiitas, o maior secto muçulmano. Pergunto-me se não há uma conexão."
Ali era primo de Maomé - e genro, pois casou-se com uma de suas filhas, Fátima. Tornou-se o quarto líder da comunidade depois da morte do profeta.
Sunitas - o outro grupo majoritário muçulmano - também têm Ali como um nome importante de sua fé. Mas seu status é mais elevado com os xiitas, que o consideram o herdeiro espiritual de Maomé.
 
Inscrições em um mausoléu Alevi na Bulgária - os nomes Alá, Maomé e Ali estão escritos em árabe na direita, mas ligados em um padrão na esquerda
 
"O uso de Ali sugere uma conexão xiita", diz Amir De Martino, especialista do Islamic College - uma universidade de estudos islâmicos com base em Londres.
"Mas sem a frase 'waly Alá', que significa 'amigo de Alá', acompanhando o nome, não seria algo vindo da cultura Shia. Pode ter sido copiado erroneamente", acrescenta De Martino.
O especialista diz que o padrão sugere que Ali está sendo igualado a Alá, o que pode sugerir a possibilidade de existência de um grupo mais radical que acreditava na divinificação do califa.
"O mais provável é que um padrão copiado incorretamente", pondera.
Os nomes de Alá e Ali frequentemente aparecem em padrões enigmáticos no interior de túmulos e livros de ramos xiitas como os alevis e bektashis. Mas estão sempre acompanhados pelo nome Maomé.
Larsson acredita que sua descoberta ofereça possibilidades promissoras.
"Agora que podemos examinar padrões vikings de forma diferente, estou convencida de que encontraremos mais inscrições islâmicas em outros tecidos. Quiçá até em diferentes artefatos".
 

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A poluição do passado pode estar escrita nos pássaros

À esquerda, cotovias com chifres procedentes das cidades industriais do leste dos EUA. À direita, exemplares da costa oeste

Ornitólogos e taxidermistas já tinham percebido: muitos dos pássaros embalsamados conservados nos museus de história natural durante décadas são mais escuros do que seus parentes atuais. Seleção natural ou artificial? Deriva genética ou mutação dos genes da pigmentação? Não, simplesmente suas penas estão contaminadas pela fuligem das fábricas e de quando se usava carvão para aquecer as casas. Esse escurecimento da plumagem das aves permitiu agora que dois pesquisadores reconstruíssem a história da poluição do ar nas cidades industriais.
“Queríamos fazer um projeto aproveitando as coleções de história natural para avaliar a mudança ao longo do tempo, neste caso, a mudança no meio ambiente. Trabalhamos com exemplares de pássaros do Museu Field de Chicago, um museu de história natural como o [espanhol] Museu Nacional de Ciências Naturais. Um dos responsáveis comentou que os espécimes de 100 anos atrás eram muito mais escuros do que os atuais. Pensava-se que essa descoloração se desse à poluição provocada pelo negro de carbono, mas a hipótese nunca foi confirmada, contam por e-mail os autores da pesquisa, os estudantes de pós-graduação da Universidade de Chicago (EUA) Shane G. DuBay e Carl C. Fuldner.
Os dois pesquisadores confirmaram por meio de um microscópio eletrônico (ver imagem) que não era um caso de melanismo industrial, como o da mariposa Biston betularia, que se mimetizou com as árvores escurecidas pela fuligem. Neste caso, a fuligem ambiental aderiu nos pássaros. Então eles procuraram saber se havia algum padrão temporal no escurecimento dos pássaros. E se houvesse, descobrir qual era e quanta poluição havia há um século.
Para isso, selecionaram 1.347 aves capturadas entre 1880 e 2015 de três das maiores coleções ornitológicas dos EUA, entre elas a do Museu Field. Organizaram as aves cronologicamente e as fotografaram. Os dois pesquisadores se aproveitaram de um duplo fenômeno. Por um lado, a fuligem tem um nível muito baixo de refletância luminosa, portanto as variações indicariam diferentes proporções de fuligem nas asas do pássaro e, por conseguinte, no ambiente em que voava. Por outro lado, as cinco espécies estudadas (duas de pardais, uma de cotovia, uma de pica-pau e uma de towhee oriental) mudam suas penas todos os anos. Logicamente, tinham em suas penas um reflexo da poluição atmosférica no ano em que foram capturados, embalsamados e adicionados à coleção.
 
“A fuligem das penas das aves nos permitiu rastrear a quantidade de negro de carbono no ar ao longo do tempo”, diz DuBay. Eles viram que o escurecimento evoluía paralelamente com o consumo de carvão. Desde o início do século passado, os pardais do campo ou as cotovias com chifres que eram acrescentadas às coleções tinham peitos cada vez mais negros. “Durante a Grande Depressão houve uma queda drástica do negro de carbono nos pássaros, pois o consumo de carvão caiu”, acrescenta. A quantidade de fuligem subiu de novo durante a Segunda Guerra Mundial e na década seguinte. Mas desde a década de 60 os pássaros foram recuperando sua cor branca.
Conforme explicado nos resultados do trabalho, publicado pela revista científica PNAS, em meados da década de 1950 os Estados Unidos aprovaram a Air Pollution Control Act (Lei de Controle da Poluição do Ar), a primeira legislação federal sobre poluição atmosférica. Então já se sabia que as partículas de negro de carbono causavam doenças respiratórias, mas ainda não se sabia que também provocavam câncer. O clareamento dos pássaros foi favorecido pela substituição acelerada do carvão por outras fontes de energia, como o gás e a eletricidade, para aquecer as casas. A eficiência energética e a concentração industrial ajudaram a reduzir a presença de fuligem.
Para validar seus resultados, os pesquisadores os compararam com aqueles obtidos por vários estudos baseados na análise das partículas presas em cilindros de gelo obtidos na Groenlândia. Como os anéis das árvores, a profundidade do gelo pode ser usada como uma máquina do tempo. Com exceção das duas primeiras décadas do estudo, a fuligem presa no gelo apresenta uma evolução paralela àquela detectada por eles nos pássaros. A grande vantagem destes é que são testemunhas da poluição local, que os rodeava, enquanto que ao gelo da Groenlândia chega a poluição de todo o hemisfério norte.
O que os pássaros negros não podem revelar é quanta poluição havia. Sua cor é um valor relativo que indica se nesse ano houve mais ou menos fuligem do que no ano anterior ou no seguinte. Mas os autores da pesquisa já estão pensando em quantificar a poluição do passado comparando o escurecimento das penas dos pássaros que há um século voavam sobre as cidades industriais norte-americanas ou europeias com o dos pássaros que hoje voam nos céus de Pequim ou Nova Deli.

Poluição atmosférica causa mais de 520 mil mortes na Europa, por ano

82% dos europeus são expostos a índices de concentrações de partículas atmosféricas acima do recomendado pela OMS (Foto: Ben_Kerckx/Creative Commons)
 
A poluição atmosférica causa mais de 520 mil mortes prematuras na Europa por ano, segundo um estudo divulgado nesta quarta-feira (11) pela Agência Europeia do Ambiente (AEA). A maioria das mortes está relacionada a concentrações de partículas atmosféricas menores de 2,5 micrômetros, que podem entrar nos pulmões e na corrente sanguínea.
De acordo com o estudo, em 2014, a concentração de partículas atmosféricas foi responsável por 428 mil mortes prematuras em 41 países europeus, sendo que 399 mil delas ocorreram nos 28 países da União Europeia (UE).
O documento revelou que, em 2015, 7% da população urbana dos países do bloco foram expostas a índices de concentrações de partículas atmosféricas acima do permitido na UE. Já se forem considerados os limites da Organização Mundial de Saúde (OMS), que são mais restritos, esse número sobe para 82%.
Apesar dos altos números, os dados revelaram uma ligeira melhora da qualidade do ar em relação a 2013, quando 85% da população europeia foi exposta a limites de concentrações de partículas atmosféricas superiores aos recomendados pela OMS.
Outro poluente que tem causado mortes é o dióxido de nitrogênio. Cerca de 9% da população urbana na União Europeia foi exposta a níveis deste gás acima dos limites do bloco e das orientações da OMS. Estima-se que 78 mil mortes foram causadas na Europa em 2014 devido a essa exposição.
A agência alerta que, no futuro, a concentração de dióxido de nitrogênio pode continuar causando 75 mil mortes anualmente.
O estudo indicou que os maiores poluentes na região são automóveis, a agricultura, a geração de energia, a indústria e o sistema de aquecimento de casas.
"Enquanto sociedade, não devemos aceitar os custos da poluição atmosférica. Com decisões corajosas e investimentos inteligentes em transportes, energia e agricultura mais limpos, conseguiremos combater os problemas da poluição e melhorar a nossa qualidade de vida", destacou Hans Bruyninckx, o Diretor Executivo da AEA.
A agência ressaltou ainda que a má qualidade do ar tem impactos econômicos, ao aumentar despesas com saúde, causar danos no meio ambiente e reduzir a produtividade de trabalhadores.
"O relatório da AEA revela que a má qualidade do ar continua a ter efeitos consideráveis sobre a saúde. A Comissão Europeia está determinada a resolver este problema e a ajudar os Estados-Membros a assegurar que a qualidade do ar que os seus cidadãos respiram respeite as normas mais elevadas", disse Karmenu Vella, comissário da UE responsável pelo Ambiente, Assuntos Marítimos e Pescas.
 

O que a Catalunha e a Espanha perdem em caso de separação

A economia tem um papel-chave no processo separatista da Catalunha. Tanto soberanistas quanto os contrários à independência usam cifras como argumentos pró e contra a secessão.

Mapa da Espanha cortando a Catalunha
A Catalunha diz que aporta ao tesouro espanhol mais do que recebe - os dois grupos se acusam mutuamente de manipular dados e criar cenários que não existem.
Qualquer que seja o resultado, é inevitável que ambas as partes percam algo, segundo o presidente do IEE (Instituto de Estudos Econômicos), José Luis Feito.
O presidente catalão Carles Puigdemont anunciou nesta terça que tem a "intenção de seguir o desejo do povo catalão pela independência", mas propôs que o parlamento suspenda os efeitos da separação para que seja possível encontrar uma solução pacífica para o conflito e dialogar com o governo central de Madri.
Na prática, a situação se alterou pouco - ambos os cenários ainda são possíveis. Confira quais seriam as principais perdas para os dois lados em caso de separação.

O QUE A CATALUNHA PERDE

Bandeira catalunha em uma torre

1. A permanência na União Europeia

A grande maioria dos estudos que analisam qual seria o impacto econômico da independência catalã mostram um cenário em que a Catalunha continua na União Europeia, ou pelo menos no Espaço Econômico Europeu, que dá acesso ao mercado único.
Mas a União Europeia já avisou que isso não acontecerá. Se a Catalunha se converter em um novo Estado, terá que solicitar seu ingresso na instituição e cumprir todas as exigências rigorosas, um processo que leva anos.
O governo catalão acredita que a UE não aplicará, na prática, esse discurso, embora não fazê-lo abrisse um precedente para outras regiões que também poderiam iniciar um processo separatista, como a Baviera alemã e a Lombardia italiana.
A saída do bloco também representaria um baque na área científica, já que empresas e universidades não poderiam participar de programas de pesquisa europeus. A Catalunha tem 1,5 bilhão de euros assegurados por um fundo de pesquisa da UE para o período 2014-2020.
Mapa da União Européia
 

2. A zona do euro

A Generalitat (o governo catalão) disse que a Catalunha não deixará de utilizar o euro mesmo se ficar fora da zona da moeda.
Assim como faz o Equador com o dólar americano, o governo catalão manteria o euro como moeda para dar "segurança jurídica às transações empresariais de suas companhias".
O economista Feito considera isso impossível, já que uma Catalunha independente nasceria com uma fuga de empresas e capitais que não a permitiria dar conta de pagamentos como os salários de seus funcionários nem nos primeiros cem dias.

Bandeira espanhola com euros
 
"Ninguém emprestaria euros ao Estado catalão, e ele teria que imprimir sua própria moeda. E ela seria brutalmente inflacionária", afirma Feito à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC. "E por não ser membro da zona do euro, sua dívida não poderia ser utilizada para pedir financiamento ao Banco Europeu."
Segundo o economista, o mercado não dará opção à Generalitat, e este promoverá um "curralito" para conter a saída de euros, o que fará até os catalães pró-independência tentarem sacar seu dinheiro dos bancos.
Outra consequência da adoção do euro seria o encarecimento das exportações, reduzindo a competividade.

3. O Banco Central Europeu

Ao ficar de fora da zona do euro, a Catalunha perderia a rede de segurança que inclui o Banco Central Europeu, que durante a crise salvou várias entidades espanholas.
Logo após o líder catalão Carles Puigdemont anunciar que declararia a independência de forma unilateral, dois dos maiores bancos catalães, o Sabadell e o CaixaBank, decidiram transferir suas sedes para outras regiões da Espanha. A ação segurou um pouco a queda que sofriam na Bolsa.

Banco Central Europeu
 
O Conselho Assessor para a Transição Nacional (CATN) da Catalunha acredita que a UE atuará para evitar um cenário catastrófico como o descrito por Feito, pois esses prejuízos afetariam cidadãos e empresas que são plenamente membros da UE.

4. A economia

Segundo o governo catalão, a região aporta mais ao tesouro espanhol do que recebe em troca. São 16 bilhões de euros, cerca de 8% de seu PIB.
"Mas isso não quer dizer que a Catalunha ganharia de maneira imediata 16 bilhões de euros (em caso de independência)", diz o professor de tributação da UFP Barcelona School of Management, Albert Sagués.
Há gastos que no momento estão a cargo da Espanha, como os do Exército, da seguridade social e da aposentadoria. Segundo os cálculos de Sagués, descontados esses valores, a Generalit teria um superavit de 8 bilhões de euros.
O governo central admite que a Catalunha tem um saldo fiscal negativo, mas diz que de 5,02% do PIB, e não 8%, de acordo com dados do Ministério da Fazenda.

Fábrica catalã
 
Feito diz que uma declaração unilateral de independência geraria um declínio significante da atividade econômica, o que derrubaria a economia e, consequentemente, aumentaria o desemprego.
O ministro da Economia espanhol, Luis de Guindos, diz que o PIB catalão se contrairia entre 25% e 30% em caso da secessão. O banco Credit Suisse, por sua vez, afirma que essa redução seria da ordem de 20%.
Para Sagués, a economia do novo Estado não diminuirá mais do que 4% - e isso no pior dos cenários.
"Na Segunda Guerra Mundial, os países perderam 25% do PIB. Estamos falando de uma situação de guerra em que morreram milhares de pessoas. Se alguém diz que o PIB catalão cairá 30%, quer dizer que o que acontecerá à Catalunha é pior do que uma guerra mundial. Não creio que seja o caso", afirma.

5. Fuga de empresas

Alguns informes, incluindo os da Generalitat, dão por certo que a produção do novo país sofrerá boicote por parte da Espanha. Isso porque há um antecedente.
Em 2004, o líder de um partido separatista fez declarações contra a candidatura de Madri aos Jogos Olímpicos de 2012. Isso acarretou um boicote do resto da Espanha à indústria da cava, um vinho espumante típico da Catalunha.
Na semana passada, uma das principais marcas desse setor, a Freixenet, anunciou que estudava transferir sua sede para fora do território catalão. Ao menos sete empresas fizeram o mesmo, entre elas a de energia Gás Natural Fenosa.

Garrafas de cava Freixenet
 
Segundo Feito, 80% das empresas na Catalunha são multinacionais e só estão na região porque ela faz parte da UE. Se saírem do bloco econômico, terão que pagar taxas.
Uma em cada três empresas de exportação da Espanha têm sede na Catalunha, assegurando 25% das exportações do país, segundo dados do Ministério da Economia.
Ainda de acordo com a pasta, a Espanha compra 40% dos produtos que saem da Catalunha e os outros 40% vão para o resto da UE. Além disso, 14,3 % dos turistas que visitam a Catalunha são da Espanha.
Mesmo assim, o Conselho Assessor para a Transição Nacional da Catalunha acredita que um boicote levaria a uma queda do PIB não maior de 2%.

O QUE PERDE A ESPANHA

Bandeiras espanholas em Madri

1. Sua região mais próspera

A Espanha ainda não se recuperou completamente da grave crise econômica que atravessou por quase uma década.
Há cerca de 4 milhões de desempregados e mais da metade deles tem procurado trabalho nos últimos 12 meses, segundo dados do INE (Instituto Nacional de Estatística) - sem os catalães, o número cairia para 3,4 milhões.

Gráfico do PIB espanhol
 
Com a secessão, o país perderia sua região mais rica: em 2016, a Catalunha registrou um PIB recorde de 223,6 bilhões de euros, cifra superior à da economia do Equador e o dobro da do Panamá.
A independência custaria à Espanha a perda de 19% de seu PIB e de 18,4% de suas empresas - resultando em um Estado mais pobre. O PIB per capita também cairia para 23,50 euros, segundo cálculos do professor Sagués.
De acordo com dados de 2014 do Ministério da Fazenda, a Catalunha aporta 70,3 bilhões de euros (US$ 82 bilhões) nos cofres espanhóis, mais do que o restante das regiões.
Desse total, o governo central fica com US$ 11,5 bilhões, que utiliza para ajudar áreas mais pobres do país, como Extremadura.

Gráfico sobre o uso da língua catalã
 
O FMI (Fundo Monetário Internacional) se mostrou preocupado com a situação. Segundo a entidade, se as tensões políticas com a Catalunha continuarem, a confiança em investimentos e o consumo podem ser afetados.

2. Inovação e empreendimento

A Catalunha é uma região que tem investido muito em pesquisa e inovação - e já desenvolveu indústrias pioneiras na Espanha.

Congresso de telefonia em Barcelona
 
Das 108.963 publicações científicas produzidas por universidades espanholas entre 2006 e 2015, 25,68% saíram da Catalunha. Madri vem em seguida, com 19,91%, segundo dados da Aliança 4 Universidades.
Barcelona ocupa o 5º lugar no ranking de startups na Europa, uma posição à frente de Madri. No ano passado, as startups catalãs captaram 282 milhões de euros, o que representou 56% de todos os investimentos realizados na Espanha.
A região também lidera o ranking de pedidos de patentes do país: em 2016, 35,1% das 547 solicitações vieram da Catalunha, contra 20,6% de Madri, segundo o Escritório Europeu de Patentes.

3. Infraestrutura

A independência da Catalunha levaria a Espanha a perder seu principal porto no mar Mediterrâneo, o de Barcelona, que no ano passado movimentou 48 milhões de toneladas.
O porto também é essencial para o turismo: 4 milhões de passageiros passaram por ele em 2016.
Outro porto importante da Catalunha é o de Tarragona, região que também abriga o maior número de indústrias químicas do país.
Muitos aeroportos também operam na Catalunha, como o El Prat, em Barcelona, que contabilizou 44,1 milhões de passageiros no último ano.
A região também abriga duas das seis indústrias nucleares da Espanha, responsáveis por produzir 40% da energia nuclear do país.

4. Dívida externa e ativos

Uma das questões mais espinhosas de uma possível secessão é a dívida externa que teria o novo Estado catalão.
Os informes do Conselho Assessor para a Transição Nacional dizem que a Catalunha deveria assumir a dívida que está no nome da Generalitat, dos governos provinciais e municipais. O valor seria de US$ 90 bilhões, o equivalente a 35,4% de seu PIB. Desse total, US$ 61 bilhões correspondem a compromissos com o governo da Espanha.
A dívida em nome do Estado espanhol é utilizada para gastos e investimentos em prol de todas as regiões, incluindo a Catalunha, por isso muitos insistem para que ela assuma a parte que lhe cabe.
Em um debate ocorrido há dois anos, o ex-diretor da Bolsa de Barcelona, José Luis Oller, estimou em 180 bilhões de euros o peso da economia catalã na dívida da Espanha, em um debate ocorrido há dois anos. Ele também disse que era necessário somar o valor dos ativos que o Estado tinha na Catalunha, estimado em 50 bilhões de euros.
A dívida total de uma Catalunha independente, segundo seus cálculos à época, seria de 290 bilhões de euros, ou 145% de seu PIB.
O CATN nega que a região deva aceitar as dívidas contraídas para investimentos e obras fora de sua área. Ele aconselha a negociação da dívida que não pode ser atribuída a um território concreto no caso de o Estado espanhol transferir ao novo país parte dos ativos comprados com esse dinheiro.
Por exemplo, se a Espanha se endividou para criar uma empresa pública que funcione a nível nacional, a Catalunha assumirá parte da dívida sempre que receber as ações correspondentes dessa companhia.
Como há poucas possibilidades de negociação neste momento, o mais provável em caso da secessão é que a Espanha tenha de pagar sozinha o total da dívida enquanto tenta resolver o conflito com o novo país nos tribunais internacionais, explica o economista Feito.
A Catalunha também avalia que a Espanha deve repartir igualmente os bens públicos fora do país, como as sedes das embaixadas, as plataformas de petróleo, as bases militares, os satélites espaciais e as contas em bancos estrangeiros.

A Sagrada Família em Barcelona

5. Patrimônio cultural e turismo

A Espanha é uma potência turística. No ano passado, recebeu 75,3 milhões de visitantes estrangeiros, um recorde. Quase um quarto dessas pessoas (22,5%) tinham a Catalunha como destino.
Seus 580 quilômetros de costa oferecem praias paradisíacas, às quais se chega facilmente de trem ou ônibus. No inverno, as montanhas dos Pirineus estão entre as favoritas dos esquiadores.
A região também tem uma importante oferta cultural graças a obras que são patrimônio da humanidade, como as do arquiteto Antonio Gaudí, em Barcelona (A Sagrada Família, Parc Guell etc.)
Segundo o CATN, o governo catalão poderia exigir a devolução de arquivos, bens culturais e patrimônios nacionais que façam referência à Catalunha ou cujo autor seja catalão.
Com essa medida, obras de Salvador Dalí ou de Joan Miró que estão em exposição em museus de Madri, como o Reina Sofia, por exemplo, teriam que ser entregues ao novo Estado.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Como a busca por um "raio da morte" militar levou à escoberta do radar

É possível atribuir nossa confiança em viagens aéreas a muitas invenções. O motor a jato, talvez. Ou o próprio avião.
Mas às vezes, invenções precisam de outras invenções para atingir todo o seu potencial.
Para a indústria da aviação, um momento decisivo foi a tentativa de inventar um "raio da morte", em 1935.
Na época, oficiais do ministério britânico da Aeronáutica estavam preocupados com a possibilidade de serem ultrapassados pelos nazistas na corrida armamentista.
Eles estavam intrigados com a ideia do "raio da morte" e ofereceram um prêmio de mil libras para qualquer um que conseguisse "desintegrar" uma ovelha a 250 pés (76 metros) de distância.
Até então, ninguém tinha conseguido o feito. E o ministério não encontrava caminhos ou ideias a sugerir.
 
Harry Grindell Matthews
 
Informalmente, eles sondaram Robert Watson Watt, do centro de pesquisas de laboratório Radio Research Station.
Watt, por sua vez, abordou um colega, Skip Wilkins, com uma espécie de "desafio matemático".
"Suponha que você tem 4,5 litros de água, a 1 km do chão", disse Watt a Wilkins. Suponha que a água esteja a 37° Celsius, e que você quer aquecê-la a 40°. Qual a potência necessária para isso, a uma distância de 5 km?"
Skip Wilkins não era ingênuo. Ele sabia que 4,5 litros é a quantidade de sangue em um adulto, e que 37° é temperatura normal do corpo humano. Aquecer o sangue a 40° é suficiente para matar alguém, ou então fazer a pessoa desmaiar – o que, se você está pilotando um avião, dá na mesma.
Wilkins e Watt se entenderam e concordaram rapidamente que um "raio da morte" estava fora de cogitação: precisaria de muita potência. Mas a dupla viu uma oportunidade.
O ministério claramente tinha um dinheiro para gastar em pesquisa. Talvez os dois pudessem propor alguma maneira alternativa e útil de usar essa verba?
 
Robert Watson Watt
 
Wilkins sugeriu que talvez fosse possível transmitir ondas de rádio e detectar – a partir dos ecos – a localização de aeronaves muito antes de poder vê-las.
Watt consultou o recém-criado comitê para pesquisas científicas do ministério: eles estariam interessados na ideia?
Eles estavam. E o que Wilkins estava descrevendo é o que mais tarde acabou sendo chamado de "radar".
Como Robert Buderi descreveu no livro A Invenção que Mudou o Mundo, os alemães, os japoneses e os americanos também estavam pesquisando a tecnologia independentemente.

Avanço espetacular

Mas foram os britânicos que, em 1940, tinham feito um avanço espetacular, ao desenvolver a válvula termoiônica magnetron, um transmissor de radar bem mais potente que seus predecessores.
Sob constante ameaça dos bombardeiros nazistas, as fábricas britânicas teriam dificuldade em produzir o mecanismo. Mas a indústria americana conseguiria fazê-lo.
Por meses, líderes britânicos planejaram usar o magnetron como moeda de troca por segredos americanos em outras áreas.

Winston Churchill

Mas quando Winston Churchill assumiu o cargo de primeiro-ministro, este, convencido de que tempos difíceis clamavam por medidas difíceis, decidiu que os britânicos iriam simplesmente compartilhar o que tinham com os americanos e pedir ajuda.

Tensa jornada

Então, em agosto de 1940, o físico britânico Eddie Bowen enfrentou uma tensa e longa jornada com um baú de metal negro levando uma dúzia de protótipos de magnetrons.
Primeiro, ele teve que cruzar Londres de táxi. Como o motorista se negou a deixá-lo levar o baú dentro do carro, ele teve que torcer para que este não caísse do rack no teto.
Em seguido, pegou um trem até Liverpool. Teve que dividir o compartimento com um homem misterioso e bem vestido, que tinha ares militares e passou a viagem inteira ignorando o jovem cientista e lendo um jornal.
Bowen então pegou um navio para cruzar o Atlântico. E se o navio fosse atingido por um submarino alemão? Os nazistas não podiam tomar posse dos mecanismos. Dois buracos foram feitos no baú para garantir que ele afundasse em caso de naufrágio. Mas o navio não foi atacado.
O magnetron deixou os americanos estarrecidos. A pesquisa deles estava anos atrasada.
O presidente americano, Franklin Roosevelt, aprovou financiamento para um novo laboratório no MIT, o renomado Instituto de Tecnologia de Massachusetts; um raro caso entre os esforços americanos de guerra de uma pesquisa com fins militares administrada por um entidade civil.

Lento começo

O Laboratório de Radiação do MIT, conhecido como Rad Lab, foi um sucesso em todos os critérios. Dele vieram dez pesquisadores agraciados com o Prêmio Nobel. O radar que desenvolveu ajudou a vencer a guerra ao detectar aviões e submarinos.
 
Um operador de radar da RAF em 1945
 
Mas a urgência dos tempos da guerra pode rapidamente ser esquecida em tempos de paz.
Parece óbvio que a aviação civil também precisaria de radares, considerando o quanto estava se expandindo.
Em 1945, no final da guerra, linhas domésticas nos EUA levaram 7 milhões de passageiros. Em 1955, o número tinha chegado a 38 milhões.
E quanto mais cheio estivesse o céu, mais útil seria o radar.
Mas sua instalação para prevenir colisões foi lenta e irregular. Alguns aeroportos instalaram, outros não.
Na maior parte do espaço aéreo, aviões não eram rastreados. Pilotos apresentavam seus planos de voo com antecedência, o que teoricamente garantiria que dois aviões não estivessem no mesmo lugar ao mesmo tempo.
Na prática, no entanto, evitar colisões era uma questão de ver e ser visto.

Colisão desastrosa

Em 30 de junho de 1956, dois voos de passageiros partiram do aeroporto de Los Angeles com três minutos de diferença. Um ia para Kansas City, o outro para Chicago. Seus planos de vôo se cruzavam acima do Grand Canyon, mas a diferentes alturas.
Quando nuvens pesadas tomaram conta do céu, o piloto de um dos aviões pediu autorização por rádio para voar acima da tempestade. O controlador liberou.
Ninguém sabe ao certo o que aconteceu então: aviões não tinham caixas-pretas e não houve sobreviventes. Pouco antes das 10h31, o controlador de tráfego ouviu uma truncada transmissão dizendo: "Pra cima! Estamos indo em..."

Placa sobre o acidente no Grand Canyon National Park

Pelos destroços que sobraram, espalhados por quilômetros através do cânion, os aviões parecem ter se aproximado um do outro a um ângulo de 25 graus, possivelmente através das nuvens.
Investigadores especularam que ambos os pilotos estavam distraídos tentando encontrar vãos entre as nuvens para que os passageiros pudessem ver a paisagem.

Problema atual

A questão de céus muito cheios está voltando à tona com o advento de drones e veículos aéreos não pilotados. Eles já estão sendo usados para várias tarefas: de colher imagens para filmes a pulverizar colheitas.
E empresas como a Amazon esperam que logo os céus estejam cheios de entregas feitas com os drones.

Drone e avião

Autoridades responsáveis pela aviação civil estão lidando com a questão e decidindo o que aprovar. Drones têm uma tecnologia de detectar e evitar outras aeronaves. Mas será boa o suficiente?
O trágico acidente ocorreu sobre o Grand Canyon certamente fez muita gente concordar que, se havia tecnologia disponível para evitar desastres desse tipo, por que não usá-la?
Em dois anos, foi criado o que hoje se conhece como Administração Federal de Aviação dos EUA.
Os céus do país hoje estão bem mais agitados - cerca de 20 vezes a mais.
Os aeroportos hoje têm decolagens e pousos a uma média de dois por minuto. Colisões são extremamente raras, não importa o quão nublado esteja o tempo. Isso graças a muitos fatores – mas principalmente graças ao radar.
BBC Brasil

A Catalunha independente seria um país viável?

Uma série de perguntas surgem diante da possibilidade da Catalunha se separar da Espanha.
Como seria o futuro da Catalunha sozinha? A região estaria pronta para ser um país?
O líder separatista da Catalunha, Carles Puigdemont, fez um discurso nesta terça dizendo que pretende seguir o desejo do "povo catalão por independência", mas pediu ao parlamento que suspenda os efeitos da declaração para que seja possível encontrar uma solução pacífica com o governo central de Madri.
O governo espanhol já havia afirmado que tomaria todas as providências para que qualquer declaração de independência não tivesse efeito.
O anúncio de Puigdemont pouco mudou a situação do país, sob tensão desde o controverso referendo de 1º de outubro, no qual 2 milhões de pessoas (43% do eleitorado) votaram sobre a separação. De acordo com cálculo do próprio movimento, 90% dos votantes foram a favor da independência. A região tem 7,3 milhões de habitantes.
 
O referendo foi duramente criticado pelo governo central espanhol e reprimido pela polícia do país. Episódios de violência policial deixaram quase 900 feridos e despertaram mais protestos nessa região do nordeste espanhol. Durante a votação, também 33 policiais ficaram feridos, segundo a imprensa local.
Para um observador casual na Catalunha, a área já pode parecer um país: tem um Parlamento, uma bandeira e um líder, Carles Puigdemont, e sua própria polícia, a Mossos d'Esquadra. Também oferece serviços públicos, como saúde e escolas, além de ter "missões" no estrangeiro - pequenas representações diplomáticas para promover seus produtos e buscar investimentos ao redor do mundo.
Para se tornar um país, porém, a área precisa de mais: controle de fronteiras, alfândega, impostos, relações internacionais, Exército, um banco central, receita federal, controle de tráfego aéreo. Hoje, tudo isso é administrado pelo governo da Espanha.
É possível bancar toda essa estrutura se a Catalunha se tornar independente de fato?
 

Razões para ficar otimista

"Madrid está nos roubando" é um slogan popular na Catalunha. A região é rica comparada com o resto da Espanha. Ela tem 16% da população do país, mas representa 19% do Produto Interno Bruto (PIB) espanhol e mais de um quarto das exportações.
Essa importância econômica também se reverte no turismo. No ano passado, 18 dos 75 milhões de pessoas que visitam a Espanha anualmente escolheram a Catalunha como principal destino - a região é a principal ponto turístico da Espanha.

Carles Puigdemont

A cidade de Terragona é um dos maiores polos de tecnologia química da Europa. Barcelona tem um dos maiores portos da União Europeia. Cerca de um terço dos trabalhadores catalães têm formação superior.
Também é verdade que os catalães pagam mais impostos do que recebem em troca, por meio de gastos públicos do Estado. Em 2014, últimos dados disponíveis, os moradores pagaram cerca de € 10 bilhões (R$ 37 bilhões) a mais de impostos do que os gastos estatais na região naquele ano.
Como a independência pode reverter essa situação?
Há quem argumente que, mesmo que a Catalunha obtenha ganhos fiscais com a independência, estes seriam engolidos pelos custos da criação de novas instituições públicas.

Acesso a crédito

Talvez a principal preocupação seja a dívida pública, estimada em € 77 bilhões (R$ 284 bilhões) - ou 35% do PIB local. A maior parte da dívida é com o próprio governo espanhol.
Em 2012, o governo central criou um fundo especial para emprestar dinheiro para as regiões do país que não conseguiam empréstimos no exterior depois da crise financeira. A Catalunha foi a maior beneficiária, pegando € 67 bilhões (R$ 195 bilhões) desde o início do programa.
A Catalunha não só perderia o acesso a esse crédito, como teria de negociar o pagamento - ou não - da dívida com a Espanha. Outra pergunta é se Madri espera que Barcelona também arque com parte da dívida espanhola.

Dúvidas na economia

A incerteza econômica com a perspectiva da mudança já levou dois bancos a decidir transferir suas sedes para outras regiões.
Também há dúvidas sobre a futura relação entre a Catalunha e a Europa. Dois terços das exportações da região vão para a União Europeia. Para entrar no bloco, a Catalunha teria de passar por um novo processo de candidatura à entrada no bloco, pois isso não aconteceria automaticamente. A maioria dos países do bloco, inclusive a Espanha, teria de aceitar o novo membro.
Líderes do movimento pró-independência argumentaram que a Catalunha poderia participar do mercado único sem se tornar membro efetivo da União Europeia. Os catalães poderiam aceitar pagar por esse acesso - como faz a Noruega, por exemplo - e continuar a aceitar a livre circulação de cidadãos europeus por seu território.
E se a Espanha quiser, pode dificultar bastante a vida de uma Catalunha independente.
Há também a questão da moeda. Em 2015, o Banco da Espanha afirmou que a independência poderia causar um desligamento automático da região da zona do euro, perdendo acesso ao Banco Central Europeu.
Normalmente, para usar o euro como moeda, o país precisa ser aceito na União Europeia. Para que isso ocorra, porém, o país precisa cumprir com uma série de critérios, como não ter um porcentual alto do PIB comprometido com dívidas.
E ainda assim, a maioria dos países do bloco teria de aceitar o seu ingresso.
Até hoje, ninguém da zona do euro pediu independência e tentou entrar novamente no bloco como um país.
A Catalunha poderia usar o euro sem entrar na União Europeia? Isso já aconteceu. Países como San Marino e o Vaticano conseguiram fazer isso, uma vez que são pequenos demais para se tornar um membro do bloco.
Kosovo e Montenegro também usam o euro dessa forma - mas eles não têm acesso ao Banco Central Europeu.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Estrela mata irmã e gera fenômeno incomum na ciência

Pesquisadores brasileiros observam estrela rebaixada à condição de anã branca por causa de sua companheira
 
Um grupo de astrônomos brasileiros observou uma dupla de objetos celestes (sistema binário) bastante rara na Via Láctea, composta por uma anã branca de baixíssima massa e uma anã marrom. Ao analisá-las mais detidamente, eles constataram algo incomum: a anã branca, que corresponde ao estágio final de uma estrela de massa intermediária (com aproximadamente 0,5 a 8 vezes a massa do Sol), teve sua trajetória interrompida precocemente por sua companheira,  uma anã marrom, que a matou prematuramente por "desnutrição" ou perda de matéria.
As observações foram realizadas entre 2005 e 2013 no Observatório do Pico dos Dias em Brazópolis (MG) e no banco de dados públicos do telescópio William Herschel, localizado nas Ilhas Canárias, durante um projeto apoiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Tudo foi descrito em um artigo publicado no "Monthly Notice of the Royal Astronomical Society.
"Esse tipo de sistema binário, de baixa massa, é relativamente raro. Até então, só eram conhecidos poucas dezenas deles", disse Leonardo Andrade de Almeida, pós-doutorando no IAG/USP (Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências.Atmosféricas da Universidade de São Paulo) e principal autor do estudo.
Segundo ele, o sistema binário, situado na constelação de Perseu, é de massa superbaixa e o menos massivo dessa classe identificado até hoje. Almeida realizou o estudo em colaboração com colegas do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e da UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), da Bahia, em estudo com supervisão do professor Augusto Damineli.
A anã branca tem entre dois e três décimos da massa do Sol e temperatura superficial de 28,5 mil Kelvin (K). A anã marrom possui massa de, aproximadamente, 36 a 46 massas de Júpiter, o maior planeta do Sistema Solar.
 Antes de ser rebaixada a essa condição, a anã branca era uma estrela normal. Por ser mais massiva do que sua companheira ela evoluiu mais rapidamente, gerando um núcleo de hélio ao queimar hidrogênio durante sua existência.
 Ao queimar hidrogênio de forma acelerada na camada que envolve o núcleo de hélio, a estrela caminhava rumo à categoria de gigantes vermelhas --a trajetória natural de estrelas do tipo solar-- e pode ter atingido um raio maior que a distância da Terra ao Sol (cerca de 150 milhões de quilômetros).
Com essa pujança, ela começou a interagir não só gravitacionalmente, mas também transferir massa para sua companheira. "Essa transferência de massa da estrela mais massiva --o objeto primário-- para sua companheira, que é o objeto secundário, ocorreu de forma desenfreada e instável e em um curto espaço de tempo", explicou Almeida.
O objeto secundário foi atraído e "engolido" pela atmosfera do primário --chamada de envelope--, onde começou a orbitar. Durante esse processo de atração, o objeto secundário perdeu o momento angular orbital (grandeza física associada ao movimento de translação de um corpo) devido ao choque e ao atrito com o envelope do objeto primário, que foi transformado em energia cinética.
Quando a energia transferida pelo objeto secundário chegou a um ponto em que superou a força gravitacional que mantinha o envelope preso ao núcleo do objeto primário, ocorreu uma grande ejeção de matéria do sistema, deixando o objeto primário despido, com apenas seu núcleo de hélio exposto.
Como a matéria ejetada corresponde a uma grande parcela da massa do objeto primário, ela teve sua morte prematura decretada uma vez que, nessa condição, não conseguiu queimar mais hélio de seu núcleo e gerar luz própria. Por isso passou a ser considerada uma anã branca, explicou Almeida. "O objeto secundário, que hoje é uma anã marrom, também deve ter ganhado um pouco de matéria quando dividiu o envelope com o objeto primário, mas que não foi suficiente para queimar mais hélio de seu núcleo e gerar luz própria. Por isso, passou a ser considerada uma anã branca, explicou Almeida.
"O objeto secundário, que hoje é uma anã marrom, também deve ter ganhado um pouco de matéria quando dividiu o envelope com o objeto primário, mas que não foi suficiente para chegar a ser uma nova estrela", estimou o pesquisador.
 
Origem dos objetos
 Segundo Almeida, a descoberta desse sistema binário, composto por um objeto com seu núcleo exposto orbitando em torno de outro objeto frio em um curto período de tempo, de aproximadamente três horas, poderá contribuir para entender melhor como objetos quentes e compactos como as anãs brancas de baixa massa, descobertas há pouco tempo, são gerados.
 Essa classe de objetos mortos só pode ser formada dentro de sistemas binários, considerando a idade do Universo. "Os sistemas binários fornecem uma maneira direta de medir o principal parâmetro das estrelas, que é a sua massa", disse Almeida.
Cerca de 50% das estrelas de baixa massa na Via Láctea são sistemas binários. Entre as estrelas de alta massa, esse índice chega a quase 100% e 75% deles vão interagir de alguma forma, como troca de matéria, acréscimo da velocidade de rotação das componentes e fusão, estimou.
"Por isso sistemas binários são cruciais para entendermos o ciclo de vida das estrelas", disse Almeida.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

É saudável beber café?

café faz bem para a saúde?
 
O café é, depois da água, a bebida mais consumida no mundo. Embora exista uma dança de números entre as diferentes fontes, estima-se que são consumidas entre 1,6 a 2 bilhões de xícaras por dia. E isso é muito. Talvez seja a razão pela qual o café e seus possíveis efeitos sobre a saúde – tanto positivas como negativas –, sejam sempre objeto de pesquisas e estudos.
Como muitas vezes acontece nestes casos, o pior para os consumidores é como muda a mensagem, o fato de que – como diria Doc Emmet Brown –, na mesma linha espaço-temporal coexistam duas realidades opostas; a primeira animando o consumo de café saudável e a outra criminalizando-o. Vamos ver o que a ciência sabe sobre o café, sua complexa composição e a infinidade de variáveis na sua obtenção e processamento, algo que, no final, vai condicionar seus efeitos.

Café, saúde e ciência

Desde os anos setenta o café foi claramente penalizado em sua relação com a saúde, especialmente quando seu consumo é relacionado, a partir dos anos setenta, com os acidentes vasculares cerebrais, principalmente por sua capacidade de aumentar a pressão arterial. No entanto, esta perspectiva – além de limitada na relação com a cafeína –, é injusta ao não levar em consideração o efeito total do seu consumo de forma habitual baseado nas outras substâncias que podem ter efeito sobre a saúde. Falamos de compostos fenólicos, diterpenos e podemos seguir até listar mais de 1.000 componentes.
No sentido positivo, foi difundido sobre a cafeína várias propriedades variáveis dependendo da quantidade: isto é, da dose. Seu efeito mais destacado e contrastado é o de estimular o sistema nervoso central, aumentando o estado de alerta e agitação. Mas ao mesmo tempo também relaxa o músculo liso, estimula o músculo cardíaco, a diurese, e parece ser útil no tratamento de alguns tipos de dor de cabeça. Também foram observados alguns efeitos intracelulares, como por exemplo sua capacidade para inibir certas enzimas e modular o metabolismo do cálcio da célula.

Controla com o açúcar

Além da cafeína, o café também se destaca por fornecer numerosas substâncias de caráter fenólico. Incluindo os ácidos cafeoilquínicos cujo componente mais conhecido é o ácido clorogênico, relacionado em alguns estudos com certa capacidade para inibir o câncer. Mas, como acontece com a cafeína, sua presença também vai depender dos numerosos fatores que comentamos antes: origem do café, processamento e preparação.
Deste modo, seja pela cafeína ou pela presença de outras substâncias, o consumo de café foi associado a uma possível diminuição do risco de várias doenças incluindo: diabetes tipo 2, cirrose, câncer de fígado, pedras na vesícula, doenças cardíacas e de Parkinson.
Mas recentemente o café também é relacionado negativamente com a saúde por outras razões. Principalmente porque costuma ser acompanhado com o consumo de açúcarque não precisamos realmente. E não está claro se, no caso das mulheres grávidas, a cafeína pode alterar o peso dos recém-nascidos.

Um bom aliado, mas nem tanto

Recentemente muitos meios de comunicação divulgaram um estudo científico com manchetes relativamente exageradas. Foi sugerido ou indicado sem mediações que o consumo de pelo menos três xícaras de café por dia reduziria o risco de morte prematura. Além das possíveis leituras descontextualizadas, é preciso levar em conta que o estudo que poderia justificá-las é de natureza observacional, por isso é difícil estabelecer relações indubitáveis de causa e efeito entre variáveis diferentes (neste caso o consumo de café e a mortalidade), como reconhecido pelos próprios autores do estudo.
Outro dado importante sobre este trabalho é que a avaliação do consumo de café dos participantes foi realizada apenas uma vez durante os 16 anos de duração do estudo. É razoável pensar que o padrão de consumo de café de uma pessoa permanecerá inalterado ao longo de 16 anos? Tudo isso sem esquecer que o estudo em questão é incapaz de atribuir a causa do benefício observado a qualquer elemento concreto do café: poderia ser a cafeína, os ácidos cafeoilquínico, os antioxidantes, ou se quisermos, pela cor preta do café.

Este café dá entre miedete e ternura

Um resumo (no tempo necessário para tomar um café)

  • Com as evidências que temos hoje, não é necessário observar uma precaução especial com o café na relação com a saúde: pelo contrário, seu consumo poderia inclusive ser benéfico. Em forma condicional.
  • Também não devemos transferir ao café um efeito talismã ou protetor com o qual alguém poderia chegar a pensar que, desde que bebesse café, poderia cometer qualquer estripulia nutricional que estaria seguro.
  • A idoneidade sobre o consumo de café deveria ser individualizada, especialmente levando em conta as diferentes susceptibilidades genéticas, que envolvem diferentes comportamentos fisiológicos, por exemplo, na metabolização da cafeína. Para rápida compreensão, nem todas as pessoas reagem da mesma forma frente a quantidades similares de cafeína: uns são mais afetados e outros menos; depende em grande parte de seus polimorfismos, de seus genes.
  • O consumo de café, como de qualquer outro alimento, deve ser observado como um todo, levando em conta outras possíveis associações relativas ao consumo de certos alimentos, bem como outros fatores relacionados ao seu uso. Por exemplo, quando a OMS publicou um posicionamento sobre o aumento do risco de câncer com o consumo de bebidas muito quentes.
  • Discutir se é mais saudável beber café ou chá só porque as duas bebidas têm cafeína é como comparar um Renault 5 com um Airbus A380 pelo fato de que os dois têm rodas. Para começar, um chá tem um décimo da cafeína do café (embora já vimos que isso pode ser muito relativo). A partir daqui, há pouco que pode ser comparado, especialmente quando existem inúmeras variantes das duas bebidas, cada uma delas com dezenas de compostos diferentes e em várias proporções. Compostos que podem ter um efeito fisiológico, mas não se sabe ao certo qual, nem se afetam todas as pessoas igualmente.
  • Se você quer saber quanto café bebem os espanhóis dentro do panorama global, a verdade é que não estamos entre as primeiras posições: cerca de 3 kg por ano per capita, o que nos deixa no 25º lugar, em uma classificação dominada pelos países nórdicos. A Finlândia ganha com seus impressionantes 9,6 kg por ano e por habitante.
  • Embora tenhamos visto que não é fácil saber quanta cafeína há no café e em outras bebidas, existem vários sites que se atrevem a responder ao desafio. Como uma aproximação, aqui mostramos o proposto pela Organização Como uma aproximação, aqui mostramos o proposto pela Organização Internacional do Café, a agência FDA dos EUA, e o Center for Science in the Public Interest.
    Juan Revenga é nutricionista, biólogo, consultor, professor da Universidad San Jorge, membro da Fundação Espanhola de Nutricionistas (FEDN).

Não existe ‘um café’, existem dezenas

Qualquer café – gênero botânico Coffea – independentemente da sua origem geográfica e variedade, pode vir de duas espécies: Coffea robusta e Coffea arabica. Aqui começam algumas das diferenças mais importantes: a primeira espécie, mais comum e econômica, tem cerca de três vezes mais cafeína que a segunda, mais seleta e geralmente mais cara. Na verdade, quando compramos café no supermercado ou quando pedimos na barra de um bar sem maiores pretensões, em 95% dos casos será um café da espécie robusta e sua origem não será destacada. Se é arábica, o mais provável é que esteja indicado.
Ao mesmo tempo, que o café seja tostado, torrado ou natural, também vai afetar não apenas seu conteúdo de cafeína, também outras substâncias de caráter polifenólico que devem ser consideradas. Sem esquecer outro dos elementos que vai influenciar: a forma como é elaborado. É que as diferentes preparações de um café, seja com uma cafeteira italiana, de filtro, de êmbolo, a vácuo, ou café turco, expresso, instantâneo, etc., vão condicionar de forma destacada o conteúdo de substâncias com atividade fisiológica.
Todos esses fatores foram destacados em várias publicações, que podemos resumir dizendo que concretizar a quantidade de cafeína e outros compostos em uma xícara “simples” de café é tão difícil como ganhar na loteria. O estudo chega à conclusão ainda, entre outras coisas, que os cafés servidos em várias cafeterias das três cidades europeias que participaram no estudo podem ter uma variabilidade de cafeína que oscila entre 48 e 317 mg (mais de seis vezes) e de 6 a 188 mg (mais de 31 vezes) no caso das substâncias polifenólicas.
Não é surpreendente que os autores terminem afirmando que a variabilidade de substâncias presentes em uma “xícara de café” é excepcionalmente elevada com base em sua origem, processamento, volume servido e forma de preparação, e por essas razões os consumidores deveriam estar mais bem informados sobre a composição do café que estão bebendo, pelo menos sobre a quantidade de cafeína e compostos fenólicos.
BBC.com 

Furacões estão mais frequentes e destruidores este ano?

Harvey, Irma, Maria e, agora, Nate - um furacão atrás do outro nos Estados Unidos e no Caribe.
Depois de matar mais de 20 pessoas em Honduras, Costa Rica e Nicarágua, a tempestade Nate deve ganhar força e chegar aos EUA como furacão de categoria 1 na escala Saffir-Simpson, que mede os fenômenos pela intensidade dos ventos e o potencial de destruição.
Nate está caminho do Texas e da Flórida, que ainda se recuperam dos estragos provocados por outros dois furacões, Harvey e Irma. Ambos derrubaram casas, provocaram inundações e mataram dezenas de pessoas nos EUA e no Caribe.
À espera da tempestade, estado de emergência foi declarado em Nova Orleans, no Estado da Louisiana e em 29 municípios da Flórida.
 
Por que tanto furacão?
Não é só impressão. O mundo está tendo mais furacões este ano que o normal. A quantidade e a intensidade das tempestades de grandes proporções registradas este ano estão acima da média anual.
Shuai Wang, pesquisador da Faculdade de Ciências Naturais do Imperial College London, explica que a média anual de furacões no Atlântico é de 6,2, conforme a série histórica de 1968 a 2016 da Agência Norte-Americana de Administração Atmosférica e Oceânica.
Em 2017, antes mesmo do término do período de tempestades tropicais, já foram registrados sete furacões, quatro deles de grande proporções - classificados em categorias superiores a 3 na escala Saffir-Simpson. Nate pode ser o oitavo, se cumprir as previsões dos meteorologistas e chegar à escala 1.
"Ainda é cedo para sabermos a quantidade de furacões que teremos em 2017. Mas já podemos dizer que tivemos tempestades mais intensas que a média histórica", diz Wang.
Vários furacões, mesma rota

Em agosto, o furacão Harvey provocou estragos no Texas, Houston e Louisiana, matando pelo menos 47 pessoas. Pouco depois, entre nos dias 6 e 7 de setembro, o furacão Irma arrasou várias cidades do Caribe e o sul da Flórida, provocando mais de 60 mortes.
Numa infeliz coincidência, a mesma região afetada pelo Irma se tornou rota do furacão Maria e, agora, do Nate. Os ventos de até 260 km/h do Maria destelharam casas na ilha de Dominica - até o primeiro-ministro do país teve que ser resgatado da residência oficial.
Em sua passagem na quinta e sexta-feira por Costa Rica, Nicarágua e Honduras, o Nate provocou inundações, deslizamentos e danificou casas.
Além dos mais de 20 mortos, pelo menos 20 pessoas estão desaparecidas. Na Costa Rica, 400 mil pessoas ficaram sem água corrente e milhares estão em abrigos.

Altas temperaturas

O meteorologista Bob Henson, do Weather Underground, serviço norte-americano de previsão meteorológica, diz que as altas temperaturas do oceano alcançadas este ano podem ter contribuído para a força das tempestades.
"Já alcançamos, antes de terminar o ano, mais tempestades que a média do ano inteiro", disse.
Segundo Henson, por causa das mudanças climáticas, a intensidade dos furacões aumentou nas últimas três décadas. O ano de 2005 foi o que mais registrou furacões - 15 no total, entre os quais o Katrina, que matou ao menos 1,8 mil pessoas nos Estados Unidos.
"Podemos estar tendo furacões mais fortes associados ao fenômeno do aquecimento global. A temperatura da água afeta a intensidade da tempestade, embora não haja evidência de que influencie na quantidade", avaliou.
A opinião de que o aquecimento global tem papel relevante na intensidade dos furacões é compartilhada pelo pesquisador Shuai Wang, que prevê tempestades cada vez mais fortes se nada for feito para reverter o aumento da temperatura dos oceanos.
"O furacão é como um motor que precisa de combustível. A lógica é que, com a mudança climática, o oceano fica mais quente e gera mais energia para o ciclone, que acaba causando mais estragos quando alcança o continente", explicou.
"Os pesquisadores divergem sobre o efeito a longo prazo do aquecimento global. Eu acho que, se a temperatura continuar aumentando, teremos ciclones mais intensos", completou Wang.
Lógica parecida serve para desastres causados por excesso de chuvas, as chamadas monções. Para Bob Henson, a intensidade pode ter aumentado por causa do aquecimento solar.
"Temperaturas mais altas favorecem a evaporação das águas. O ambiente úmido da atmosfera permite chuvas mais fortes."