quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Entenda a teoria linguística do filme "A chegada"

Sony Pictures/Divulgação
 
Chegam os alienígenas. Mídia em ebulição, repórteres confusos, forças armadas em estado de alerta. Naves de 450 metros altura pairam imóveis sobre áreas inóspitas em vários países do globo. Não emitem sinal algum, não reagem a estímulo algum. Você poderia estar diante de um novo filme de Michael Bay, com protagonistas patriotas, explosões de dar inveja à Marvel e um caso de amor piegas.
Mas não nas mãos do diretor Denis Villeneuve, o mesmo de Sicario: Terra de Ninguém. O filme A Chegada (The Arrival), baseado em um conto do escritor Ted Chiang chamado História da Sua Vida, é ficção científica do melhor tipo, capaz de fugir de óbvio e trazer uma hipótese pouco conhecida pelo público para o centro do mundo.
As boas escolhas já começam na personagem central: a professora de linguística Louise Banks, interpretada por Amy Adams, é mais do que um respiro necessário em um gênero tomado por homens, em geral militares ou especialistas em ciências exatas.
É também a sexta das grandes heroínas do diretor canadense, contra apenas três protagonistas homens. “Eu sou da primeira geração de homens que teve contato com as novas ideias do feminismo”, afirmou Villeneuve ao jornal The New York Times. “E eu fui criado de uma maneira em que eu não sentia medo dessas ideias. Eu as achava algo lindo.”
No filme, ela é chamada para tentar entrar em contato com os recém-chegados discretos e decifrar sua língua misteriosa. Sem intenções violentas, sem reações assustadoras, sem ataques injustificados, as naves, aparentemente pacíficas, aguardam sobre a Terra conforme o mundo entra em colapso político e econômico. ETs fleumáticos e uma protagonista forte não são mais comum das combinações do cinema.
Outra aposta certeira — que, claro, decorre da anterior —, é que a base do argumento do filme é uma interpretação de uma teoria linguística que ganhou força na segunda metade do século 20 e hoje perde espaço para os avanços da psicologia e da neurociência: a hipótese de Sapir-Whorf.
ENTENDENDO A TEORIA
Edward Sapir era um antropólogo especializado nas associações entre língua e cultura. Benjamin Lee Whorf, por sua vez, um discípulo formado em engenharia química que se fascinou pela linguística a tempo de mudar sua história. Juntos, eles apostaram que a estrutura e o vocabulário de uma língua são capazes de moldar os pensamentos e percepções de seus falantes — e que, portanto, cognição e língua são inseparáveis.
Uma manifestação popular da teoria (apesar de errônea e banalizada) é a ideia de que povos esquimós do norte do Canadá saberiam identificar variações e tipos de neve que pessoas de outros contextos culturais não poderiam, porque sua língua teria uma gama muito maior de palavras para falar de água congelada. A ideia é tentadora — afinal, soa coerente que pessoas que passam 24h por dia em contato com a neve a conheçam tão bem assim.
Outra história com a cara de Whorf, tão ficcional quanto o filme de Villeneuve, é o romance distópico 1984, de George Orwell, em que um governo totalitário desenvolve uma versão simplificada do inglês, que exclui as palavras para determinados conceitos e ações — o que, em tese, impediria as pessoas de pensassem sobre a existência destes conceitos e ações.
Se na própria superfície do planeta há povos e línguas tão diferentes entre si, e no auge das pesquisas sobre determinismo linguístico foram encontradas evidências de que em algum grau a língua é capaz de afetar nossos pensamentos, é de se imaginar que uma língua alienígena, literalmente “de outro mundo”, tornaria a cognição dos seres que a falam muito, muito diferente da nossa.
E é assim, levando o argumento de Sapir e Whorf às últimas consequências, que Ted Chiang criou em seu conto uma trama que dá um nó no cérebro digno da sua expressão incrédula ao final de A Origem, de Christopher Nolan.
O curioso argumento linguístico, no filme, recebe uma edição incrível, que pega o espectador pela mão e o coloca, passo a passo, dentro da raciocínio da Dra. Banks conforme ela tenta decifrar a inexplicável língua extraterrestre — que na forma falada, é uma série de ruídos e grunhidos, e na forma escrita, consiste em símbolos circulares sem começo nem fim.
Em cima disso, claro, uma trama lírica e pessoal que começa com cheirinho de clichê e depois se entrelaça com o filme do jeito mais inesperado e fascinante possível. Um equilíbrio perfeito entre momentos de ciência e introspecção que vale cada centavo do ingresso.
Época.com

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